Segundo Bernstein (1996), a educação é de grande relevância para uma sociedade democrática, pois sendo um bem público, é responsável pela produção e reprodução das injustiças sociais. Assim sendo, para cumprir seu papel, a escola deverá garantir três direitos: o direito que reflete individualmente no desenvolvimento dos sujeitos; o direito que auxilia na autonomia, portanto, no direito de ser incluído e, o direito de participação, na construção, manutenção ou mudança da ordem social, relacionado no nível político.
Corroborando com o autor, a Modelagem prioriza o direito de expressão dos estudantes, da manifestação de suas ideias e o diálogo. Esse fato se revela quando
o estudante E1 afirma: E o funk pesadão, professora? Essa manifestação trouxe à tona debates relevantes sobre a maneira de ser e agir, sobre direitos e deveres, perpassando temas estéticos interligados à moral e a ética.
Nesse sentido, a Modelagem possibilita o desenvolvimento da dimensão político-social, conforme podemos observar nas atividades desenvolvidas. Ao trabalhar com o tema Reciclagem, segundo a atividade desenvolvida por Komar (2017), após pesquisarem sobre a produção de lixo, os estudantes debateram questões referentes aos aspectos do meio ambiente, às alterações climáticas, doenças e à fome – temas transdisciplinares. Assim, os estudantes se propuseram a fazer uma coleta seletiva no ambiente escolar e ainda, reverter o dinheiro arrecado para a APMF da escola. Tais atitudes revelam a preocupação com o meio ambiente, com a limpeza e higiene no espaço utilizado por todos os estudantes e o interesse em colaborar com a própria instituição de ensino.
Freire (2001) nos fala sobre a necessidade de relembrar que cidadania se refere a condição de cidadão, tem a ver com indivíduo com o uso dos direitos civis e políticos de um Estado e o exercício dos deveres. Nossa atividade de educadores deve indagar os limites da alfabetização como capaz de gerar a assunção da cidadania ou não.
A Dimensão Político-social se revela igualmente na atividade sobre produção de peixes: um tema originado no interesse dos estudantes, um lazer praticado pela maioria que trouxe à tona debates e reflexões sobre questões ligadas às formas de aumentar a produtividade, melhorar o custo-benefício da produção, formas de preservar e proteger o meio ambiente, entre outros. Isso pode ser observado quando o estudante A afirma: Então professora, a Embrapa fala que o ideal é que
seja 10 L/s/ha, mas eu não sei não... acho que tem que ver quantos peixes tem no açude, porque se tiver muito peixe pode ser que esse número precise ser maior...não sei (sic)...
De uma forma geral, todos os pontos destacados se deram por meio da observação do lugar onde viviam com suas famílias, pois o grupo procurou olhar para a realidade do assentamento em que viviam e concluíram que o sistema mais utilizado é o extensivo. Nesse sistema, a alimentação geralmente é natural, tem uma densidade baixa de estocagem (menor que 2.000 peixes/ha), não é realizado o monitoramento da qualidade de água e os viveiros não são planejados. Como é
possível observar nos seguintes relatos: K1- O mais comum aqui é o extensivo,
porque aqui ninguém planeja os açudes e nem trata os peixes... um e outro que tratam. Só não sei daí sobre a estocagem, mas não é alta, eu acho, porque geralmente é só pro consumo (sic); H- É por isso que os agricultores aqui não vendem, porque eles não planejam nada...eles não sabem eu acho que dá pra ganhar dinheiro com isso (sic). As falas demonstram que houve uma sensibilidade
do grupo ao olhar para a realidade e buscar inferir algo sobre ela, o que representa um avanço à formação crítica e reflexiva dos estudantes.
Vale lembrar que, segundo Berstein (1996) as relações de poder se estabelecem delimitando fronteiras, colocando pessoas, discursos e objetos em posições, por vezes, contrárias. Apesar de poder e controle estarem inter- relacionados, é o controle que delimita tipos de comunicação tendendo a socialização das pessoas no interior destas relações. Tal contradição pode ser observada nas discussões sobre a construção de chiqueiros em cima dos açudes, quando a estudante relata: K1- Ter o chiqueiro em cima do “açude” é comum. Mas
eles não sabem como e porque isso é ruim para os peixes e para nós mesmos... talvez se tivessem instruções melhores isso poderia mudar.
