Repensar a escola exige coragem, criatividade, vontade de operar mudanças reais e significativas na atuação pedagógica. Reconhecemos que ensinar não consiste em transmitir informações, mas, levantar questões, apontar problemas, possibilitar discussões através do raciocínio e da argumentação, contribuindo para uma aprendizagem significativa. Nesse sentido, defendemos que práticas pedagógicas inovadoras impactam diretamente no processo de ensino-aprendizagem, por meio de práticas educativas inclusivas, utilizando novas tecnologias e novas propostas de trabalho. Nesse quesito é importante definirmos por práticas pedagógicas inovadoras as responsáveis por promoverem a participação ativa do discente no processo de aprendizagem, visando a realização de atividades que sejam significativas para o educando, desenvolvendo o senso crítico e, principalmente, que promovam a interação social. (VERDUM, 2013)
Com essa nova proposta de trabalho, é preciso ouvir e olhar para a instituição e os anseios de seus sujeitos, sobretudo os discentes. Ouvir as inquietações dos alunos e olhar suas necessidades, observar suas resistências e entender a realidade desses jovens, respaldados numa pedagogia culturalmente sensível. Parn Sammons, em seu artigo “As características das escolas eficazes”, argumenta que o “progresso do aluno aumenta quando os professores são sensíveis às diferenças em estilo de aprendizagem e, quando possível, identificam e usam estratégias apropriadas” (SAMMONS, 1999, p. 335). A questão ressaltada pelo autor diz respeito a se ter flexibilidade e mudar a proposta inicial, sendo sensível aos interesses do aluno, procurando promover a aprendizagem e a eficácia do ensino. (BARROSO, 2016)
Com a democratização do acesso à educação, a qualidade e a equidade das redes públicas tornaram-se insuficientes. A escola popular de massa acolheu uma população desprovida de pré-requisitos necessários para a dedicação ao estudo. Segundo Lorena Freitas (2009), esses pré-requisitos para o sucesso escolar são adquiridos no seio familiar. Com isso, surge o conceito de “má-fé institucional”: padrão viciado de funcionamento institucional, no qual os profissionais da educação observam apenas os efeitos escolares de uma história familiar que consideram as causas das dificuldades de aprendizagem dos alunos. Devemos quebrar esses paradigmas, pois a escola deve acreditar no potencial dos jovens, independente do contexto socioeconômico em que eles estão inseridos, cabendo à instituição articular práticas para contornar os problemas contextuais de seus alunos e que estejam a seu alcance.
No Ceará, as Escolas Estaduais de Educação Profissional e sua proposta de ensino médio integrado se configuram como uma possibilidade, dentre várias, na busca de resolver os problemas correntes do ensino médio regular, o qual se afirma estar em crise.
As EEEPs não somente se caracterizam por ser uma política de promoção da qualidade do ensino médio, mas também como um claro investimento na formação de capital humano no estado do Ceará que poderá render frutos no médio e longo prazo, quando jovens mais qualificados adentrarem no mercado de trabalho. (IPECE, 2013, p. 10)
O ambiente escolar tende a ser um reflexo das relações de poder tecidas na sociedade, na qual o poder político predominante em cada época guia seu modelo na condução da área educacional, refletindo na forma de como gerir a escola. No caso do Estado do Ceará, pode-se perceber que a adesão ao programa Brasil Profissionalizado, com a implantação do projeto das Escolas Estaduais de Educação Profissional (EEEPs), alinhou interesses internos, ou seja, políticos, como a melhoria dos índices do desenvolvimento educacional do Estado, baseado em políticas econômicas externas neoliberais que, de forma direta ou indireta, interferem e influenciam na área da educação.
Nesse contexto, a TESE – Tecnologia Empresarial Socioeducacional, modelo adotado pelo Estado do Ceará, apresentou-se como um modelo de gestão que mescla elementos da administração empresarial com a administração escolar, buscando, através de premissas do protagonismo juvenil, corresponsabilidade, replicabilidade, entre outros, garantir o sucesso de uma proposta de um ensino médio integrado que não apenas atenda às metas determinadas pelas políticas de governo, mas que também propicie aos jovens educandos uma formação humana integral. (MAIA; PINTO; ALVES, 2019)
A instituição escolar, nessa perspectiva, é encarada como uma empresa, onde o governo e a iniciativa privada entram com o investimento e a instituição deve gerar lucros. No caso, esse lucro se reflete na aprendizagem satisfatória dos discentes, na inserção dos alunos no mercado de trabalho e no ensino superior, como também, na formação integral desses jovens. Entretanto, destacamos que a educação pode ser de qualidade, sem, necessariamente, ser compreendida com todas as premissas de uma empresa e a sua administração por objetivos, segundo a qual se devem gerar lucros e/ou resultados como objetivos últimos. A educação, possuindo especificidades que a diferem de uma empresa, deve contemplar suas singularidades para alcançar os objetivos de uma educação na perspectiva da formação crítica, respeitando as singularidades dos educandos e seu contexto de inserção.
