• Aucun résultat trouvé

Chapitre 2. Implémentation de la chaîne de modélisation

2. Choix préalables

Um olhar superficial sobre a literatura que aborda a temática dos papéis de género revela uma grande variedade terminológica associada a conceitos com significados paralelos ou sobrepostos (como por exemplo papéis sexuais e papéis de género). Como resultado, podem encontrar-se os mesmos termos para designar conceitos diferentes bem como termos diferentes com o mesmo significado. Estamos, assim, de acordo com Azevedo (1991: 17) quando afirma que a organização dum vocabulário de aceitação generalizada aparece dificultada pelo facto de que algumas definições mais precisas exigem a solução prévia de polémicas questões teóricas.

Tal como já anteriormente acentuámos, quando procedemos à distinção entre os conceitos sexo e género, a utilização do termo género pretende reflectir a preponderância da atenção sobre a componente sociocultural do desenvolvimento humano. Assim, o uso da expressão papéis de género pretende sublinhar a existência de elementos socioculturais no constructo, referindo-se às expectativas sociais quanto às normas de comportamento apropriados a homens e mulheres. Amâncio (1994: 76) utiliza a expressão papéis de género

para designar a dimensão comportamental das representações largamente partilhadas sobre o modo de ser de homens e mulheres e Ruble (1988: 412), por seu lado, numa expressão que consideramos bastante elucidativa, define papéis de género da seguinte forma: it is the “public face” of gender.

A orientação dos papéis de género indica o nível em que um indivíduo se percebe a si mesmo como possuidor das características impostas pelas normas socioculturais respeitantes ao seu género (Azevedo, 1991).

Os conceitos clássicos a partir dos quais se constrói a tipologia dos papéis de género são a masculinidade e a feminilidade. Estes conceitos foram alvo de uma grande atenção nos anos 70 do século passado, década em que foram publicadas algumas escalas que pretendiam avaliar a masculinidade e a feminilidade e que vieram opor-se à visão bipolarizada, em relação inversa, da masculinidade e da feminilidade, em que as mulheres estavam associadas a determinadas características e os homens a outras. Nestas escalas mais primitivas, os indivíduos que obtivessem um score elevado na dimensão correspondente ao seu sexo eram considerados mentalmente sãos e bem adaptados à sociedade (Constantinople, 1973; Alain, 1996).

Constantinople (1973) forneceu um contributo importante para o desenvolvimento de novas medidas dos papéis de género, publicando uma análise crítica das medidas unidimensionais de masculinidade e feminilidade até aí existentes, na qual realçava a necessidade de se abrirem caminhos para novas conceptualizações sobre a masculinidade e a feminilidade, abandonando-se a ideia simplista da bipolaridade destes conceitos. Os inventários publicados quase simultaneamente − BSRI (Bem Sex Role Inventory)4

4 Inicialmente o BSRI consistia em 60 itens, divididos em três escalas: feminilidade, masculinidade e

neutralidade (desiderabilidade social). Os itens eram formados por adjectivos e expressões que representavam características da personalidade e eram acompanhados por escalas de Likert de sete pontos. No inventários os itens eram apresentados numa sequência de tríades, incluindo cada tríade um item de cada uma das três escalas. Em resultado das críticas que surgiram, o inventário foi modificado de forma a maximizar a consistência interna das escalas e a ortogonalidade entre elas (Azevedo, 1991), passando a designar-se por Short BSRI. A metodologia para a cotação dos resultados também passou a ser semelhante à utilizada no PAQ.

desenvolvido por Sandra Bem (1974) e PAQ (Personal Atrributes Questionnaire)5 proposto por Spence, Helmreich e Stapp (1974)−, introduzem aperfeiçoamentos substanciais na medição dos papéis de género (Azevedo, 1991), levando a que os conteúdos das dimensões masculinidade e feminilidade sejam entendidos como clusters independentes. Desta maneira, será possível que um mesmo indivíduo possua scores diferenciados nas duas dimensões, o que evidencia a existência de uma grande heterogeneidade na orientação dos papéis de género.

Para os autores destes dois instrumentos, as características masculinas e femininas da personalidade não estão necessariamente ligadas ao sexo biológico nem à orientação sexual, não havendo, assim razão justificável para que o homem possua apenas características masculinas e para que a mulher possua exclusivamente características femininas. Além disso, os mesmos autores argumentam que as pessoas que são fortemente tipificadas quanto à orientação dos seus papéis de género são menos flexíveis e com menos capacidade de adaptabilidade social, enquanto que as pessoas mais saudáveis mentalmente e mais adaptáveis revelam possuir características de ambas as dimensões, de uma forma equilibrada, sendo então denominadas de andróginas. Embora seja perceptível alguma inconsistência entre os estudos (Ruble, 1988), a investigação desenvolvida parece reforçar esta relação entre a androginia e a auto-estima (Withley, 1983) e outras medidas do bem- estar psicológico (Ruble, 1988, Spence, Helmreich & Stapp, 1975).