Esse relato instigou os demais a refletirem sobre esse assunto. Apesar de alguns mostrarem repulsa sobre a construção do chiqueiro em cima do tanque, relataram sobre a dificuldade de seus pais o retirarem de lá. A- Se eu falar isso pro
meu pai, Deus do céu, ele vai mandar comprar um lote e ir cuidar da minha vida
(sic).
Observamos, ainda, que a dimensão cultural que perpassa por pontos importantes refletidos pelo grupo, como, por exemplo, sobre o manejo alimentar: H-
[...] parte da ração que se joga no açude os peixes comem, que faz eles crescer, outra é eliminada... né...e outra eles não comem e vai pro fundo. O cocô e a ração não comida que vão pro fundo tem bastante fósforo, aí geram bactérias, e isso é ruim para o viveiro (sic). A respeito desse comentário, a professora pesquisadora, ao
perceber o pequeno contrassenso na fala do estudante, questionou a turma: PP- As
bactérias são geradas no fundo do viveiro (sic)? Como nenhum estudante se
manifestou, a pesquisadora mencionou que as bactérias não são geradas, mas atraídas devido à grande quantidade de matéria orgânica presente no fundo do viveiro e assim se reproduzem. Para uma melhor compreensão dos estudantes
sobre esse processo, a pesquisadora retomou alguns aspectos celulares das bactérias, de sua reprodução e sobre as bactérias saprofágicas17, que atuam como decompositoras de matéria orgânica morta (animais e vegetais mortos), fortalecendo também a dimensão interdisciplinar já tão presente nessa atividade.
Tais relatos revelam, além da sensibilidade, uma consciência socioeconômica e, sobretudo, cultural de uma comunidade específica. De uma forma geral, todos os pontos destacados se deram por meio da observação do lugar onde viviam com suas famílias, pois o grupo procurou olhar para a realidade buscando, por meio do conhecimento, refletir e promover melhorias em suas vidas, de suas famílias e da comunidade onde viviam: Eu tenho uma ideia... assim, eu acho que o que a gente
fez até aqui foi muito bom e que nos mostrou muitas coisas sobre como tem que fazer tudo certinho com o tanque e com os peixes. Mas, na minha opinião, acho que precisamos de algo mais concreto sabe...pra que o agricultor de fato perceba que a piscicultura é viável e pode ser uma fonte de renda pras famílias (sic).
Esses aspectos se revelam também na atividade com o tema funk promovendo debates sobre o respeito às culturas, crenças e preferências das pessoas, sobre suas condições de vida, suas carências e sobre seus direitos e deveres.
Segundo Freire (2001) um dos obstáculos ao exercício da atividade docente é não nos preocupamos com o que as pessoas já sabem e como sabem, não nos preocupamos em entender a linguagem que possuem em torno do mundo. Preocupamos-nos para que conheçam aquilo que conhecemos e da forma como conhecemos demonstrando assim que, prática ou teoricamente, somos autoritários, elitistas e reacionários.
Portanto, uma verdadeira alfabetização precisa estar relacionada com a identidade individual e de classe, ou seja, com a formação da cidadania. Por isso, ler e escrever não se bastam para a plenitude da cidadania, é necessário que a alfabetização seja um ato político, jamais um fazer neutro.
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Bactérias quimio-heterotróficas que atuam como decompositoras de matéria orgânica morta (animais e vegetais mortos) e as parasitas que provocam doenças.
