3.2 Produits et fabrication du conditionnement
3.2.1 Le choix du tube
As transformações dadas pela expansão da economia-mundo49 nas terras além- mares, desde o século XIV, deram-se em função da necessidade de fixação de pontos estratégicos, para a Coroa Portuguesa firmar seus domínios nas colônias, contra os
47 Para Weinstein (1993), a economia da borracha favoreceu a produção de carne, gerando recursos extras
aos fazendeiros do Marajó. Dessa forma, o governo praticamente abandonou os incentivos à região; seu apoio se deu apenas no financiamento de uma “fazenda modelo” e no subsídio a uma linha de transporte fluvial para a navegação entre Marajó e Belém.
48 Ver Barbosa (2003). 49 Ver Wallenstain (1979).
holandeses, franceses e ingleses. Nesse sentido, a Ilha de Marajó, com suas condições físico-geográficas e ambientais tornaram-se favoráveis à atividade pecuária.
A instalação das fazendas para o cultivo da terra, domesticação dos animais fazia parte de uma orientação divina sobre a expansão do poder de seus seguidores na terra. Assim, o processo de ocupação em toda a América Latina tornou-se um projeto com objetivos que se verifica no fragmento da obra de Avellaneda (2014, p. 27), ao “promover la ocupación pacífica de nuevos territorios para expandir los limites de la
frontera, controlar la penetración portuguesa y terminar com la resistencia indígena”50.
Essas bases de colonização não ocorreram somente no Brasil, mas nas Américas e em outras partes do mundo em períodos similares ou aproximados. Essas formas necessárias tiveram alterações profundas nas estruturas sociais conquistadas, como as sociedades ameríndias, metamorfoseando a vida de estabelecidos e outsiders51
,
resultando em extermínio sob uma diáspora motivada por projetos de expansão de poder e conquista de novas terras, para explorar e solidificar o domínio da civilização europeia.
A Europa vivia um momento de novas descobertas, como das grandes navegações, as quais possibilitaram concretizar hipótese e teses de transformações advindas do avanço científico e uma nova compreensão do mundo. Do contato com novos grupos humanos e novos ambientes naturais, proporcionados pelo conhecimento científico, como a navegação, as reformas religiosas, em seus diferentes segmentos religiosos, coordenavam missões e expedições para apoiar essas novas conquistas, gerando em paralelo a dominação das nações europeias sobre os povos locais, a exploração de outras terras em busca de riquezas e, em consequência, arrebatando novos fiéis.
O papel da Companhia de Jesus, nesse sentido, foi exemplar, ao estruturar o processo de colonização europeia, na conquista do Novo Mundo. Azevedo (1999, p. 10) destaca como os religiosos foram importantes: “agora veremos com os padres exploradores e geógrafos, atravessando terras, discorrendo pelos rios, perscrutando as florestas e em toda parte, no mundo novo, as avançadas sentinelas da civilização”.
50
Promover a ocupação pacífica de novos territórios para expandir os limites da fronteira, para controle e penetração portuguesa, a fim de acabar com a resistência indígena (tradução própria).
Esses religiosos foram apontados como os principais agentes colaboradores no plano de ocupação dos novos territórios. Eles marcaram, profundamente, o momento de colonização, com sua maneira de conquistar os nativos, tendo como elemento principal o modelo pedagógico da evangelização que arrebatava até mesmo outras concepções e credos. Assim, eles conseguiram arregimentar novos adeptos, novos cristãos ao se instalarem nas colônias do Novo Mundo.
Dessa forma, contribuíram para a ocupação dos territórios com a implantação de modelos específicos de dominação, favorecendo os interesses dos colonizadores, alicerçando o predomínio dos conquistadores nos espaços sociais que foram ocupados. Nesse recorte, a religião favoreceu a instalação de benfeitorias, instalação de infraestruturas para a ocupação dos territórios ultramarinos e introdução de práticas necessárias à permanência do colonizador nas novas terras.
Na Ilha do Marajó, os jesuítas instalaram as primeiras fazendas de gado e adestraram os “gentios”, que foram treinados para desenvolver os trabalhos duros na estruturação do estado colonial. Foram inúmeras construções e instalações que se realizavam, na Amazônia, com base no trabalho escravo de índios e de africanos.
Os missionários circulavam por toda parte. Os rios eram percursos naturais em que navegavam e possibilitavam fluxos entre diferentes territórios, em frotas de embarcações de pequeno e médio porte, um transporte que os índios sabiam conduzir com maestria entre furos, rios e igarapés, trafegando pessoas, produtos e mercadorias para abastecer ou para a construção de benfeitorias em diferentes espaços territoriais. Os missionários, com o controle da mão de obra indígena, fizeram grandes riquezas, produziam, comercializavam nas vilas e cidades, causando invejas nos demais exploradores das colônias.
Com a expulsão dos jesuítas, no século XVIII, suas propriedades passaram para o domínio da Coroa, principalmente, devido aos negócios prósperos dos religiosos espalhados em toda a malha fluvial da Amazônia (AZEVEDO, 1999).
Essas fazendas, após a expulsão dos jesuítas, tornaram-se palco do modelo de produção que sustentou as relações no sistema de compadrio, fruto do processo de conquista e exploração da terra e da escravização do gentio para a produção de bens e serviços coloniais. Assim a implantação do poder colonial, isto é, dos europeus figuravam e adaptavam estruturas sociais no além-mar para impor a cultura dos dominadores aos grupos conquistados. Nesse interstício, o pensamento europeu avançou na exploração de matérias-primas para enriquecimento do velho mundo.
A ocupação da Ilha do Marajó e de outras regiões do Brasil, da América Latina e Caribe, principalmente, com as primeiras instalações de currais, tornou-se a forma necessária ao projeto de colonização, uma engenharia de conquista e estratégia impulsionada às transformações sociais no mundo marajoara, passando a sustentar formas de exploração, “servidão”, escravidão e domínio de um grupo pelo outro, cuja maior marca está presente nas estruturas de compadrio52, um misto de servidão, confiança e solidariedade despótica, em “estruturas paralelas existentes em sociedades complexas: parentesco, amizade e relações patrono-cliente” (WOLF, 2003).
As relações de dominação e de dádivas foram construídas a fim de garantir a apropriação e a manutenção dos territórios e espaços sociais estruturados, como as grandes fazendas implantadas no Marajó, por exemplo. As “circunstâncias: solidariedade políticas e econômicas, apadrinhamentos, compadrio, legitimação de filhos, herança e legados, como principal parâmetro de compreensão dessas famílias e da sociedade marajoara, de forma geral” (SOARES, 2010, p.13)53, formam um cosmo novo. Todas essas relações correspondem ao que Elias (1994) vai identificar como formas adequadas para o processo de ocupação.
A ocupação da Ilha foi resultado de um projeto de expansão português/europeu (Reis e Clero), no período colonial, implantando um modelo de exploração econômica e dominação da Coroa portuguesa que dizimou as populações nativas, quando se propôs “civilizá-los”. Segundo Elias, o conceito Civilizar ‘civilização’ “resume tudo em que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos se julga superior à sociedades mais antigas, contemporâneas ‘mais primitivas’” (ELIAS, 1994[1939]), como mostrarei no item seguinte.
52 Para a compreensão desse processo estrutural de ocupação, apropriei-me de trabalhos como aqueles de
Freyre (2001); Faoro (2008); Hollanda (1999); Heredia (1979); Mintz (2010); Wolf (2003), mas também de Azevedo (1999), este último para entender a ação dos jesuítas na Amazônia.
53 Esse é um contexto da ocupação, mas analisando a realidade do final da primeira metade do século XX