Chapitre II METHODES ET TECHNIQUES EXPERIMENTALES
II. 4 2.2 Circuits électriques équivalents
Se, na situação argumentativa, o ethos é vinculado ao âmbito de produção do
discurso, o pathos117, por sua vez, volta-se à recepção do discurso pelo auditório. Como já
tivemos a oportunidade de elucidar previamente, o estudo das paixões data da antiguidade.
115
“É a partir disso que podemos ver como a imagem prévia do locutor é reformulada pelo discurso que por vezes a reforça, por vezes trabalha para transformá-la” (Tradução nossa).
116 “Uma análise das imagens de si no discurso, juntamente de um conhecimento da situação de enunciação e da
representação prévia do locutor, permite assim ver como é configurado um ethos que deve contribuir ao caráter persuasivo da argumentação” (Tradução nossa).
117 Inúmeros autores de diversas áreas já discorreram sobre diferenças terminológicas entre termos como
“emoções”, “paixões”, “sentimento” etc.. Com Charaudeau (2010), optamos pela utilização de “pathos”, “patêmico” e “patemização”, por acreditar que esses termos abrangem todos aqueles outros. Além disso, dessa maneira, acreditamos ficar mais próximos da tradição retórica aristotélica e, ainda, de certa maneira, permanecemos afastados de outros campos, como o da psicologia e da sociologia.
Contudo, embora outros campos do conhecimento tivessem desenvolvido suas pesquisas sobre as emoções, após um longo período de esquecimento e de desconfiança, somente na modernidade a área da linguagem voltou seus olhos novamente para elas.
Apesar de os retóricos antigos, gregos e latinos, a exemplo de Platão, Aristóteles e Cícero, reconhecerem a função das emoções no alcance da persuasão, esta prova retórica desde aquela época é vista de maneira negativa. Isto porque, segundo esses retóricos, as emoções cegam os olhos, impedem o juízo e a sensatez, por isso deveriam ser controladas. À época, em sentido oposto às emoções estaria o logos, entendido como sinônimo de razão e segundo o qual os discursos deveriam ser regidos.
Séculos depois, como aponta Lima (2015), esse descrédito histórico foi ainda mais acentuado a partir do pensamento racional de Descartes, que trouxe consequências para os estudos da linguagem também. Exemplo disto é a concepção cartesiana adotada pela escola de Port Royal, que acredita na linguagem como representação do pensamento e cuja “principal intenção era mostrar que a estrutura da língua seria um produto da razão” (LIMA, 2015, no prelo). Além disso, a autora aponta os estudos de Saussure, que se voltaram à estrutura da língua de maneira taxonômica e objetiva, excluindo sujeito, história e ideologia.
Ainda no campo da linguagem, após a retomada dos estudos retóricos a partir do Tratado, de Perelman e Tyteca, ao que se seguiram Toulmin, Grize e Ducrot, como vimos previamente, as emoções foram deixadas de lado por um longo período, já que todas essas teorias privilegiaram uma perspectiva mais lógica. Galinari (2007, p. 226) ainda destaca o trabalho de autores da lógica informal, tais como Hamblin (1970) e Copi e Burgess-Jackson (1996) que entendem as emoções como “sinônimo de paralogismos, ou melhor, como erros/vícios de raciocínio, expressões do impensado, engodos, falácias....”.
Lima (2006) assinala teorias que já se ocuparam das emoções, tais como a Psicologia, a Antropologia, a Filosofia etc., e mostra que em seus trabalhos, cada área privilegiou a abordagem que atendia a seus interesses. Por fim, a autora ressalta o estudo das emoções segundo três categorias teóricas: as teorias sensacionalistas, que reduziram as emoções a estados subjetivos, a sensações; as teorias cognitivistas, que defenderam uma base cognitiva nas emoções; as teorias realistas, que ligaram as emoções à percepção.
