5.2 M ÉTHODE DE L ’ ARGUMENT RAISONNÉ
5.2.2 Classement des corridors
Last, but not least, é preciso considerar as análises de Leôncio Martins Rodrigues – estudioso de grande envergadura do movimento sindical brasileiro e mundial.
A ressalva inicial imprescindível é que, ao contrário dos autores estudados até aqui, Rodrigues, L. possui uma abordagem de viés conservador. Isto ficará claro quando for demonstrada a concepção de sindicalismo do autor: uma concepção tradeunionista79, voltada
para a obtenção de melhorias no trabalho, negociação e incompatível, em última instância, com a luta pelo socialismo.
79 Impende ressaltar para fins de esclarecimento que as lutas tradeunionistas não excluem a luta política, especialmente em nível parlamentar, com a constituição de partidos operários. A diferença está
O enfoque de Rodrigues, L. está calcado em seu profundo conhecimento da obra de Lênin. O autor estira as últimas consequências as concepções leninistas da vanguarda e do seu papel na educação do proletariado. Em suma, para Rodrigues, L. há (ou havia) uma luta ideológica no interior da CUT, onde a ação de setores intelectuais do sindicalismo white collar (chamados pelo autor intelligentsia) choca-se com a postura operária, de cunho nitidamente reformista. O perfil socialista da Central, portanto, seria fiduciário da atuação dos primeiros, e seu ocaso uma consequência necessária da constituição da CUT enquanto “sindicato” e não “movimento político”. Para Rodrigues, L. está aberto um fosso intransponível entre continuidade da ação sindical e socialismo.
O autor investiga de forma estritamente fundamentada a composição de classe presente na Central. Toda a análise de Rodrigues, L. desemboca na conclusão de que boa parte do perfil radical adotado pela CUT liga-se à atuação sindical de setores da classe média urbana, jogados na luta sindical pela perda de status e queda no padrão de vida:
Referimo-nos às categorias profissionais tradicionalmente consideradas de classe média, como os profissionais liberais (médicos, engenheiros, etc.), os professores e os funcionários públicos. Em fase de declínio social, de perda de status, de renda, etc., esses segmentos entraram na luta sindical com grande agressividade, superando, inclusive os trabalhadores fabris na realização de numerosas greves. Ideológica e politicamente, vêm-se revelando mais radicais do que muitos segmentos dos trabalhadores industriais. (RODRIGUES, L., 1991, p. 41)
Este viés analítico está presente em toda sua obra: a convicção no “reformismo operário”, na importação, grosso modo, do socialismo para o interior dos sindicatos pelos setores da esquerda marxista, e sua difusão na CUT pelos sindicatos cujo exercício profissional requer maior escolaridade:
As mobilizações dos estratos assalariados de classe média, especialmente das associações que reúnem assalariados de nível superior (professores universitários, profissionais da informática, médicos, sociólogos, engenheiros, etc.) ou de categorias mais amplas, que englobam tanto pessoal qualificado de baixa remuneração (setor da saúde, do ensino, do setor público, etc.) permitiram que os pequenos grupos da esquerda mais radical pudessem estabelecer, de modo mais orgânico e institucional, uma ligação com o sindicalismo de trabalhadores manuais e com a classe operária. (id., 1990a, p. 51)
O pano de fundo das considerações de Rodrigues, L. certamente encontra eco na literatura brasileira. A busca por uma quintessência do proletariado (revolucionário ou reformista) confunde dois planos distintos: o político e o ontológico. Não será necessário
demonstrar pormenorizadamente tal problemática, bastando lembrar que no plano ontológico não pode haver dúvidas quanto à condição subversiva estrutural do proletariado. Não há, deste ponto de vista, qualquer conciliação possível entre capital e trabalho, entre burguesia e proletariado e a luta de classes deve levar à necessária abolição da sociedade do capital pelo trabalho. Repetimos: é o próprio movimento do capital, em sua constituição contraditória, que cria e recria sua destruição – e esta destruição é necessariamente dada pelo trabalho. No plano político, todavia, outras mediações histórico-concretas podem levar o proletariado tanto a uma postura reformista, quanto explosivamente revolucionária80.
