Como indicado anteriormente, alguns conceitos relativos à música popular já se encontravam desalinhados à realidade, como destaca Hershmann:
Há vários conceitos e categorias que parecem explicar cada vez menos a realidade sociopolítica e econômica do universo da música, mas não deixam de ser empregados porque ainda orientam as ações dos atores sociais: majors e indies, mainstream e independente, gravadoras, álbum e mesmo o conceito de indústria ou indústria cultural. Ao mesmo tempo, alguns conceitos vão adquirindo grande importância para o desenvolvimento deste tipo de estudo, tais como o de cenas, circuitos culturais e cadeias produtivas (HERSCHMANN, 2011, p. 102). Segundo o pesquisador, o conceito de cenas musicais passou a ser mais apropriado por abarcar aspectos que vão além da discussão sobre as dicotomias da modernidade, como por exemplo, o underground e o mainstream para a música. Para Will Straw (2001), “'cena' é usada para delimitar grupos de atividade altamente locais e para dar unidade às práticas dispersas por todo o mundo. Ela funciona para designar sociabilidade face-a-face e como sinônimo preguiçoso para as comunidades virtuais globalizados de gosto” (STRAW, 2001, p. 248). Deste modo, a ideia de cena alternativa ou independente, para o mundo musical, se refere aos artistas
que não apresentam certa estrutura financeira, nem estão ligados às grandes gravadoras (majors) e emissoras de TV, ou ainda, que têm que criar suas próprias estratégias para se comunicar com seus públicos e divulgar sua banda e sua música.
Esta característica exerce, portanto, considerável influência do movimento punk que, por sua vez, foi influenciado por ideais da contracultura que se relacionavam com certa liberdade criativa por parte dos artistas que não se submetiam às regras do mainstream musical, mesmo que almejasse uma gravadora para financiar seu trabalho. Porém, já foi visto que esse aspecto da cena - totalmente independente e alternativa -, não existe, uma vez que, mesmos meios alternativos estão inclusos na comunicação mediática com fins mercadológicos27.
A cultura do do it yourself tomou conta das cenas urbanas musicais, principalmente do rock mundial nos anos 70, 80 e 90. Era preciso criar alternativas de estratégias, troca de informações, instrumentos de comunicação, entre outros, e tudo isso estava sob influência dos meios mais conhecidos como as mídias de massa como a TV, o rádio e o jornal. Os fanzines e as fitas demo fizeram parte das estratégias de comunicação dos artistas das cenas underground durante um bom tempo. Com o advento da internet é que pôde-se destacar o uso de ferramentas interativas mais eficazes com os fóruns, chats para bate-papo além de blogs e fotologs28, mais comuns na cena alternativa de Salvador antes mesmo da popularização dos sites de redes sociais, como Facebook, Instagram, Twitter.
Tal repercussão dos fotologs foi, inclusive, matéria jornalística na época. Em reportagem publicada pelo Jornal Estadão, a jornalista Cláudia Tozzeto relatou que a fama dos fotologs aumentou em 2004, a partir do lançamento da rede social Orkut, pois o Google limitava a quantidade de fotos publicadas. “Em suas biografias nos perfis do Orkut, brasileiros divulgavam links para suas páginas do Fotolog” (ESTADÃO, 2016). Os links sempre estiveram associados ao endereço fotolog.com junto ao título criado pelo usuário. Este recurso também foi utilizado pelas bandas e artistas das cenas independentes de todo o Brasil como uma forma de aproximar o público. Ao divulgar fotos de shows, viagens, gravações, ensaios,
27 Toda a indústria da música, desde a produção do produto fonográfico (o disco) até a divulgação, é associada, também, aos concertos e visibilidade dos artistas; guiada, portanto, por uma das áreas da comunicação que emergiu com a cultura de massa e o consumismo: o marketing. Phillip Kottler (2005), uma das referências mais conhecidas da área, sinalizou a definição da American Marketing Association a uma função organizacional e um conjunto de processos que envolvem a criação, a comunicação e a entrega de valor para os clientes, bem como a administração do relacionamento, de modo que beneficia, sobretudo a organização e o público interessado.
