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Choix et analyse de site et de terrain d’implantation

Isso aqui era cheio de índio. Isso aqui tudo era... só tinha índio, caça e onça e trem... depois foi chegando gente, né. O primeiro habitante que veio "praqui", venho do Portugal. [...] fizeram uma ponte para o povo passar quando descobriu, não é, no mar. E o Brasil é uma ilha, né... foi Pedro Álvares Cabral que descobriu o Brasil, não foi? [...] Descobriu e foi chegando gente... isso aqui tudo era deserto. Sr. Emilio

pelos valiosos sítios arqueológicos presentes nas inúmeras grutas da região, mas também porque se observa ainda a influência indígena permeando vários aspectos da cultura sertaneja presente no modo de vida da comunidade. A presença de índios na região também se encontra na memória dos moradores.

Agora índio tinha por aqui, daí foi sumindo, foi saindo, o povo foi tomando conta, foi chegando mais gente [...] Tem várias coisas aí deles, aonde eles escreveram, fez aqueles negócio, lá no [inaudível] que tem uma caverna. Aonde eles escreveram, fizeram as fotos dos bichos...Tá lá até hoje (D. Aparecida).

E os índio, aí tem um lugar que chama aldeia, acho que era donde os índio morava, não era? [...] pra lá de Regina [sede do Parque], tem um lugar que chama aldeia e tem outro lugar aqui que chamava quilombo, adonde morava os índio. Agora os índio saía ó, caçando coisa, caçando caça, não é... peixe, esses rios tudo em baixo tinha muito peixe, né, aqui tinha muita caça, muito veado, muito tatu, porco, caititu, isso tudo né... ema, era cheio de caça, os índio alimen... depois foi habitando de gente eles foram saindo né, foram pro Amazonas, né. Porque o Brasil é dos índios, né [risos] (Sr. Emilio).

Com relação à presença indígena, Barreira (2002, p. 101-103) afirma que a região constituía um “autêntico vazio demográfico”, pois não há registros arqueológicos que apontem a presença de nações indígenas de grande expressão no Vale do Paranã. Bertran (1994) aponta a possibilidade da presença de grupos indígenas Jê e Tupi na Serra Geral de Goiás, esses últimos empurrados do litoral para o sertão. Considerando-se o caráter nômade dos indígenas que habitavam a região do Cerrado (BERTRAN, 1994, p. 6-12) e estudos de vestígios arqueológicos do Vale do Paranã, a tese mais aceita até agora é a de que:

[...] as populações pré-coloniais utilizavam os abrigos naturais de maneira instável e tinham uma alimentação baseada na coleta. A ocorrência de relevo cárstico, com suas grutas e lajedos, deve ter sido propícia a essas populações; existem alguns vestígios, como pegadas de animais e pinturas rupestres com motivos geométricos. (BARREIRA, 2002, p. 102).

possível especular com base nos depoimentos e na história regional que a ocupação tenha sido efetivada por volta da primeira metade do século XIX:

[o lugar] tem quase trezentos anos. Quase isso aí, sabe por quê? Eu estou com essa idade de quase noventa anos, né, e desde pequenininho que eu conheci gente que tava velhinho igual eu estou agora - 'velhinho, morreu velhinho' - e era herdeiro dos proprietários que construíram as casas deles aqui (Sr. Abílio).

Porque nós somos velho aqui, nós já somos com duzentos anos aqui dentro. Só eu estou com cinquenta e quatro, minha mãe nasceu e criou aqui, com setenta, meu avô quase morreu com noventa (Sr. Batico).

[Quantos anos tem o povoado?] Aqui já é velho, moço... (Sr. Zé).

Como vimos anteriormente, as características naturais deste espaço certamente favoreceram o modelo de ocupação nos moldes do “latifúndio imedido e impreciso” (BERTRAN, 1996), e consequentemente o desdobramento de um modo de vida rural, condicionado em parte à vida nas grandes fazendas de gado. Gardner (1975, p. 176), ao atravessar a região em 1835, descreve-a como uma “área de vazios não habitados, intercalados por fazendas de gado mantidas por alguns vaqueiros [...]”. O viajante inglês percorreu toda a região que abrange a área da pesquisa, deixando várias pistas em seus relatos sobre a paisagem natural, social e cultural à época.

Em uma das passagens do livro, Gardner descreve a longa jornada de São Domingos a Posse, a qual durou muitos dias, uma vez que foram obrigados a pararem em uma fazenda chamada São João para abastecer a tropa de provisões, basicamente de carne. A espera levou dias porque o proprietário teve que buscar a provisão - um boi - a sete léguas dali. O dono da fazenda, Capitão Faustino Vieira, instalou os viajantes em um rancho aberto, que servia para cobrir o engenho de cana da fazenda, apesar de morar em uma “casa boa e cômoda” - o que parece ter deixado o inglês bastante aborrecido.

[...] viajando na direção do sul, sempre do lado oriental da serra, chegamos, na manhã seguinte, a uma fazenda chamada São João; [...] Indagando a este respeito o proprietário, este me informou que, [não] tendo gado perto da casa, teríamos de esperar pelo menos dois ou três dias, para se trazer um boi ou vaca da pastagem, que ficava a sete léguas dali: tive de aceitar a condição, sem dúvida, porque estávamos numa zona onde as provisões são difíceis de obter [...] “O dono da fazenda, Capitão Faustino Vieira, mostrou- se de índole avarenta e muito menos hospitaleiro que os fazendeiros que conheci nesta província. Embora sua casa fosse boa e cômoda, tivemos de nos instalar em rancho aberto, que servia para cobrir o engenho de cana da fazenda” (GARDNER, 1975, p. 175).

