GEORGE ELIOT ?
CHAPITRE 2 : Le bien-être devant la souffrance collective et individuelle
3.1. Le chemin de fer : la métamorphose du paysage bucolique
Na Interpretação dos Sonhos, Freud elabora a hipótese de um aparelho psíquico primitivo no intuito de explicar a atividade dos sonhos como saciação de anseio. Nessa hipótese, Freud imagina um organismo cujo funcionamento psíquico é determinado por um princípio bastante simples: o de manter sempre constante a quantidade de excitação psíquica. Num primeiro momento, o único recurso disponível a esse organismo é a reação nos moldes de um aparelho reflexo: dado um estímulo específico numa determinada extremidade, o aparelho psíquico capta o estímulo como excitação dolorosa e descarrega esse excedente pelas vias motoras. A reação motora, evidentemente, não está sob o comando de uma deliberação ou uma intenção de escapar do estímulo desprazeroso. Trata-se de uma reação aleatória e automática. Não obstante, a retração mecânica distancia a extremidade ofendida da fonte do estímulo e garante o restabelecimento dos níveis normais de excitação psíquica.
Embora esse mecanismo rudimentar possa ser eficiente para alguns estímulos oriundos do ambiente, ele não se mostra muito eficaz quando a fonte dos estímulos situa-se no interior do próprio organismo. Nesses casos, os estímulos são provocados por necessidades orgânicas, e as reações motoras não conseguem, por si mesmas, afastar as causas da excitação. Para que essa excitação desapareça é imprescindível, embora o suposto aparelho não o saiba de início, experimentar uma “vivência de saciação”. No cerne dessa manifestação fenomenológica estão as próprias sensações reconfortantes (como por exemplo, as de saciação, gozo, deleite); porém, essas sensações não ocorrem de maneira isolada. Elas são acompanhadas de percepções específicas oriundas do objeto externo responsável pela saciação. Segundo a elaboração de Freud, uma imagem dessas percepções específicas é automaticamente associada a um traço mnemônico da necessidade orgânica. Numa próxima vez em que se manifestar a mesma necessidade orgânica, será ativado um impulso psíquico orientado à energização daquela imagem. É esse impulso psíquico que é convencionalmente chamado por Freud de “anseio”; a reenergização (recatexização) da imagem, de “saciação de anseio”. Há duas formas de se promover essa reenergização da imagem de saciação: uma direta e outra indireta. Na direta, o aparato psíquico reenergiza completamente a percepção original, ou seja, sujeita- se a uma alucinação. Contudo, a reconstrução direta da percepção não resulta em preenchimento da carência orgânica e, após tentativas alucinógenas fracassadas, o aparato psíquico se vê obrigado a recorrer à via indireta: a adoção de um curso de ação que promova no ambiente uma situação propícia à formação da percepção original.
Freud supõe que esse estágio primitivo do aparato psíquico de fato ocorre, por um breve período, nos seres humanos. Diante da sensação de fome, o aparato psíquico do bebê procura descarregar por via motora a excitação excedente: o bebê grita e esperneia, mas a descarga motora não elimina o estímulo desagradável. Essa eliminação só ocorre quando a mãe alimenta o bebê. Forma-se, nesse momento, um vínculo entre a memória da fome e a imagem de percepções específicas (a percepção visual do seio, a sensação táctil da pele junto ao seio, as sensações do leite materno na cavidade bucal, etc.). Quando novamente surgir a fome, surgirá imediatamente uma imagem do seio e um ímpeto psíquico de reativar as mesmas percepções representadas pela imagem do seio. Mas essa atividade não pára na formação da imagem; ela prossegue na energização da imagem até que termine na reconstituição das próprias percepções, sem que haja, contudo, um objeto externo que as provoque – em suma, o aparato psíquico promove uma alucinação do seio e do ato de mamar. Esse processo em que de uma imagem suscitada pelo anseio obtém-se a própria percepção a que a imagem remete é chamado por Freud de “regressão”. Esse recurso, segundo Freud, é descartado pelo aparato psíquico assim que esse passa a funcionar segundo os ditames do Princípio da Realidade. Porém, mesmo no indivíduo adulto, o processo de regressão é reativado durante o sono. De acordo com Freud, a regressão é um dos processos operantes na formação dos sonhos – os pensamentos e os desejos são submetidos a um processo que é o inverso da abstração. É um processo de concretização perceptual. E esse movimento não pára na formação de uma simples imagem mental semelhante às que cotidianamente formamos quando estamos acordados: ele prossegue até reativar os próprios traços perceptuais.
