1 PLAIES COMPLEXES ET THÉRAPIE PAR PRESSION NÉGATIVE
1.3 La cicatrisation
Foucault já havia se ocupado, de certo modo, e com objetivos distintos, sobre a relação infinita da linguagem com a pintura na apurada descrição que fez do quadro Las meninas, de Diego Velázquez, no capítulo de abertura de As palavras e as coisas. Indispensável lembrar que, além de aludir a problemas específicos da pintura, o quadro faz-se ali emblema de uma análise arqueológica das condições de possibilidade e de transformação das epistemes clássica e moderna no ocidente. Para mais, o quadro é ele mesmo uma visibilidade que faz ver a descontinuidade no modo de ser das coisas e da ordem entre os códigos fundamentais de ambas as epistemes.
Ora, antes de ser um conjunto de linhas e cores, um quadro é “um regime de luz”, é definido por um “agrupamento da luz” relativo a uma época: “o que definirá as visibilidades de uma época é o há luz, ou o ser-luz, que varia de uma formação a outra” (DELEUZE, 1985:2013, p.87, trad. livre). Por outro lado, o ser da linguagem, o fala-se, é igualmente inseparável do
modo histórico que adota em relação a tal ou qual formação.
Aqui, interessa-nos aproximar, em específico, da descrição da pintura feita por Foucault delimitando-nos a um breve sobrevoo sobre a relação entre linguagem e representação ali problematizada, em que pese a profundidade do desenvolvimento das análises do filósofo, e a complexidade com que as teses de As palavras e as coisas se constituem.
Logo nas primeiras linhas da análise, o leitor de Foucault, e espectador do quadro de Velázquez, dirige a atenção à representação do pintor na tela. Diante da mão hábil do pintor, então pendente do olhar o qual, em troca, repousa sobre seu gesto
suspenso, o observador entrevê situar-se precisamente entre o olhar e o gesto a possibilidade primeira do espetáculo “liberar seu volume”. Esse entre presume, como se percebe ao seguir o desenvolvimento da análise, desvios e distâncias: dentre os quais se torna possível iden-tificar o talhe de duas visibili-dades distintas. Em meio à descrição da posição do pintor (que, num instante de pausa, olha em direção ao espectador, essa figura ausen-te, posicionada no motivo do pintor; para dentro em pou-co, voltar à tela que o res-guardaria de nosso olhar), e ponderando ainda a inviabi- lidade do pleno acesso do espectador ao quadro (do qual ele só vê o avesso), Foucault põe à vista o limiar existente entre duas visibilidades incompatíveis: a do representante e a do representado, ou, no limite, do ver e ser visto. Por entre um interminável jogo de olhares (dos olhos do pintor ao que ele olha e ao que nós olhamos), somos levados a compreender que nós, espectadores, ligamo-nos à representação em um espaço que de certo modo não lhe cabe, ou seja, um espaço que se desdobra para fora do interior da obra. Nós “não fazemos parte do quadro. Nós lhe pertencemos, pois ele nos pinta; ele nos pertence, pois nós o contemplamos” (FOUCAULT, 1965:2009a, p.198). Nesse espaço entre o ver e o ser visto, entretanto, a relação não é, e jamais poderia sê-lo, de pura reciprocidade. Precisamente porque essa tênue linha de visibilidade que sobre ele se estende envolve toda uma rede complexa de incertezas, de trocas, de evasivas. Nenhum olhar é estável no jogo instável das metamorfoses onde o sujeito e o objeto, o espectador e o modelo “invertem seu papel ao infinito”. Nesse centro onde os olhares se encontram, no “sulco neutro” onde a linha de visibilidade é traçada, ambos, sujeito e objeto, espectador e modelo, são fatalmente excêntricos; o que significa que não têm um centro comum, embora entre um eles se cruzem.
A “vasta luz dourada” que entra pela janela e percorre a sala onde a cena ocorre impele ao mesmo o espectador em direção ao pintor e o modelo em direção à tela: luz que serve de lugar comum à representação (FOUCAULT, 1966:1999, p.7). Por meio da descrição do quadro de Velázquez, Foucault dá a ver a presença, na obra, da noção clássica de representação, expressa pelo espelho no fundo do quadro, ao mesmo tempo em que faz ver que a pintura escapa a essa noção, uma vez que se pode considerar o quadro como sendo a representação da representação. Ao passo em que o sujeito entra em cena ‒ no lugar da invisibilidade que a obra faz ver, pelo olhar mesmo do pintor –, Las meninas anuncia já um novo modo de pensar a representação. Para além da apreensão do real, de seu espelhamento, anima-se a duplicidade da imagem: põe-se em cena todo um jogo entre interioridade e
exterioridade, entre o visível e o invisível, entre o visível e o enunciável. Problemática, por sua vez, atualizada sob o “caligrama desfeito” de Magritte, através do qual Foucault (1973:1988, p.26) conclui, mais uma vez, ser preciso que “o olhar se mantenha acima de todo deciframento possível” ‒ reiterando assim a fenda já manifesta, dois séculos antes, entre linguagem e representação, entre imagens e palavras, entre “as palavras e as coisas”.
Alva como uma folha em branco, ou negra como a noite, uma fissura se impõe, e sobre ela, novas relações se criam. Inaugura-se, assim, a abertura de um espaço até então impensado, para não dizer subtraído, escamoteado do pensamento da própria esfera epistêmica da cultura de um período, sim, mas também do pensamento das (e sobre as) imagens. Ao problematizar, com a obra do pintor espanhol, a representação da representação e a abertura desse espaço de incertezas, de oscilações, de instabilidades e metamorfoses entre o visível e o invisível, entre o visível e o que dele se diz, Foucault nos traz à vista a emergência de outra forma de pensar, não mais subjugada ao modelo da semelhança.
Diante das figuras do quadro de Velázquez, até então designadas genericamente como “o pintor”, “as personagens”, “os espectadores”, “as imagens”, em dado momento Foucault se pergunta se não seria necessário fixar definitivamente sua identidade, para logo concluir que os nomes próprios não passariam de artifício. Quer dizer, nomear as figuras permitiria “mostrar com o dedo”, “fazer passar sub-repticiamente do espaço onde se fala para o espaço onde se olha”, “ajustá-los comodamente um sobre o outro como se fossem adequados” (FOUCAULT, 1966:1999, p.12, grifo meu). No entanto, para que a relação entre a linguagem e o visível possa se manter aberta, como lhe é dado a ser, é preciso falar necessariamente a partir dessa não correspondência. É preciso abrir mão dos nomes próprios, da decifração e da denominação restritiva para que se possa inserir, enfim, no infinito da tarefa. Jamais o que se vê se aloja no que se diz, por mais que dele se diga. Do mesmo modo, Foucault (1966:1999, p.12) insiste,
por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam, mas aquele que as sucessões da sintaxe definem.