Observamos que a Modelagem possibilita a leitura de mundo, defendida por Freire (2001). No caso do tema funk, foi possibilitado que os estudantes refletissem sobre respeito ao ser humano, às suas culturas. No caso da cesta básica, refletiram sobre a qualidade dos alimentos, os nutrientes, sobre direitos dos trabalhadores assalariados, sobre gastos necessários para se manter uma família, sobre culturas e tradições. Ao trabalharem com a produção de peixes, os estudantes possibilitaram descobrir formas de colaborar com a comunidade em que viviam, em conhecer sobre técnicas que poderiam trazer um maior rendimento financeiro para suas famílias relacionando investimento e lucro, além da demonstração da preocupação com questões ambientais, conforme declaração do estudante: [...] veja, a gente vai
fazer toda uma análise que vai dizer se compensa ou não investir, é isso que a gente precisa... Porque assim, o agricultor que os meninos entrevistaram, ele está investindo lá na produção dele, mas está às cegas e não tem garantias que vai dar lucro. Ele espera que dê, mas e se não der? Com essa análise a gente vai poder ter uma ideia (sic).
O mesmo pode ser observado com os estudantes que trabalharam com a produção de leite ao afirmarem: Pelo menos, se estudarmos sobre produção de
leite, vamos poder usar alguma coisa que aprender nas nossas propriedades (sic), e
com o tema reciclagem ao sugerirem: será que podemos vender estes materiais e
arrecadar fundos para a APMF do Colégio (sic)?
De um modo geral, os estudantes fizeram observações, pesquisas, constatações. Além dos cálculos e conhecimentos matemáticos utilizaram e ampliaram conhecimentos das diversas disciplinas escolares, relacionando-as fazendo conexões. Segundo Bernstein (1996) os níveis mais elevados de escolarização são atingidos por aqueles que se tornam conscientes dos mistérios do conhecimento compreendendo que a desordem é o que se sobressai no discurso de cada disciplina, ou seja, a possibilidade de pensar o impensável. Corroborando com o autor, afirmamos que a Modelagem, partindo da escolha de temas que interessam aos estudantes, a busca dos dados pelos próprios estudantes e o levantamento das suas dúvidas, permite a leitura de diferenças na produção e recepção de sons, muitos deles silenciados quando os conteúdos são trabalhados de maneira ordenada, pré-definida, por meio de repetição de atividades e listas de exercícios.
Com a Modelagem Matemática, os estudantes têm a oportunidade de se utilizarem da produção e recepção de sons para elaborarem novos discursos provenientes da leitura e intervenção no mundo, na realidade da qual fazem parte. Esse fato pode promover a criticidade, o poder de decisão e argumentação atuando na sua formação política e social, ampliando a conhecimento empírico, filosófico e tácito dos estudantes.
Para Freire (FREIRE, 2010), a capacidade de refletir e agir é a primeira condição que denota o fato de um ser assumir um ato comprometido. Para isso, não basta estar no mundo, é preciso saber-se nele. Ou seja:
Se a possibilidade de reflexão sobre si, sobre seu estar no mundo, associada indissoluvelmente à sua ação no mundo, não existe no ser, seu estar no mundo se reduz a um não poder transpor os limites que lhe são impostos pelo próprio mundo, do que resulta que este ser não é capaz de compromisso. É um ser imerso no mundo, no seu estar, adaptado a ele e sem ter consciência. Sua imersão na realidade, da qual não pode sair, nem “distanciar-se” para admirá-la e, assim, transformá-la, faz dele um ser “fora” do tempo ou “sob” o tempo ou, ainda, num tempo que não é seu. O tempo para tal ser “seria” um perpétuo presente, um eterno hoje. (FREIRE, 2010, p. 16).
O autor defende a comunicação como recurso para expressar-se no mundo. A palavra significa lugar de encontro e reconhecimento, abre a consciência para o mundo comum às consciências, portanto, o processo de humanização se dá no processo dialógico. Expressar-se, expressar o mundo, provoca o comunicar-se. E o homem só se expressa verdadeiramente quando contribui com todos na construção do mundo comum. Ao contrário, a palavra repetida é monólogo das consciências que perderam sua identidade, e submissas a um destino imposto, não são capazes de superar, com a decisão de um projeto. (FREIRE, 1992).