Ao contrário de Bem (1974), para quem, inicialmente, a androginia surgia apenas pelo facto de um indivíduo possuir características masculinas e femininas, Spence, Halmreich e Stapp (1974) sugerem a utilização de médias nas duas dimensões, masculinidade e feminilidade, para a categorização do indivíduo. Assim, um indivíduo é considerado masculino se o score na dimensão masculinidade for superior à média do seu

5 O PAQ foi desenvolvido a partir do SRSQ (Sex Role Stereotype Questionnaire), construído por

Rosenkrantz et al. (1968), sendo constituído por 55 itens que integram atributos bipolares. Os vários itens do questionário deveriam ser avaliados três vezes, numa escala de 5 pontos, em relação aos próprios sujeitos (auto-avaliação) que estavam a responder ao questionário, à mulher e ao homem típico (avaliações estereotipadas) e à mulher e ao homem ideal (desiderabilidade social). O inventário foi, mais tarde, revisto e ampliado (Spence, Helmreich & Holahan, 1979), de modo a integrar três novas escalas com traços socialmente indesejáveis e sexualmente tipificados, passando então a designar-se EPAQ (Extended Personal

grupo, é feminino se acontecer o mesmo em relação à dimensão feminilidade, é andrógino se a média se situa acima da média do seu grupo nas duas dimensões e indiferenciado se a média estiver abaixo da média do seu grupo sexual nas duas dimensões. A discrepância inicial em termos operacionais entre os dois instrumentos foi posteriormente resolvida, quando Bem (1977) adoptou a mesma metodologia que Spence, Helmreich e Stapp na avaliação da orientação dos papéis de género6.

O conceito de androginia foi muito aclamado na altura, principalmente pelas correntes feministas, pois permitia um distanciamento em relação à abordagem das diferenças sexuais. O indivíduo andrógino, ao incorporar, hibridamente, os papéis do género masculino e do género feminino, representava um ideal humano, contradizendo e, em certa medida, anulando as fronteiras culturais que separavam os homens das mulheres (Lorenzi-Cioldi, 1993). Contudo, tem sido muito questionado, quer quanto à sua conceptualização quer quanto ao seu estatuto empírico (Deaux, 1984; Alain, 1996; Gill, 1992). Morgan (1996) rejeita mesmo a utilização do conceito para o campo educativo, não só pelas suas limitações conceptuais e pragmáticas, mas, sobretudo, pelas suas consequências, que considera indesejáveis socialmente, já que está implícito um padrão de desenvolvimento humano monolítico:

Although androgyny is an ideal of liberation, it is an ideal that lacks intellectual coherence, involves pragmatic paradoxes, and can lead to a situation of psychological and social tyranny. It is too dangerous an ideal to implement in the educational process. Liberation from the injustices endemic to sexist polarization is possible but not through androgyny. (Morgan, 1996: 73)

Logo após a sua publicação, foram apontadas algumas limitações aos instrumentos referenciados, como por exemplo o facto de as características masculinas que são

6 A classificação dos indivíduos em função das medidas de masculinidade e feminilidade no BSRI e no PAQ

pode ser representada em termos ortogonais da seguinte forma (adaptado de Alain, 1996): Masculinidade

Fraca Forte Feminilidade Fraca Indiferenciado Masculino

utilizadas no BSRI serem consideradas mais desejáveis que as características femininas (Pedhazur & Tentenbaum, 1979). Outros autores atendem ao facto de os questionários não avaliarem as diferenças individuais, argumentando que o que se está realmente a avaliar é o grau de percepção estereotipada em relação aos papéis de género, ao mesmo tempo que se desencadeiam mecanismos de comparação social intrínsecos ao próprio processo de descrição de si próprio (Locksley & Colten, 1979; Brannon, 2004).

No seguimento destas críticas, Spence e Helmreich (1978) propõem uma visão alternativa do PAQ, baseada na teoria de Parsons e Bales (1955) considerando que a escala da masculinidade é, em primeira instância, uma medida da instrumentalidade e a escala da feminilidade uma medida da expressividade. Também Bem (1979) responde às críticas elaborando uma teoria subjacente aos papéis de género, baseada na teoria dos esquemas cognitivos, em que o BSRI constitui uma forma de avaliar a conformidade a uma determinado esquema de género. Assim, os itens do BSRI não repousam sobre o que diferencia realmente os homens das mulheres, mas sobre a percepção das características associadas a cada sexo que são valorizadas pela sociedade (Alain, 1996). Com estas reformulações o conceito de androginia também parece ter ficado um pouco fragilizado (Deaux, 1984, 1985).

