No Brasil, os gabinetes de leitura começaram a surgir durante o século XIX. Os primeiros estabelecimentos fixados em terras brasileiras partiram da iniciativa de imigrantes europeus. Entre os anos de 1844 e 1861, a capital do Império chegou a possuir por volta de oito gabinetes de leitura, a maior parte deles instalados na Rua do Ouvidor. O nome desses gabinetes, parte deles dedicados ao aluguel de livros, demonstram a primazia dos franceses nesse tipo de comércio: ―Gabinete Francez e Português de Mongie‖; ―Gabinete Francez e Português de Cremière‖; ―Gabinete Francez e Português de Desiré Dujardin‖; ―Gabinete Francez de Mme. Edet‖ eram alguns deles. Semelhante às boutiques à lire, a maioria desses estabelecimentos combinava a venda e o aluguel de livros, ou seja, recebiam assinaturas de quem desejasse emprestar livros e, ao mesmo tempo, disponibilizavam obras para a venda.
No entanto, o Rio de Janeiro e as demais províncias do Império também viram nascer outro tipo de gabinete, de caráter associativo. Foi o caso da Gesselschaft Germania ou Sociedade Germânia (1821), da British Subscription Library (1826), do Gabinete Português de Leitura (1837) e do Grêmio Literário Português do Pará (1867), do qual tratarei mais detidamente a seguir. A intenção de maior parte deles era favorecer e difundir a leitura, oferecendo a seus sócios, muitos dos quais oriundos de outras nações, um repertório de obras modernas e um espaço de sociabilidade, já que essas podiam ser lidas no local.
Segundo Nelson Shapochnik, a Sociedade Germânia foi a primeira biblioteca associativa instalada em terras brasileiras. Formada por membros da comunidade alemã
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SCHAPOCHNIK, Nelson. Os jardins das delícias: gabinetes literários, bibliotecas e figurações da leitura na corte Imperial. Tese de doutorado. São Paulo: Departamento de História da FFLCH, Universidade de São Paulo, 1999, p.14.
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85 estabelecida na Corte do Rio de Janeiro, essa instituição visava, a priori, estabelecer um espaço de sociabilidade para seus membros, de forma que a leitura de livros de instrução e de mera fruição não ocupava nele lugar proeminente222. Segundo os estatutos que regulavam o funcionamento dessa instituição, o domínio da língua alemã por parte de seus membros era pré-requisito para admissão na sociedade, fato este que excluía a maior parcela da sociedade fluminense da época. Somente a partir da segunda metade do século XIX foram admitidos pela instituição sócios de nacionalidade brasileira e uma biblioteca composta de jornais e livros entrou em funcionamento223.
Semelhante à Sociedade Germânia, a British Subscription Library foi fruto da iniciativa de imigrantes ingleses estabelecidos no Rio de Janeiro. Imbuída de espírito comunitário e da cultura protestante que estimulava a prática de leitura, em 1824 a instituição inglesa já dispunha de uma sala de leitura224. Segundo Schapochnik,
[p] ara os frequentadores da sala Birnie, a instituição se apresentava como um elo de ligação com ‗tudo o que se passava no mundo‘, permitindo obter mensalmente informações de pontos de vista variados sobre as oscilações do câmbio e do comércio internacional, das querelas entre o liberalismo e as forças restauradoras do Antigo Regime, etc. 225
Anos mais tarde, alguns membros da colônia lusitana que viviam no Rio de Janeiro também decidiram criar uma instituição de caráter associativo voltada para exaltação de sua cultura letrada e para o enaltecimento de seus heróis nacionais. Assim, o Gabinete Português de Leitura (RJ) foi fundado em 14 de maio de 1837 por um grupo de portugueses liberais que, fugidos das perseguições miguelistas em Portugal, aportaram na antiga colônia. Entre esses se encontram o advogado José Marcelino da Rocha Cabral e o comerciante Eduardo Alves Viana que, juntamente com outros imigrantes portugueses, reuniram-se no salão da residência do advogado Antonio José Coelho Louzada na referida data para a criação da sociedade portuguesa226.
O gabinete se caracterizaria como um espaço de sociabilidade, de forma a oferecer ao emigrado português ―uma espécie de embaixada cultural lusitana onde poderiam dispor das
222 Ibidem, p. 35. 223
Ibidem, p. 39-40. 224 SOARES, op. cit., p. 21.