Foi apenas entre 1980-1990 que a Análise do discurso deu início a estudos “no sentido de procurar entender a gestão dos afetos nas relações sociais, a lógica própria dos sentimentos, em suma, a sua racionalidade psicossocial” (GALINARI, 2007, p.227). Esses estudos contribuíram, assim, para enfraquecer as teorias que colocavam razão e emoção em lados opostos. No panorama desses estudos mais recentes, destacaremos as propostas de
autores que, assim como nós, acreditam na argumentatividade das emoções e também em seu lado racional. Como explica Plantin (2008, p. 126), “A análise argumentativa tem de encontrar os meios de abordar de modo global a questão dos afetos, apoiando-se em um modelo coerente da construção discursiva do conteúdo patêmico, indissociável do conteúdo lógico do discurso”. Este modo de ver as emoções como sendo constituídas de uma racionalidade é corroborado por autores como Plantin, Charaudeau, Amossy, Meyer dentre outros. De imediato, ressaltamos não haver intenção de uma retomada exaustiva dessas teorias.
A proposta de Plantin (2010, p. 57) é a de que se o discurso argumentativo instaura um ‘dever crer’ e um ‘dever fazer’, é possível “da mesma forma ‘argumentar emoções’ (sentimentos, experiências, afetos, atitudes psicológicas), ou seja, fundar, se não em razão, pelo menos por razões, um ‘dever experienciar’”. A argumentação das emoções ocorre, portanto, quando o discurso justifica o aparecimento de uma emoção em uma pessoa. O autor determina, então, uma organização para o tratamento da questão: a designação direta das emoções, que ocorre quando “a emoção é claramente designada por um termo de emoção” (PLANTIN, 2010, p.62); as designações indiretas, que reconstroem possíveis emoções por meio de indícios linguísticos (termos de cores e verbos) e por meio de lugares comuns
situacionais e atitudinais118. Por fim, Plantin ainda trata dos enunciados psicológicos e
enunciados de emoção. Com esse aparato, a ideia de Plantin é especificar os topoi que garantem a coerência do ‘discurso emocionado’.
Para Amossy, segundo Alves (2007, p. 67), “o pensamento é passional e a racionalidade é necessariamente afetiva, ou seja, poderia-se (sic) falar, assim, na existência da ‘razão das emoções’”. Nesse sentido, Amossy acredita não ser possível separar razão e emoção, uma vez que estas seriam engendradas a partir de uma base dóxica, ou seja, a partir de uma apreensão do senso comum. Alves (2007) explica que, para Amossy, a lógica das paixões seria uma lógica das consequências, por ser regida por um princípio de finalidade que, portanto, visa à realização de um objetivo e que a função argumentativa do pathos é exercida no discurso pelo logos, incitando a adesão do auditório. Por tudo isso, Amossy considera essencial a análise do pathos como estratégia discursiva.
Outro pesquisador que corrobora a ideia das emoções constitutivas de certa racionalidade é Charaudeau (2010). Em “A patemização na televisão como estratégia de autenticidade”, Charaudeau explica o que, para ele, significa o estudo das emoções a partir do
118
Como mostraremos adiante, esta ideia se relaciona com Amossy e Charaudeau ao discorrerem, respectivamente, sobre a importância da doxa e das crenças para a instauração patêmica.
ponto de vista discursivo. Segundo o semiolinguista, a visão da análise do discurso se diferencia dos olhares da psicologia das emoções, uma vez que estes “estão centrados no indivíduo e propõem explicações causais sobre seu comportamento, seja ele fisiológico ou psíquico” (CHARAUDEAU, 2010, p.24). Da mesma maneira, o modo discursivo de ver as emoções ainda se diferencia do da sociologia das emoções, já que este focaliza a importância das emoções na regulação do indivíduo com a sociedade. Apesar dessas alegações, Charaudeau (2010, p. 26) considera essas duas perspectivas necessárias ao estudo discursivo “na medida em que suas análises evidenciam os mecanismos de intencionalidade do sujeito, os da interação social e a maneira como as representações sociais se constituem”.
Sem desconsiderar as contribuições da psicologia das emoções e também da sociologia das emoções, Charaudeau (2010) estrutura a perspectiva discursiva sob três pontos principais:
1) As emoções são de ordem intencional: elas se manifestam no sujeito tendo em
vista algo que ele deseja, e este desejo decorre de uma racionalidade por visar um objetivo.
2) As emoções estão ligadas a saberes de crença: elas podem ser entendidas como
resultado de julgamentos realizados pelo sujeito, os quais são embasados em crenças partilhadas por determinado grupo social, o que leva a uma sanção moral favorável ou não. Nesse sentido, a mudança de uma crença gera mudança de emoção e vice-versa.
