Por definição, o ministério jovem adventista é entendido como “a obra da Igreja conduzida para, com e pelos jovens” (Manual da Igreja Adventista do Sétimo Dia, 2011, p. 106). Os objetivos se centralizam em três grandes frentes de atuação (ALLEN, 2012, p. 7):
(1) Levar os jovens a compreenderem seu valor pessoal e a descobrirem e desenvolverem seus dons e habilidades espirituais;
(2) Preparar e habilitar os jovens para uma vida de serviço com a igreja de Deus e a comunidade;
(3) Assegurar a integração dos jovens em todos os aspectos da vida e liderança da igreja, para que participem plenamente na missão da igreja.
Os jovens adventistas não estavam sozinhos ao incorporarem esses objetivos ao seu ministério. Os líderes do movimento adventista também acreditavam fortemente nesses objetivos e foram arquitetos e promotores desse novo ministério em favor da juventude. Eles também viam, nessa frente de trabalho, um método seguro e estratégico para preservar a juventude das más influências da sociedade, aprofundar sua experiência de salvação em Jesus e prepará-los para o serviço e para a pregação do evangelho a todos na geração em que viviam.
Allen (2012, p. 94-95) cita em sua obra dois discursos de 1907 proferidos pelo, então presidente geral da IASD, A.G Daniells, em que ele sinaliza os propósitos e a direção do ministério jovem ainda incipiente. No primeiro deles, de caráter mais exortador, ele diz que:
Precisamos ter uma compreensão clara do serviço que nossos jovens devem prestar a esta causa, e nós mesmos devemos ser levados a fazer planos simples, mas eficazes, para levar avante essa obra. Queremos que este encontro traga novo poder e vida para que, com sabedoria, inspiração e resolução, lancemos um movimento que seja tão abençoado por Deus que convide para o serviço as fileiras de nossos jovens. Eles dispõem de muita energia que podem aplicar para o bem.
O segundo discurso de Daniells é mais enfático no sentido de declarar que a missão da juventude adventista não é diferente da missão do movimento adventista como um todo, mas a mesma, distinguindo-se apenas pelos meios que cada faixa etária haverá de usar para cumpri- la:
Nossa missão ao mundo pode ser resumida em proclamar a mensagem do terceiro anjo a cada nação, tribo, língua e povo. Não creio que haja um outro povo no mundo que reivindique tal missão. Nunca, na história da igreja, foi lançado e levado avante um movimento como este. O que é esta mensagem do terceiro anjo? Terá chegado o tempo de levá-la a todo o mundo? A única fonte de informação relativa a essas perguntas é a Palavra de Deus. Aquilo que chamamos de mensagem do terceiro anjo encontra-se registrado no capítulo catorze de Apocalipse, versos seis a doze. É uma tríplice mensagem que se deve dar ao mundo. Cada parte deve receber sua ênfase no momento apropriado e, no final, todas as partes devem combinar-se numa grande e solene mensagem de advertência de Deus para o mundo. Nossa missão no mundo é proclamar essa mensagem. Este fato deve ser impresso na mente de nossas crianças e jovens. O ensino de nossas escolas, os cultos de nossas igrejas, o ideais apresentados e conceitos expostos devem todos ter como fim impressionar a mente de nossas crianças e jovens com o fato de que sua missão como indivíduos deve ser a missão de toda a igreja, a saber, proclamar ao mundo a mensagem do terceiro anjo. [...] Sob um ponto de vista religioso, os jovens adventistas são os mais felizes e abençoados jovens dentre a juventude do mundo. Possuem a missão mais definida dentre todos os jovens. E, agora, devemos inspirar nossos jovens a fim de consagrarem suas energias e vidas para a conclusão dessa obra. Alguns os maiores e mais notáveis missionários do último século foram homens que partiram para o campo missionário com menos de trinta anos de idade.
O teor das palavras de Daniells é muito explícito. Em primeiro lugar, ele não dissocia a missão da juventude adventista da missão da igreja como um todo. Para ele, há uma continuidade e complementaridade entre elas. Essa preocupação de Daniells de compatibilização geracional se estende até hoje sendo ventilada em alguns dos documentos oficiais da IASD. O “Manual do Jovem Adventista”, publicado em 2018, por exemplo, diz que “o ministério jovem se distancia de seu objetivo quando assume uma vida própria, com objetivos ou uma agenda separada dos demais ministérios da igreja” (CAMPITELLI, 2018, p. 113). O “Manual da Igreja Adventista do Sétimo Dia” (2011, p. 107), material que traz os parâmetros da organização adventista, diz que: “é importante que a programação dos jovens não esteja isolada do programa da igreja. Os jovens devem ser engajados em responsabilidades de liderança e em todos os ramos do trabalho da igreja”.
