• Aucun résultat trouvé

4.4 Hypothèses et choix concernant la machine SynchRel

4.4.1 Choix du type d’alimentation

A psiquiatria tradicional concebia e concebe o tratamento da doença mental enquanto remissão dos sintomas, baseada na concepção clássica de Leriche de 1936,

citada por Tenório (2001, p.57), de que “a saúde é o silêncio dos órgãos.” Freud, por sua vez, inaugura uma forma diferente de conceber os sintomas. A novidade que a psicanálise vai nos apresentar é que o sintoma fala de uma verdade do sujeito. Ao mesmo tempo em que o arrebata e o prejudica, ele o representa. Diferentemente da proposta de silenciar os órgãos, a perspectiva freudiana vai procurar acolher o barulho dos sintomas (TENÓRIO, 2001, p.57). É Freud quem vai dizer que o delírio do psicótico não é apenas a manifestação de uma doença, uma anomalia a ser silenciada, o delírio é, sobretudo, uma tentativa de cura, pois é nele que o sujeito aparece com sua singularidade.

Em sua obra, Freud (1911/1980) trabalha um caso clínico muito interessante a partir da análise de um relato autobiográfico escrito por Daniel Paul Schereber29. O caso Schereber, como é conhecido, traz para a discussão a assertiva freudiana de que o tratamento da loucura está na própria loucura e não no seu apagamento. O delírio seria assim uma tentativa de cura e não mero produto da doença.

E o paranóico constrói-o de novo (o mundo), não mais esplêndido, é verdade, mas pelo menos de maneira a poder viver nele mais uma vez. Constrói-o com o trabalho de seus delírios. A formação delirante, que presumimos ser o produto patológico, é, na realidade, uma tentativa de restabelecimento, um processo de reconstrução (FREUD, 1911/1980, p. 94).

Sendo assim, conceber a loucura – ou o fenômeno das psicoses – como uma posição subjetiva diante da existência, como singularidade, e não apenas como uma doença cujas manifestações precisam ser extirpadas faz toda a diferença. É essa diferença que os CAPS devem procurar fazer para se distanciarem do modelo manicomial, da psiquiatria tradicional, e para isso, o atravessamento da psicanálise nessas espécies de instituição se tornou fundamental.

É importante, portanto, que se registre aqui que os CAPS e sua concepção sobre loucura e tratamento, seus pressupostos filosóficos e institucionais foram, historicamente, concebidos em parceria com a clínica psicanalítica. Tal “parceria” entre CAPS e psicanálise foi bem sucedida desde o início, o que acabou por fazer com que

29 “Memória de um doente de nervos” foi publicado em 1903. Daniel Paul Schereber foi um juiz alemão

de muito renome que desenvolve uma paranóia ao ser nomeado para o cargo de juiz presidente da Suprema Corte de Apelação. Nessa obra autobiográfica, Schereber, relata seu adoecimento e suas experiências delirantes que consistem, basicamente, em uma vivência de transformação em mulher. Sua missão seria assumir a condição de mulher de Deus e fundar uma nova raça. Freud nunca analisou

muitos CAPS tenham como característica o atravessamento pelo discurso da psicanálise30. Tenório (2001) considera que a contribuição que a psicanálise vai dar para o trabalho da reforma é o de reconhecer a diferença da loucura ao invés de aboli-la. Podemos concluir então, que o que caracteriza um CAPS enquanto instância que pretende desconstruir o manicômio não é tanto o que acontece nele, mas sim, como acontece. Esse será um dos aspectos discutidos aqui: apresentar como o CAPS funciona e como deve ser sua maneira de lidar com as diferenças.

Mas façamos um parêntese importante para considerar que o fato de a psicanálise estar presente na invenção do CAPS criando um casamento bem sucedido, presente em inúmeras instituições desse tipo, não quer necessariamente dizer que todos os CAPS se utilizem de tal ferramenta. Instituições que, apesar de terem o nome CAPS, repetem o modelo burocrático e normatizante, que pretendem calar a loucura através da estabilização dos sintomas e conseqüente apagamento do sujeito, também fazem parte do cenário. Entendemos assim que o modelo psiquiátrico tradicional, cujo manicômio é o seu representante, pode ser repetido em qualquer outro lugar que não o hospício, e até mesmo em um CAPS, especialmente, quando não se tem o cuidado de tomar a loucura como condição de existência, concebendo-a com uma mera patologia a ser curada.

Tenório traduz a tarefa clínica proposta pela psicanálise de uma maneira, segundo ele, muito simples e ao mesmo tempo sofisticada: “acompanhar o sujeito” (2001, p. 66). Isso quer dizer que o caminho que cada sujeito irá percorrer durante seu tratamento será aquele que vai favorecer o aparecimento da sua singularidade. É assim que a psicanálise empresta aos CAPS o termo “direção de tratamento”, para definir que o tratamento tem sim uma direção, que apenas o próprio sujeito poderá indicar (TENÓRIO, 2001). É essa a ética da psicanálise, do respeito a cada escolha singular. Sendo assim, nossa tarefa é a de respeitar as escolhas e acompanhá-las em seu trajeto singular.

Lobosque é precisa em suas palavras:

Não se trata apenas de dizer que “cada caso é um caso”. Para além do obvio, trata-se de perceber que o sujeito não é único nem idêntico a si mesmo, residindo o singular de cada qual não em sua unidade suposta, mas numa discordância fundamental; trata-se de interpelar tal

30 Mais adiante trataremos do que seja uma instituição atravessada pela psicanálise, ou pelo discurso do analista.

singularidade, convidando o sujeito a sustentá-la com o estilo que é o seu (1997, p. 22).

Essa mesma autora discute sobre o que ela chama de clínica antimanicomial, uma clínica que, segundo ela, “principia desarmada” (LOBOSQUE, 1997, p.31). Essa é justamente a clínica que a psicanálise oferece aos CAPS, uma clínica que se disponha a acolher a verdade do outro, para isso, precisa estar necessariamente desarmada; desarmada de pré-conceitos, ideais, saberes universais, moralismos, estereótipos, certezas ou pressupostos ideológicos. Apenas dessa forma, o sujeito poderá emergir enquanto singularidade, somente assim, a diferença será respeitada como estilo e não como um entrave a ser superado ou problema a ser sanado.