Mário de Azevedo (1991: 30/31), numa análise profunda aos instrumentos para avaliação da orientação dos papéis de género, conclui que estes instrumentos não lidam com os papéis sexuais mas parecem lidar com importantes dimensões relacionadas com os papéis sexuais, a saber, expressividade-comunhão e instrumentalidade-agência.

Por outro lado, os estudos interculturais que se produziram utilizando o BSRI vieram mostrar que as conceptualizações de masculinidade e feminilidade que são utilizadas na construção deste instrumento parecem ser específicas dos Estados Unidos da América e dos sujeitos de raça caucasiana, o que impede a sua válida aplicação a sujeitos de outras raças e em outros países (Brannon, 2004).

A unidimensionalidade dos conceitos masculinidade e feminilidade (Deaux, 1984; Ruble, 1988) foi outra das críticas, tendo surgido investigações (e.g. Deaux & Lewis,

1984) a favor de modelos multidimensionais para as dimensões masculinidade e feminilidade que, além dos traços psicológicos, integravam também os comportamentos e actividades associados aos papéis de género, a aparência física e a orientação sexual.

As limitações apontadas a estes instrumentos de medição da orientação dos papéis de género não impediram, contudo, que estas sejam as escalas mais frequentemente utilizadas na investigação sobre os papéis de género, quer em psicologia social quer em psicologia do desporto (Azevedo, 1991; Gill, 1992). Assim, logo após a sua publicação, tanto o BSRI como o PAQ começaram a ser utilizados com participantes desportivos. Os resultados destes estudos, de uma forma geral, sugerem que as mulheres atletas ou praticantes desportivas têm mais tendência para serem do tipo masculino ou andrógino do que as mulheres não praticantes (Gill, 1992). Porém, há que não esquecer que a própria participação desportiva (particularmente a participação em actividades de alta competição) é um comportamento considerado instrumental e que, em ambos os instrumentos, o traço “competitivo” é um dos itens da dimensão masculinidade, o que pode enviesar os resultados. Com efeito, Gill e Dzewaltowski (1988) comprovaram que é a competitividade que realmente diferencia os atletas dos não atletas, quer sejam homens ou mulheres, pois a participação em actividades desportivas envolve tanto características instrumentais como expressivas, dependendo das características específicas das actividades e das tarefas em questão. Será, então, inadequado conotar de uma forma simplista a participação na actividade desportiva com a masculinidade.

No âmbito educativo podemos, por exemplo, referir o estudo de Colley, Comber e Hargreaves (1994) que, utilizando a versão do BSRI para crianças, encontraram uma correlação negativa entre o gosto pela disciplina de Educação Física e os scores na dimensão feminilidade. Neste estudo, foram também identificadas diferenças significativas entre rapazes e raparigas, no que diz respeito ao gosto pela Educação Física, com os rapazes a revelarem uma maior preferência por esta disciplina em relação às raparigas.

Estes instrumentos também serviram para o estudo das relações entre a caracterização psicológica do pai ou da mãe e várias dimensões do comportamento de género da criança. Assim, Turner e Gervai (1995) num estudo multidimensional com crianças de 4 anos em

dois países (Inglaterra e Hungria), correlacionaram várias medidas do comportamento tipificado da criança com os scores de masculinidade e feminilidade do pai e da mãe no PAQ, concluindo que os resultados dos pais nestas medidas podem constituir-se como preditores de algumas medidas de tipificação sexual, como o estilo interactivo da criança ou a sua flexibilidade em relação aos estereótipos de género.

Uma das limitações que poderá ser apontada a alguns destes estudos prende-se com a pressuposta relação directa entre os traços psicológicos e a adopção de comportamentos associados ao género. Os próprios autores do EPAQ, Helmreich, Spence e Holahan (1979) reconheceram a fraca relação que as suas medidas tinham com os comportamentos de género, realçando a importância de factores situacionais na mediação desta relação. Outra das críticas à investigação sobre a orientação dos papéis de género pode ser encontrada em Hall (1988) que refere que a utilização destas medidas de masculinidade e de feminilidade na categorização dos indivíduos, sendo construída com base em estereótipos de género, acentua ainda mais a dicotomia social entre o masculino e o feminino.