Vicente Vieira de Melo, ele que chegou aqui primeiro né, de Portugal. Conseguiu essa terra lá em Goiânia na paróquia - paroquial que a gente fala - conseguiu um título paroquial [...] De primeira conseguia na paróquia, a igreja era dona das terras, né [...] (Sr. Rubem).

A minha tataravó, a bisavó, não sei [...] o primeiro dono que morava aqui chamava Zé Vieira, nós somos Vieira de Melo, não é [...] Foi o primeiro habitante que teve aqui. Eles arremataram quarenta e tantos quilômetros de terra aqui, esse mundo tudo aqui era dela, de uma dona sozinha, o dono morreu. Tudo era dela, daqui até pra baixo de Regina ainda [sede do Parque] era uma fazenda só (Sr. Emilio, 86 anos, nascido e criado no local). As muitas léguas de terra concedida aos Vieira de Melo sugerem que foram requeridas para criação de gado. Como aponta Barreira (2002, p. 105), a concessão de sesmarias na região do Vão do Paranã fazia parte das políticas da metrópole de preservar as zonas de mineração e abastecê-las, criando um “cinturão pecuarista”. Possivelmente, as sesmarias na região eram distribuídas com a finalidade de instalar currais para abastecer as regiões de Minas Gerais, Goiás e Bahia.

No entanto, o uso destinado às sesmarias não era exclusivo para a pecuária, pois alguém precisava plantar para alimentar a economia do gado. Como afirma Bertran (1994, p. 89), “ao lado do curral vicejava a roça de alimentos”, bem como os “engenhos para o fabrico geral do açúcar e de subprodutos da cana” (BERTRAN, 1996, p. 7). A Fazenda São João – assim como outras grandes fazendas na região - foi um fator de atração de mão de obra vinda da Bahia, que na época possivelmente era constituída basicamente de escravos e ex-escravos – em busca de refúgio nas zonas mais protegidas do Vão do Paranã –, trabalhadores em busca de trabalho e criadores de gado em busca de terras livres com pastagens naturais (BARREIRA, 2002, p. 100).

[...] migraram [os Vieira de Melo] aí começaram a colocar gente pra trabalhar, né. Naquele tempo acho que ainda tinha uma parte de escravidão, porque hoje ainda tem os negros aí que assinam tudo Vieira de Melo. Trabalharam com eles né, aí como não tinha os nomes, eles tinham que registrar com o nome deles, não é... dos patrões. (Sr. Rubem).

2001, p. 30).

Estabeleceu-se, assim, um ambiente propício para relações culturais entre os distintos grupos étnicos (índios, brancos e negros) e o desenvolvimento de uma mestiçagem característica. Com o tempo, a sociedade foi se estratificando: de um lado, os proprietários das fazendas de gado, formando uma camada permeável às atividades de troca - vendendo, comprando produtos e, deste modo, se ligando ao mercado regional. Os proprietários do tipo sitiante, posseiros e agregados, ora podiam seguir esse ritmo, ora mantinham-se em uma economia fechada, não vendendo o produto da sua lavoura, senão em escala reduzida e de modo excepcional (CANDIDO, 2001, p. 104).

São esses últimos, de acordo com Antonio Candido, que definem plenamente o modo de vida camponês-sertanejo de auto-subsistência e caracterizado pela sociabilidade vicinal. Entre esses, os sitiantes e agregados são mais resilientes sob o ponto de vista da manutenção dos elementos característicos da cultura sertaneja, pois o fazendeiro rico tende com o tempo a se desligar dela, acompanhando a evolução dos núcleos urbanos; e a camada inferior – cultivadores instáveis e posseiros - nem sempre possui condições de estabilidade que lhe permitam desenvolver as formas adequadas de ajustamento social (CANDIDO, 2001, p. 105).

Hoje, verifica-se que é essa camada intermediária – filhos, netos e bisnetos dos antigos posseiros e sitiantes – os que em grande parte permanecem no campo. São herdeiros diretos da cultura sertaneja e os principais sujeitos desta pesquisa.

4.4 A VIDA NOS TEMPOS ANTIGOS

A ocupação do Vão do Paranã, nos séculos XVIII e XIX, acarretou não só o povoamento de um território estratégico para o contexto econômico da época, mas também o desdobramento de um modo de vida rural, condicionado em grande parte à vida nas grandes fazendas de gado. A fazenda tornou-se o ambiente onde se estabeleceram as relações entre o homem e a terra, entre as atividades humanas e o meio físico, entre o homem e o homem (relações de trabalho e miscigenação), e onde se forma um modo de vida peculiar, pautado por essas relações.

Primeiro com a decadência do ouro e depois com a transferência da economia colonial para os estados do sul, em meados do século XIX, toda a região ficou relegada ao abandono administrativo. Nessa época, já se havia constituído uma ocupação regional efetiva, embora rarefeita, fundamentada em grandes fazendas de gado com núcleos populacionais isolados e dispersos, subsistindo uma economia voltada para a auto-

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