225 SCHAPOCHNIK, op. cit., p. 46. 226
86 publicações em sua língua vernácula.‖ 227. Por essa razão, desde os seus primórdios, o objetivo principal da instituição foi a fundação de uma biblioteca portuguesa na Corte do Rio de Janeiro, de forma a difundir o gosto pela leitura não apenas entre seus compatriotas, bem como entre brasileiros.
Embora ainda limitados a um grupo específico da sociedade, os alfabetizados e aqueles que possuíam recursos financeiros para fazer uma subscrição, não resta dúvida de que a instalação desses espaços favoreceu a democratização da leitura, possibilitando ao ―leitor comum‖ o acesso ao livro. No Brasil, é somente em fins do século XIX que o preço dos livros passa a ser mais acessível à população, conforme Alessandra El Far, nesse período ―[t]anto as livrarias afamadas quanto as de menor prestígio passavam a comercializar livros mais simples, detentores de um acabamento precário, mas que pudessem ser adquiridos por um público amplo‖ 228
.
Não há como negar também que os gabinetes literários no Brasil, assim como na Europa contribuíram para a expansão do público leitor de um dos gêneros mais populares no século XIX, o romance. A esse repeito Sandra Vasconcelos assinala que
[t]ambém em terras brasileiras foram os livreiros e os gabinetes de leitura os responsáveis pela difusão e circulação de romances, exercendo um papel tão importante quanto aqueles na Inglaterra e França, como formadores e mediadores do gosto229.
Fato que corrobora as afirmações acima, segundo a qual os gabinetes de leitura no Brasil, assim como aqueles fundados na Europa tinham suas bibliotecas compostas prioritariamente por romances, são os catálogos das instituições de leitura fundadas no Brasil. Em pesquisa sobre gabinetes e bibliotecas instalados no Rio de Janeiro durante o Oitocentos, Schapochnik assinala que seus acervos eram compostos sobretudo por romances230, o que sugere a preferência pelo gênero por parte da maioria de seus associados, uma vez que a
227 AZEVEDO, Fabiano Cataldo. Contributo para traçar o perfil do público leitor do Real Gabinete Português de Leitura: 1837- 1847. Ci. Inf., Brasília, v.37, n.2, p.20-31, maio/agosto. 2008, p. 1. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ci/v37n2/a02v37n2.pdf
228 EL FAR, Alessandra. Páginas de sensação: Literatura popular e pornográfica no Rio de Janeiro (1870- 1924). São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 82.
229 VASCONCELOS, Sandra Guardini T. A formação do romance brasileiro: 1808-1860 (vertentes inglesas). Disponível em: http://www.caminhosdoromance.iel.unicamp.br/.
230 SCHAPOCHNIK, Nelson. Os jardins das delícias: gabinetes literários, bibliotecas e figurações da leitura na corte Imperial. Tese de doutorado. São Paulo: Departamento de História da FFLCH, Universidade de São Paulo, 1999, p. 51.
87 intenção da diretoria desses estabelecimentos, era, justamente atrair e agradar aos sócios e subscritores. Ao analisar o catálogo do acervo da British Subscription Library, por exemplo, verifica a presença hegemônica de autores de língua inglesa, o que para ele é resultante de ―uma afinidade linguística e cultural entre as comunidades dos associados‖ 231
. Dentre os autores que compareciam com maior número de títulos nessa instituição estavam os ingleses Charles Dickens, com 35 títulos e Eduard George Lytton, com 34 títulos. Já o exame de alguns catálogos do Real Gabinete Português de Leitura (RJ) mostra a presença hegemônica de obras de romancistas franceses, como Alexandre Dumas, Eugene Sue e Paul de Kock, em contrapartida as obras de romancistas portugueses, que pareciam se resumir às obras de Camilo Castelo Branco232.
Em pesquisa sobre os Gabinetes de leitura da Província de São Paulo, Ana Luiza Martins, a partir da análise de dois catálogos oitocentistas do Gabinete de Leitura Sorocabano (1867) também observa uma predominância de romances, sobretudo daqueles traduzidos do francês. Os romancistas com maior número de títulos nesses catálogos são Alexandre Dumas, Paul de Kock e Escrich, respectivamente233.
Desse modo, não resta dúvida de que os gabinetes de leitura não apenas divulgaram e popularizaram o hábito da leitura também em terras brasileiras, como possibilitaram a grande parcela do púbico leitor, acesso às obras literárias, sobretudo, ao gênero romance.
2.3. Um Gabinete de leitura na Província do Pará: Grêmio Literário Português do