A aplicação desta proposta surgiu a partir de problematização realizada pelos acadêmicos do Curso de Graduação em Enfermagem da 8ª Unidade Curricular da Universidade Federal de Santa Catarina com profissionais das próprias Unidades Locais de Saúde. Foram realizados encontros com os enfermeiros e a coordenação das unidades, a fim de se identificar as principais necessidades de aprimoramento destas consultas, como também o acompanhamento dos acadêmicos durante a realização das consultas de rotina e a coleta de dados com base nos altos índices de gravidez durante a fase da adolescência ou recorrência desta por parte de muitas jovens.
Utilizou-se a metodologia de observação ativa nas consultas de enfermagem realizadas rotineiramente, com a finalidade de conhecer a maneira como era realizada nos dois locais de prática, seus pontos positivos e fragilidades.
Observou-se nos campos de estágio, principalmente na ULS RV que os usuários não tinham conhecimento a respeito do significado da palavra Planejamento Familiar, além de desconhecerem o fato da existência de consultas a respeito desse tema e que esse tipo de serviço era fornecido pela unidade. Muitas pessoas procuram a unidade para saber como conseguem um encaminhamento para realização da vasectomia e laqueadura, mas não procuram informação sobre os outros métodos contraceptivos fornecidos pela unidade. Além disso, percebeu-se, por esta observação,
a importância de enfatizar o papel da mulher no seu auto-cuidado, no planejamento familiar e na prevenção de uma gravideznão planejada.
Em vista dessa falta de informação, e necessidade das realidades surgiu a proposta de realização deste estudo que vem ao encontro da nova política de planejamento familiar que visa atenção integral à saúde da mulher, homem e adolescente fornecendo informações sobre métodos contraceptivos com o objetivo de promover a prevenção de HIV/Aids, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada. Além disso, esta política também visa ampliar o acesso à esterilização cirúrgica voluntária pelo SUS. Lembrando que em função dessa procura para realização de laqueadura e vasectomia ser grande nas unidades e com base nos dados coletados, foi levantada a proposta de aprimoramento da consulta de enfermagem a jovens mulheres voltada ao planejamento familiar mediante a coordenação da ULS- RV, UBSF CAIC e a junta de enfermeiros dos locais.
Após discussão da proposta junto às unidades, houve a elaboração dos roteiros (atendimento, perguntas norteadoras das gravuras e avaliação) por parte dos acadêmicos, com perguntas abertas e fechadas (roteiro de avaliação). O roteiro de atendimento continha informações de identificação pessoal e sócio-cultural além de questões que se julgou importante para a execução do trabalho como: inicio da atividade sexual, número de filhos, métodos contraceptivos e as questões relacionadas ao planejamento familiar.
Para a escolha do público, foram selecionadas mulheres que já haviam passado por, pelo menos, uma gestação e que tivessem entre 15 e 24 anos de idade para que fosse possível conhecer a representação de uma gravidez na vida de uma jovem mulher, bem como orientar a respeito da contracepção.
Na ULS RV foram inicialmente identificadas mulheres que haviam sido cadastradas no programa SIS Pré-Natal no ano de 2006, até janeiro de 2007. Após esta etapa foi estabelecido contato telefônico com cada mulher, a qual era comunicada sobre a realização do estudo pelos acadêmicos e convidada à participação. De acordo com a manifestação do interesse, realizava-se o agendamento. Na UBSF CAIC, essa seleção foi realizada com o auxílio dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), os quais têm conhecimento de todas as pessoas da área. Dessa forma, priorizando àquelas
que tinham mais necessidade de orientações, cada ACS selecionou em média 2 a 3 mulheres de sua microárea para uma consulta agendada com a acadêmica.
Com relação à implementação da consulta, pode-se afirmar que esta foi realizada em 5 etapas:
A primeira etapa, início da consulta, apresentava-se Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice A) que explicava à paciente sobre o compromisso dos estudantes em manter sigilo das informações ali coletadas, bem como da omissão de qualquer responsabilidade da paciente frente ao surgimento de qualquer ordem de problemas inesperados. Este termo era assinado pela paciente, quando maior de 16 anos, ou por um responsável, quando menor de 16 anos, oficializou o compromisso entre estudantes e pacientes.
A segunda etapa era a aplicação do Roteiro de Atendimento (Apêndice B) na qual continha alguns questionamentos já citados anteriormente onde permitia a mulher sentir-se livre para expressar seus sentimentos e dúvidas a respeito dos temas abordados.
Na terceira etapa utilizavam-se algumas perguntas norteadoras (Apêndice D) baseadas em gravuras (Apêndice C) apresentadas as pacientes, que continham questionamentos no qual ela poderia expressar suas emoções a respeito da gravidez precoce, convívio social e familiar, relacionamento interpessoal e auto-estima.
Na quarta etapa ocorria a exposição e orientações sobre métodos contraceptivos por meio de um mostruário (Apêndice E) onde continham todos os métodos contraceptivos fornecidos pelas unidades. Nesse momento eram apresentados os métodos a paciente e solucionadas possíveis dúvidas que viessem aparecer. Vale ressaltar que cada unidade construiu seu próprio mostruário, porém as informações contidas eram as mesmas para as duas realidades.
A quinta e última etapa era a aplicação de um Instrumento de Avaliação (Apêndice E), no qual era preenchido no final das consultas pelas pacientes que avaliavam a eficácia da consulta. Se era válido tal atendimento, qual foi o aprendizado obtido e sugestões para a melhoria da assistência.
A proposta de aprimoramento da consulta visa aproveitar ao máximo o tempo disponível de cada consulta melhorando o atendimento à mulher, para que a mesma se
sinta livre para expressar seus sentimentos e dúvidas; visa também priorizar o atendimento individualizado, facilitando a exposição do pensamento e posicionamento da paciente; proporcionar atendimento em espaço físico e condições humanas de segurança e conforto, preservando assim o bem-estar físico e psico-emocional do paciente e do profissional; orientar sobre os direitos reprodutivos da mulher, vista como principal sujeito deste processo, capaz de decidir por si mesma, e não somente optar pela distribuição de métodos contraceptivos e orientação destes.
6. CONFRONTANDO AS REALIDADES DAS CONSULTAS