Sem apresentar uma clara distinção entre os planos, o autor chegará a inevitável conclusão de incompatibilidade entre socialismo e movimento sindical. Rodrigues, L., que identifica claramente nos sindicalistas “autênticos” (leia-se AS) o reformismo social- democrata e a postura tradeunionista, visualizará então dois caminhos inconciliáveis para a Central. Tratando em termos mais genéricos, o intelectual não hesita em afirmar no artigo Paradoxos do sindicalismo (id., 1990b, p. 44):
A sobrevivência do sindicalismo enquanto instituição depende, pois, de sua habilidade de desenvolver ações em defesa de seus associados, ou dos trabalhadores em seu conjunto, quer dizer, de ações antipatronais, mas
sem que isso, no limite, conduza à destruição do adversário. Em outras
palavras: os sindicatos, para garantir sua sobrevivência, devem ser
antipatronais mas não anticapitalistas, o que significa dizer também que o limite do poder sindical é a sobrevivência da empresa e da economia de mercado. (grifos nossos)
A afirmação do autor está rigorosamente correta, para uma perspectiva conservadora. Está claro que Rodrigues, L. não compreende o sindicalismo conforme apresentamos no primeiro capítulo deste trabalho. Está clara a unidimensionalidade do sindicalismo em sua análise. O socialismo, como planta exótica, seria importado de fora do sindicalismo. O pressuposto de Rodrigues, L. é correto: sindicalismo e socialismo não são sinônimos, tampouco idênticos. A conclusão, em nosso ver, também é correta quando aponta para a extinção do sindicalismo no socialismo. É equívoca, no entanto, a valoração dada à extinção do poder sindical. Rodrigues, L. aposta no poder de reação da casta sindical. O autor ignora o dever-ser histórico-ontológico do proletariado, qual seja, abolir todas as classes e a si mesmo como classe. Ora, o sindicato, como um subproduto da sociedade do capital, deverá necessariamente extinguir-se com o fim desta ordem sociometabólica. A organização do trabalho na sociedade comunista dar-se-á de outra forma, não pelos sindicatos tal e qual 80 Vários autores se dedicaram ao estudo desta temática. Sumariamente, cf. Marx (1995; 1988a; 1979), Lukács
conhecemos, pois suas duas funções precípuas: lutar pelos interesses imediatos e históricos dos trabalhadores terão desaparecido.
As elaborações deste intelectual dão arcabouço teórico à casta sindical, clarificando seus objetivos de solidificação e permanência, pois, uma vez assentado sobre o crescente processo de burocratização, tal grupo procura perpetuar-se na administração da máquina, fisiologicamente, afastando em definitivo os objetivos de luta emancipatória. Não se terá dificuldades então de concluir que
O crescimento da CUT e sua consolidação, a ampliação de sua responsabilidade no jogo político nacional implicam superar essa fase [do socialismo] para poder se constituir efetivamente como central sindical em condições de ter um papel significativo na defesa dos trabalhadores. Nesse sentido, a cultura socialista, que imagina a CUT como um instrumento de luta revolucionária, dificulta ou impede inteiramente que a
CUT possa ter um papel mais efetivo na dinâmica das disputas políticas e do jogo pelo poder, tal como o conquistado pelas centrais sindicais dos
países desenvolvidos. (id., 1990a, p. 91-2 – grifos nossos)
Está aí: o objetivo é o poder e não o socialismo. É a participação na ordem, no jogo democrático. A proximidade das análises de Rodrigues, I. e Rodrigues, L. é patente, embora o primeiro possua elementos de um viés de esquerda e o segundo tenha objetivos nitidamente conservadores.
É digna de nosso modestíssimo reconhecimento a coragem teórica de Leôncio Martins Rodrigues que, ao contrário do grande fluxo de intelectuais à época, manteve suas críticas à Central em formação. O autor não vacilou em defender suas concepções, respaldando-se, para tanto, sempre em amplo material empírico, em pesquisas consistentes, detalhadas e cuidadosas. Por isso mesmo, críticas que, no momento de efervescência do movimento sindical, poderiam parecer anacrônicas, hoje revelam, no mais das vezes, uma atualidade impressionante.
O problema não se encontra na “incompatibilidade” entre sindicalismo e socialismo, como quer nosso autor, mas no processo de burocratização sofrido pela Central – processo incentivado claramente por Rodrigues, L. É certo, a exemplo do PT, que este processo encontra suas raízes nas transformações conjunturais da sociedade do capital – com todos os seus correlatos econômicos, políticos e culturais. Contudo, não se pode atribuir a curvatura da Central a uma oposição de princípio entre socialismo e sindicalismo. As equações que revelam a curva possuem outros elementos fundamentais, como a compreensão da Central enquanto um “complexo de complexos” – determinante para a definição do tipo de
teórico-ideológico próprio, a permanência de velhas estruturas que confluíram com os anseios de burocratização, as linhas de menor resistência do capital, que tendem a favorecer a permanência das práticas que reproduzam seu sociometabolismo e a reorientação consciente (teleológica) das formas de atuação, a fim de sintonizá-las com o novo viés ideológico. Tudo isso pode ter sido relegado por Rodrigues, L. devido à sua convicção unidimensional de sindicalismo.