A abordagem metodológica do estudo da violência íntima ou da violência conjugal em muito depende do modo como o investigador pretende colocar a questão: se a encaramos partindo do princípio de que se trata de uma agressão masculina contra as mulheres no âmbito de uma estrutura patriarcal ou se assumimos que deve ser visto como um problema de violência entre cônjuges.
As investigadoras feministas têm vindo a demonstrar que a violência exercida por homens é comum, frequentemente severa e persistente, frequentemente com consequências físicas, psicológicas e sociais, procurando evidenciar a extensão da estrutura patriarcal como desígnio subjacente à própria investigação. Encaram a violência marital, assim como outras formas de violência masculina sobre mulheres, como uma forma de dominação social através da qual as mulheres permanecem subordinadas e controladas pelos homens (Hanmer & Maynard, 1987, cit. Nazroo, 1995), sendo a violência vista com um papel central na manutenção deste poder (Nazroo, 1995). De acordo com a tradição metodológica feminista, a abordagem ao estudo da violência conjugal emprega fundamentalmente entrevistas em profundidade com amostras relativamente pequenas de mulheres que são, normalmente, seleccionadas devido às suas experiências anteriores de violência marital (Nazroo,
1995; Kurz, 1993).
A abordagem do conflito familiar e a abordagem feminista ao fenómeno da violência marital entraram, inevitavelmente, em conflito, sendo que este último acabou por focar-se, sem surpresa, no relato das altas taxas de violência perpetrada por mulheres, acabando, previsivelmente, por surgir também algumas críticas da primeira perspectiva relativamente à segunda.
Straus (1993) argumenta que as altas taxas de violência feminina encontradas são o resultado de efectivas amostragens randómicas e que as feministas acabaram por falhar ao não questionarem as mulheres acerca de comportamentos violentos que elas possam ter exercido sobre os seus companheiros. Este autor chega mesmo a acusar as feministas de suprimirem dados indicativos de violência feminina na conjugalidade. Outros tecem ainda comentários cujo teor se centra no facto de a abordagem descritiva não promover uma completa compreensão do problema, podendo vir até a gerar mais especulação não fundamentada acerca das causas e da extensão da violência conjugal, acrescentando ainda que, na ânsia de expor a opressão das mulheres, as experiências de violência marital vivenciadas pelos homens, quer como vítimas, quer até como perpetradores, foi largamente esquecida (Nazroo, 1995).
Os sociólogos do conflito familiar defendem-se ainda alegando que, reconhecendo algumas lacunas, foram adicionados ao CTS a maior parte dos dados contextuais de relevo, como questões sobre quem iniciou o conflito e medidas dos efeitos da violência marital, em particular dos danos psicológicos e físicos (Straus, 1993; Stets & Straus, 1990). Contudo, esta abordagem por questionário estruturado fez persistir as suas limitações na explicitação e contextualização dos resultados obtidos.
Deste modo, parece-nos evidente que devemos ter em conta o argumento feminista de que a compreensão da aparente simetria entre a violência conjugal exercida por homens e por mulheres requer o conhecimento do contexto, significados e efeitos dos actos de agressão e que este é crucial para a compreensão da violência marital. Se o contexto e o significado forem ignorados, como acontece nas medidas baseadas puramente em actos discretos, tal como no CTS, aparentemente a probabilidade de exercer violência na relação conjugal será a mesma para homens e mulheres. De outro modo, se o contexto e o significado forem incluídos, quer nos sistemas de medida qualitativos, quer quantitativos, torna-se imediatamente evidente que a violência conjugal masculina é, normalmente, mais perigosa e ameaçadora do que a violência feminina, com maior probabilidade de resultar em dano físico e psicológico (Nazroo, 1995).
A pura contagem de actos desvia a atenção de padrões relacionados de controlo e abuso nas relações, deixando de parte outros tipos de intimidação e dominação não violenta como o abuso verbal, ameaças de suicídio, violência contra a propriedade e animais domésticos, crianças e outros familiares. A concepção da violência como uma táctica de conflito falha na convergência entre o uso da violência e o exercício de poder. Yllõ (1993) argumenta que a violência seria melhor
conceptualizada como uma táctica de controlo coercivo por forma a manter o poder do marido sobre a sua companheira.
Constatando que a disparidade entre as correntes teóricas do conflito familiar e feminista seria um problema também metodológico, alguns autores sugeriram ser possível a construção de pontes entre ambas, se ambas se apercebessem das vantagens do uso da metodologia oposta. Contudo, os argumentos de cada uma dessas correntes parecem reflectir um outro tipo de divisão, para além das diferentes tradições metodológicas. Por exemplo, Straus (1993; 2004), na defesa da sua perspectiva, revela que o cerne da questão da violência íntima é o "erro moral intrínseco que é atacar o cônjuge" (Straus, 1993, pp.80), pelo que acaba por concluir que qualquer acto de violência é igualmente errado e que, se não condenarmos a violência exercida pelas mulheres tanto como condenamos a violência exercida por homens, podemos confluir na "indesejada validação das normas culturais tradicionais que toleram um determinado nível de violência entre cônjuges" (Straus, 2004, pp.80). Por seu turno, o interesse feminista na violência marital inclui a exploração da estrutura patriarcal da família, estando explicitamente ligada a outras formas de violência masculina sobre as mulheres (Kurz, 1993). Assim sendo, a violência conjugal perpetrada por mulheres não é passível de possuir o mesmo significado e consequências da violência masculina. Consequentemente, as duas perspectivas correm o risco de não poderem ser integradas (Nazroo, 1995).
2.1.4. A origem dos dados de investigação: O tipo de estudo e a constituição