3) As emoções se inscrevem em uma problemática da representação: elas são
entendidas como estados mentais que se apoiam sobre crenças. As representações são formadas pelo elo entre o sujeito e o mundo, são como mini narrativas propagadas socialmente que quando agrupadas constituem os imaginários sóciodiscursivos. A representação é chamada patêmica quando se liga a uma situação em que um julgamento de valor partilhado socialmente “[...] questiona um actante que acredita ser beneficiário ou vítima, e ao qual o sujeito da representação se encontra ligado de uma maneira ou de outra.”. (CHARAUDEAU, 2010, p. 32).
Sobre o tratamento discursivo das emoções, Charaudeau (2010) ainda problematiza três questões. Em primeiro lugar, ele alerta para o fato de que a emoção deve ser tratada como efeito visado, uma vez que a análise do discurso não possui aparato metodológico para estudar o efeito produzido. A segunda questão colocada é que o contexto
sociocultural influencia a organização do universo patêmico. Nesse sentido, para o estudo deste universo, é necessário levar em conta a situação de comunicação envolvida na troca, os saberes partilhados e a estratégia enunciativa.
Por fim, Charaudeau (2010, p. 37-38) ainda problematiza as possíveis marcas que seriam indicativos de emoção. O efeito patêmico pode ser produzido, nesse sentido: por palavras “que descrevem de maneira transparente a emoção”; palavras que, embora não descrevam as emoções, “são tidas como boas candidatas ao seu desencadeamento”; enunciados que “são susceptíveis de produzir efeitos patêmicos, desde que tenhamos conhecimento da situação de enunciação”.
Outros autores também trabalham com uma abordagem próxima desta. Podemos citar, por exemplo, os trabalhos de Lima (2006 e 2015) em que a pesquisadora aborda a noção de visée, partilhando com outros autores “a ideia de que as emoções contêm uma orientação em direção a um objetivo e que esse objetivo é considerado sob uma descrição intencional” (LIMA, 2006, p. 135). Além disso, nas trilhas de pesquisadores tais como Nussbaum, Elster, Paperman e Le-Breton, Meyer, Amossy, Lima (2015, no prelo) salienta que as paixões estão ligadas à nossa relação com os outros, “elas são respostas às representações que os outros concebem de nós.” Nesse sentido, as paixões são julgamentos feitos a partir de lugares- comuns, de ideias convencionais, ou seja, da doxa, e são construídas ao longo da vida, o que exclui a oposição razão-emoção.
Galinari (2007, p. 237), por sua vez, afirma que “as emoções afloram-se no auditório seguindo a dinâmica dos julgamentos: o auditório avalia os objetos discursivos, os raciocínios dos oradores e os ethè atualizados na cena discursiva” (grifos do autor). Nesse sentido, para o autor, o pathos erige a partir de três tipos diferentes de elementos: os elementos da doxa, já que os saberes socioculturais partilhados ocasionam avaliações que podem, assim, gerar determinadas emoções em determinado auditório; os elementos do logos, os quais não se ligam necessariamente, ou somente, às palavras de emoção, mas a “toda e qualquer palavra em ação” (GALINARI, 2007, p. 234); os elementos do ethos, já que o ethos emocionado do orador poderia envolver o auditório em uma comunidade emocional, de maneira que todos sentiriam as mesmas emoções. O pathos, então, pode surgir por uma mistura de todos esses elementos ou individualmente, não possuindo, portanto, uma especificação linguístico-discursiva.
Finalmente, para depreender a análise argumentativa das emoções, é fundamental saber que:
[...] não se trata, para a AD, de criar um ‘receituário’ para o bom desempenho dos oradores (via emoção) como na sofística, muito menos de atribuir julgamentos de valor às paixões (se são boas ou más, certas ou erradas), como se ocupam as teorias das falácias, mas se trata de elucidar a engrenagem retórica dos enunciados sociais, identificando aquilo que é propenso a emocionar. (GALINARI, 2007, p. 228) (grifo do autor).
Nesse sentido, levando em conta as propostas teóricas destacadas e sabendo da importância dos elementos patêmicos para a persuasão, apresentaremos em nossa análise os procedimentos linguístico-discursivos capazes de emocionar um determinado auditório, além dos possíveis efeitos de sentido gerados.