Alguns sonhos oferecem exemplos cristalinos do processo alucinógeno ativado pelo anseio. Tendo sido frustrado o desejo por chocolates durante o dia, a criança sonha com as mesmas barras de chocolates durante o sono. A filha de Freud, após ter passado boa parte do dia sem comer, sonha com morangos, omeletes e pudins. Freud relata ser capaz de induzir em si mesmo uma determinada espécie de sonho: bastava comer anchovas, azeitonas ou algum outro tipo de comida salgada para que à noite sonhasse estar bebendo água em goles generosos, sentido a sensação reconfortante de matar a sede (FREUD, 1900). Em tais sonhos, assim como no caso da alucinação, os episódios apresentam-se como experiências sensoriais
concretas. Além disso, trazem consigo as sensações apaziguadoras associadas e geram uma breve saciação.33
Os exemplos dos sonhos não camuflados e da alucinação mostram características essenciais ao que Freud chama de “anseio”. Temos, nesses exemplos, estados motivacionais bastante elementares na vida animal – a fome e a sede. Esses estados motivacionais – a privação de água ou de alimentos – provocam um estado conativo no sujeito, o anseio. Como conteúdo desse estado conativo, são recuperadas as representações do estado de coisas que anteriormente aplacaram o mesmo anseio. Mas, de maneira diferente do que ocorre com o simples desejo, o anseio pode causar as próprias percepções e sensações associadas ao apaziguamento do anseio.
Casos como os dos exemplos acima, são instrutivos porque o anseio é despertado por uma demanda instintiva básica. Contudo, a pulsão sexual também pode ser considerada como um estado motivacional, apesar de ter em sua constituição elementos eminentemente psicológicos e apresentar uma complexidade maior que os estados motivacionais provocados por privações de água e nutrientes. Com efeito, os anseios que permanecem isolados no sistema Ics. e que se manifestam como sonhos distorcidos ou como sintomas são, na teoria de Freud, sempre expressões da pulsão sexual.
Nas Conferências Introdutórias, Freud observa que mesmo nos sonhos infantis, em que a censura pouco interfere, já ocorre uma distorção importante, que faz com que o sonho manifesto seja diferente do pensamento onírico latente: se o desejo latente é expresso pela proposição “Gostaria de ir ao lago”, o conteúdo do sonho torna-se a própria representação experiencial de estar no lago. A regressão do desejo na atividade onírica promove a “transformação de um pensamento em uma vivência” (FREUD, 1916-1917[1915-1917], p. 132).
Esse processo regressivo – responsável pela representação do objeto do anseio – acaba gerando outra conseqüência psicologicamente importante. Ao contrário do que ocorre com o desejo racional, a atividade do anseio psicanalítico não separa a representação do objeto (“Gostaria de ir ao lago”) da própria representação do anseio como aplacado (“Estou no lago”). Tão logo se constitua o anseio e o seu objeto próprio (ou seja, a experiência alucinatória) temos, num mesmo ato, o anseio e o evento psicológico apropriado ao seu preenchimento. Essa é uma das principais diferenças entre o anseio psicanalítico –
compreendido como uma emanação de estados motivacionais ou pulsões – e o desejo racional e comum. Dada a importância dessa e de outras diferenças entre a saciação de anseio e a realização de desejo, convém examiná-las separadamente.