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CHOOSING SIDES Thursday, 4:05 p.m

Dans le document Dissecting the Hack (Page 144-152)

Pensando com desenvolver os encontros de formação continuada, buscando dar sentido à prática diária, tanto minha como dos professores, considerando que a sensibilidade é de fundamental importância no processo de ensino e aprendizagem, busquei trabalhar com a fotografia. Nossos alunos vivem em um mundo que utiliza a imagem para diversos fins, a propaganda comercial, as manchetes nos noticiários entre tantos usos. É preciso um olhar e sensibilidade treinados para não se deixar levar por caminhos sedutores de uma sociedade consumista.

Com a intenção de provocar a curiosidade e a reflexão sobre o fazer pedagógico, sobre a prática em sala de aula, sobre o próprio processo de formação pedagógica e a íntima relação que esses processos mantém, busquei a fotografia com objeto imagem desencadeador de discussão.

Foi apresentada a proposta de trabalho com fotografias para os professores, perguntando se eles trabalhavam com esse material. Os professores de História, Geografia e Língua

93 Portuguesa disseram que trabalhavam constantemente. Apresentei cinco fotografias no Power

Point. Não houve nenhum comentário da minha parte. Lembrava apenas alguns detalhes das fotos

chamando para uma observação mais atenta: “chão molhado nessa foto” ou “está escrito em inglês?”. Depois de apresentá-las na tela, coloquei no chão cópias de cada uma delas, pedi que eles se organizassem em grupos tentando manter uma formação com professores de componentes curriculares diferentes. Após organizarem os grupos eles deveriam escolher uma fotografia para montar um trabalho com os alunos. Os professores estavam em suspense, não havia muita conversa. Olhavam para as fotografias e discutiam nos grupos qual fotografia deveriam pegar. A professora de Geografia queria saber se era mesmo para aplicar nos alunos. Uma professora de Matemática do nono ano pediu para os membros do seu grupo escolher uma mais fácil.

Nesse encontro iríamos tratar diretamente da experiência em uma linguagem artística. Estava preocupado com a recepção dos professores e ansioso para ver o começo do trabalho.

O passo seguinte seria a montagem de um trabalho interdisciplinar. Rapidamente os professores começaram o trabalho. Andava pela sala observando as discussões, pareciam envolvidos e eu ansioso. Logo apareceram os primeiros projetos. Fiquei surpreso, menos de vinte minutos. Fizeram as apresentações para os grupos. Um dos grupos formado por uma professora de Língua Portuguesa, uma de Espanhol, outra de Informática e uma de Matemática trabalharam com uma fotografia de Sebastião Salgado de Serra Pelada. A professora de Matemática comentou que foi um castigo ter que trabalhar com uma fotografia com monte de pernas de homens. O projeto era mais ou menos o seguinte: a professora de Língua Portuguesa faria uma interpretação e produção de texto a partir da foto, a professora de Espanhol traduziria o texto, a professora de Informática digitaria os textos com os alunos e a professora de Matemática trabalharia pesos e medidas. E todos os outros projetos eram muito parecidos. O trabalho era em grupo, mas os produtos eram individuas ou dividiriam a nota no caso de aplicação.

Interferindo nos projetos, perguntei qual foi a primeira pergunta que os grupos ou professores deveriam fazer para o material de trabalho. Todos me olhavam atentos, sentia que eles queriam saber o que eu pretendia, uma vez que o projeto já estava feito. Ninguém respondia.

94 Qual a primeira coisa que você precisa saber? Muitas conversas, mas ninguém respondia para o grupo.

A intenção era levantar o questionamento sobre a fotografia como documento. Um recorte feito pelo fotógrafo, escolha e expressão deste, recorte no tempo/espaço que traduz a sua visão de mundo. E também a fotografia como uma linguagem artística.

Passei a interferir diretamente nos grupos. Tratavam apenas das leituras possíveis da fotografia, o que deveria estar acontecendo. Dizia que era um bom exercício, mas como trabalhar para um projeto com esse material? A pergunta que ia fazendo nos grupos foi irritando os professores. A professora de Matemática encostando-se à cadeira dizia: “não sei o que é, nem sei

‘prá’ quê saber também”. A professora de Inglês dizia: “perguntar o que?” E estava visivelmente

nervosa. O que você quer perguntar? O que ela quer lhe dizer? Ela me olha como não entendendo nada e eu já não sabia mais se esse era o caminho. A foto era “O funeral de William “Bo Jangles” Robinson, New York de 1949. Bo Jangles era negro e sapateador e seu funeral fora retratado com muita sensibilidade pelo autor. Nas calçadas apareciam apenas os sapatos das pessoas que esperavam passar o funeral. E a professora perguntava: “Por que eles não atravessam?” Para quem você tem que perguntar isso? E ela: “Não sei! Para a foto?” Parecia que o caminho poderia se abrir. Sim, a pergunta deve ser feita primeiro para o tipo de material que vou trabalhar. Algo pode lhe tocar, mas para tornar-se um projeto deve ser questionado. Entreguei para cada professor uma biografia do fotógrafo escolhido pelo grupo, uma cópia da foto e uma pergunta: como fariam agora o projeto? A professora de Língua Portuguesa disse que não precisaria mudar muito.

Durante a semana, uma das professoras foi encarregada de, sutilmente, me dizer por que estavam trabalhando dessa forma, se não seria melhor escolher um texto...No encontro seguinte houve uma fala da direção. Essas falas são sempre tratando do andamento da escola, horários, desenvolvimento de tarefas etc. Continuando o encontro, sugeri que a partir da contextualização das fotografias que os professores fizessem um novo projeto interdisciplinar. Os professores não se interessaram muito pelo trabalho. Tivemos um pequeno espaço de tempo para conversas nos

95 grupos e marcamos para trazer na semana seguinte. Apenas um grupo trouxe e não falamos mais sobre esse trabalho.

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