Em segundo lugar, Daniells realça o aspecto exclusivo da missão que o movimento adventista e, por conseguinte, sua juventude acolheram32. Esse aspecto pode sim gerar uma
tensão entre uma identidade sectária e o mundo contemporâneo (FOLLIS, 2010, p. 96-99), mas não significa que os adventistas estejam se posicionando como melhores atores religiosos em relação as demais religiões mundiais (RODRIGUEZ, 2011). Significa, sim, que a juventude adventista, assim como a IASD de forma geral, se enxerga na responsabilidade de compartilhar uma mensagem exclusiva para o tempo em que estamos vivendo.
Em terceiro lugar, ele destaca que essa missão está fundamentada na Palavra e tem como vocação o anúncio ou proclamação da mesma em caráter de urgência. O cumprimento desse dever urgente, no entanto, segundo Allen (2012, p. 64, 114-130), já foi ameaçado por algumas razões: (1) encarar o ministério jovem como um mero agrupamento de entretenimento e recreações sociais; (2) torná-lo um fórum de debates das questões sociais; (3) fazer do serviço missionário uma atividade de cunho meramente social perdendo de vista seu caráter missiológico que tem como pano de fundo a proclamação do evangelho.
Por fim, o discurso de Daniells lembra os jovens de sua aptidão e condição privilegiadas para se engajarem nesta missão. Condição esta que segue sendo encorajada pela liderança da IASD a fim de que os jovens possam atuar como missionários (KUHN, 2011). Essa concepção de uma juventude disposta e preparada para o serviço também serviu de base para se lançar um dos fundamentos da educação adventista que consiste exatamente numa consciência/atitude servidora (SUAREZ, 2010).
32 Esse sentido exclusivista ou distintivo da missão adventista está fortemente arraigado em um dos aspectos
No entanto, Daniells não foi o único a se pronunciar acerca do ministério jovem no intuito de contribuir com a gestação de sua missão e filosofia. Outros líderes do movimento também o fizeram. O professor B. G. Wilkenson, por exemplo, segundo Allen (2012, p. 98-99) declarou que:
A melhor organização de jovens será fraca se não estiver baseada na Bíblia. Sim, uma organização como essa pode ser fundada inclusive sobre princípios da Palavra de Deus... Esse exército de jovens não é toda a igreja; tampouco deve tomar o lugar dela. Mas, ligado à igreja pelos indissolúveis laços de um propósito comum, pode e deve formar a linha de combate, permanecendo a igreja ativa, produzindo e enviando o material necessário. Precisamos tomar providências quanto ao treinamento de guerreiros cristãos. O poder da mensagem se fará sentir rapidamente em todas as terras e países, e em breve estaremos no lar.
Os mesmos elementos contidos na declaração de Daniells voltam a aparecer na de Wilkenson: a ênfase no compromisso com a Bíblia, a harmonia entre as diferentes gerações pertencentes a igreja e o preparo para a missão em todos os lugares necessários. Allen (2012, p. 103) também menciona as colocações de Graf sobre a filosofia do ministério jovem:
A sociedade missionária e a sociedade de jovens têm muito em comum. O objetivo final de ambas é a mensagem do advento a todo o mundo nesta geração; mas enquanto o trabalho principal das sociedades missionárias tem sido levar a verdade aos que não pertencem a nossa fé, o objetivo básico e imediato das sociedades dos jovens é a salvação e o desenvolvimento da juventude e ninguém pode trabalhar tão eficientemente nesse sentido.
Em suma, poderíamos resumir a atuação do ministério jovem em duas dimensões, que são expressas no slogan popular entre os jovens adventistas “salvação e serviço”. A primeira dimensão está ligada a uma atuação interna, que valoriza o desenvolvimento dos dons, o crescimento do jovem no discipulado e a preservação de sua salvação e identidade denominacional. A segunda esfera de atuação contempla mais um trabalho externo, que visa ao cumprimento da missão33, por meio da capacitação da juventude para o serviço a Deus e a
sociedade na qual o jovem está inserido.
2.2 A juventude adventista no Brasil: um olhar a partir dos dados do IBGE (1991,