28 Apelidado como o precursor das redes sociais, pode se dizer que o fotolog funcionou como porta de entrada da cena musical independente ou alternativa local nas redes. Variação do termo blog, o fotolog foi criado em 2002 em Nova York, nos Estados Unidos, para funcionar como um diário de fotos capturadas pelas novidades dos momentos, as câmeras digitais - tecnologia que começava a ser popularizada, mas que ainda era um privilégio da classe média, alta.
momentos de convivência em grupo e intimidade envolvendo equipe e amigos criava-se uma mise-en-scène semelhante aos grandes astros do rock.
É possível citar o “rocktipolouco”, de Pitty; “drcascadura” da banda Cascadura, “thehonkers” (ainda em atividade); “bigbossrecs”, um dos nomes mais influentes da cena rock independente de Salvador, Rogério Big Bross, além de “alvarotattoo”, tatuador referência entre os adeptos da cena, “morotoslim”, guitarrista da Retrofoguetes, “martin_men”, ex-guitarrista da Cascadura e guitarrista de Pitty, “roneijorge”, da banda Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, “capitaoparafina”, banda de surf music, rock anos 50, “rocksalvador” perfil que divulgava as fotos de bandas locais com entrevistas e informações e até a “mtvsalvador” , perfil do canal brasileiro de música que, em sua versão local, teve curta duração. Se os fotologs e Orkut foram a grande tendência na primeira década dos anos 2000, a segunda década foi a vez do Facebook. O site de rede social criado em 2004 explicitou o já existente conceito de redes sociais, só que agora aplicado à internet.
Na obra de Mark Newman, Albert Barabasi e Duncan Watts (2015) é possível encontrar a definição de rede social como uma coleção de pessoas em que cada uma estaria familiarizada com algum subconjunto de outras pessoas. Segundo as ideias compiladas pelos autores em uma série de artigos, essas redes poderiam ser reais ou virtuais, contanto que aproximassem as pessoas, ou seja, evidenciassem a capacidade de agrupamento. Para os autores, a estrutura das redes sociais teve importante implicação na difusão de informações. De forma mais simplificada, eles reúnem modelos baseados em conceitos matemáticos para explicar o efeito da interconexão e rápida difusão de informação, como o small-world ou mundo pequeno de Stanley Milgram. O estudo empírico realizado em Boston utilizava a troca de cartas apenas entre pessoas que sabiam o primeiro nome umas das outras, o que comprovou que a distância máxima que nos conecta a outra pessoa é de seis passos, tal como foi chamado o experimento.
Uma pesquisadora da área da comunicação em redes sociais, Raquel Recuero (2009), apontou, como elementos de uma rede social da internet, as conexões constituídas pelos laços sociais criados pela interação social entre os atores” (RECUERO, 2009, p. 30). Assim, baseada neste aspecto, esta pesquisa busca se concentrar nos atores e nas interações sociais. São essas interações entre os atores, nos perfis dos grupos, que estabelecem uma parte da discussão aqui empreendida.
Portanto, compreende-se agora o porquê do pequeno universo da chamada cena musical alternativa de Salvador rapidamente se expandir: graças à conexão e interação entre os principais atores, os artistas e grupos musicais. A intensificação de posts com imagens, vídeos, links e textos que reafirmavam, de forma quase unânime, a ideia de uma nova música baiana,
deu certo. Dentre os atores selecionados na análise estão os perfis das bandas BaianaSystem, Cascadura e Opanijé, no Facebook e Twitter.
Para complementar esta discussão, o capítulo seguinte trata, separadamente, de cada grupo musical identificado no recorte da pesquisa. Com o título BaianaSystem29, Cascadura30
e Opanijé31, as bandas figuram como representantes da Nova Música Baiana. Observamos suas
atuações na internet, através de sites de redes sociais, como Facebook e Twitter, como espaços que manejam as estratégias e posicionamentos principais dos grupos.