Materiel et methodes
II. CHOIX DU SUJET ET METHODE EMPLOYEE :
Os diretores de Xica da Silva e Chico Rei qualificaram seus filmes com a expressão liberdade. Em entrevistas à época do lançamento, Cacá Diegues reiterou diversas vezes que procurou lançar sobre o passado colonial e escravista do país um olhar bem ao espírito carnavalesco e irreverente, aos quais é frequentemente associado o brasileiro364. Walter Lima Júnior também pontuou que procurava compreender, por meio de Chico Rei, a luta pela liberdade, entendendo-o como referência heroica dessa batalha, ao ponto de subtitular seu trabalho como um filme sobre a liberdade.
Os cineastas abordaram o passado colonial para melhor compreender o momento presente do Brasil; a história de um povo em constante luta pela liberdade e dignidade. Conforme recuperado nas narrativas sobre os ex-escravos títulos dos filmes, é possível perceber que a poesia de Cecilia Meireles, a literatura de Agripa Vasconcelos e os enredos carnavalescos dos Acadêmicos do Salgueiro também o fizeram nessa mesma chave interpretativa.
Na década de 1950, quando lançou Romanceiro da Inconfidência, ao inserir em sua narrativa dois personagens alheios à Inconfidência Mineira, a poetisa promoveu a identificação de personagens históricos marginalizados. A mesma qualificação é constatada nos romances de Vasconcelos, quando Chica da Silva e Chico Re i se tornaram protagonistas da coleção para uma história mineira a partir da personalização, porém distante do patriarcado local . As figuras de Chica e de Chico (ainda que uma lenda) representam o popular e seu poder, já que subordinados pela opressão das relações escravistas
364 Para o im aginário desse jeito brasileiro carnavalesco ; cf.: MATTA, Roberto da.
conseguiram sua liberdade de forma triunfal, hiperb ólica, como a linguagem carnavalesca. Em meados do século XX, constata -se a preocupação em reinterpretar a história brasileira, com destaque para o papel do popular como agente histórico. Nesse cenário, a dinâmica da sociedade da América Portuguesa, dada sua composição hierárquica e política bem definida (livres versus escravo; branco versus negro; europeu versus nativo), se tornou um fértil terreno para promover a revisão histórica.
Sobre o período colonial brasileiro , de modo geral, identifica-se um longo predomínio de análises sob o viés da dominação portuguesa, estabelecendo um cenário de exploração asfixiante para o desenvolvimento. A opressão portuguesa se fazia não apenas pelo intervencionismo político e econômico, usurpando a riqueza natural do país, carreada para o enriquecimento dos reinos europeus. Mas, também na esfera social o torniquete colonial se impunha aos colonos por meio dos costumes e subjugação dos povos, massacrados como os indígenas, ou condicionados a exploração do trabalho escravo de africanos e seus descendentes365.
Ressalta-se o pioneirismo da abordagem de Gilberto Freyre, especialmente em Casa grande e senzala, ao repensar o lugar de sujeitos para a população negra e pobre do período colonial, mesmo com os limites reconhecidos e críticas ao seu trabalho, conforme visto. Na década de 1960, prosseguiram-se trabalhos com nuances revisionistas sobre a abordagem polarizada entre dominantes e dominados. O didático pacto colonial passou a ser abordado de modo a problematizar as relações entre colonos e europeus366. Todavia, foi a partir da década de 1980/90 que renovações na produção historiográfica lançaram luzes de maior alcance para entender o Brasil como parte integrante da dinâmica política e econômica na chamada
365 Conform e visto, a abordagem elogiosa de Vanhargen sobr e o papel d a colonização portuguesa para a civilização brasileira tem na análise m arxista seu extrem o oposto. Autores com o Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes e Jacob Gorender enfatizaram em seus trabalhos a natureza autoritária na relação Portugal-Bras il.
366 HOLANDA, Sérgio Buarque de. (Org.). História geral da civilização brasileira: a época colonial: 4.ed. Rio de Janeiro: Dif el, 1977 (Tom o 1, v. 1 e 2).
idade moderna (séculos XVI-XVIII). Sob esse ângulo, residentes na colônia (sobremaneira integrantes da elite econômica e política) encontravam espaço para estabelecer negociações em defesa de seus interesses, ainda que, em uma dimensão macro, fosse limitada a autonomia da colônia – já que integrava o império português367. Não
obstante o predomínio dessa perspectiva nos programas de pós- graduações em História desde o século XXI, ainda é corrente em diversos espaços da sociedade brasileira – como na imprensa, em materiais escolares e nas próprias instituições universitárias – a visão polarizada entre colonizador-colonizado.
Embora os títulos fílmicos em análise tenham sido produzidos no momento em que teses acadêmicas sobre a escravidão iniciavam esse processo de renovação historiográfica, seus diretores não conseguiram dialogar diretamente com os resultados das novas pesquisas a tempo de concluírem a edição dos filmes. Walter Lima Jr., por exemplo, finalizou Chico Rei somente em 1985, porém manteve relacionada como referências de consulta sobre a escravidão obras ligadas ao pensamento marxista.
A tradição popular, a poesia, a literatura, o carnaval e o cinema , portanto, se apropriaram de Chica da Silva e Chico Rei como baluartes da resistência, da perseverança, da astúcia e da vitória de oprimidos em busca da liberdade. O contexto da escravidão certamente favorece esse tipo de abordagem por apresentar uma situação extrema de definição da condição social: ou liv re ou cativo, na qual valores morais, como justiça, são problematizados à luz dos acontecimentos históricos. Entretanto, como esses valores universais são representados em
Xica da Silva e Chico Rei? Em ambos os filmes, nos planos de
abertura, a questão da liberdade e do seu cerceamento é apresentada e, logo, o espectador a reconhecerá como tônica por toda a película.
367 Para produções que refletem essa m udança interpretativa; cf.: FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda Baptista; GOUVEA, Maria de Fatim a; O antigo regime
nos trópicos : a dinâm ica im perial portuguesa (séculos XVI -XVIII). Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2001; FURTADO, Júnia Ferreira. (Org). Diálogos oceânicos: Minas Gerais e as novas abordagens p ara um a história do im pério ultram arino português. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001; BICALHO, Maria Fernanda Baptista; SOUZA, Laura de Mello; FURT ADO, Júnia Ferreira. O governo dos povos . São Paulo: Alam eda, 2009;