A escola deve desenvolver uma gama diversificada de metodologias de aprendizagens, todas centradas no educando, as chamadas metodologias ativas. Esses são processos educativos que apresentam como principal característica a utilização de estratégias que possibilitam a inserção e o engajamento do aluno como agente ativo e responsável por sua aprendizagem e seu desenvolvimento. Elas são importantes pelo fato de desenvolverem nos discentes o protagonismo estudantil na busca ativa da aprendizagem.
Destacamos, entre as principais metodologias ativas: Aprendizagem Baseada em Problemas; Aprendizagem Baseada em Projetos e Aprendizagem Colaborativa e Cooperativa. Esses três métodos utilizam o trabalho em equipe para fortalecer e integrar processos de aprendizagem, construção de competências dos estudantes. São derivadas desses processos as Inteligências Múltiplas, Socioemocional, Sala de Aula Invertida, que são exemplos de propostas que lançam mão desse trabalho colaborativo em equipe, visando promover ganhos acadêmicos e conceituais.
Essas propostas visam organizar os estudantes em ambientes educativos de trabalho de tal forma que eles possam se engajar e não apenas distribuir um trabalho coletivo. A ênfase está no processo, no desenvolvimento de competências e de relacionamentos com seus pares, através de uma boa interação, promovendo aprendizagens dos outros, enquanto também se aprende. Essas metodologias cooperativas têm mostrado, através de pesquisas, que há, de fato, um aumento na performance acadêmica, que há um desenvolvimento de habilidades e competências profissionais e pessoais, de respostas criativas, promovendo, ao integrar várias áreas, o desenvolvimento integral do estudante.
O Ceará tem se destacando no cenário nacional na oferta de uma educação de tempo integral com qualidade, conforme mostra o estudo “Excelência com Equidade no Ensino Médio: A dificuldade das redes de ensino para dar um suporte efetivo às escolas”, realizado pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (IEDE), em parceria com a Fundação Lemann, Instituto Unibanco e Itaú BBA.
Esse estudo detectou que o Ensino Médio brasileiro não vai bem. Em um universo de 5042 escolas públicas que atendem a alunos de baixo nível socioeconômico, apenas 100 escolas atingiram os critérios mínimos de qualidade educacional: Nível de proficiência dos alunos na Prova Brasil 2017 de pelo menos 275 pontos em língua portuguesa e 300 pontos em matemática; Taxa de aprovação de, no mínimo, 95%; Resultado igual ou acima da média nacional nas provas objetivas do Enem (maior ou igual a 515 pontos); Resultado igual ou acima da média nacional na prova de redação do Enem (maior ou igual a 558 pontos); Média igual ou superior a 500 pontos em todas as quatro grandes áreas avaliadas pelo Enem.
O Ceará se destaca nesse estudo com 55 escolas que atendem a esses quesitos, dentre as quais está a EEEP Gama. Outra questão percebida pelo estudo foi que as escolas com melhores resultados são as que funcionam em tempo integral. Segundo o IEDE, nessas escolas existem boas práticas que podem ser replicadas por outras escolas. A pesquisa evidenciou o foco em dados e monitoramento contínuo da aprendizagem, com utilização de sistemas integrados de gestão educacional; tomadas de decisões baseadas em evidências quantitativas e qualitativas; currículo diversificado com opções de escolha aos alunos; professores desenvolvendo uma relação de parceria com os alunos, por meio da escuta ativa e quebra do tabu da hierarquia; estratégias pedagógicas que conversam com a realidade dos alunos e atendem às diferentes necessidades de aprendizagem, com mescla de métodos de fixação (exercícios e simulados) e métodos que estimulam a criatividade e o protagonismo (feira de ciências, atividades esportivas, tutoria entre alunos e aulas eletivas criadas por eles); boa interlocução dentro da escola e com os atores de fora (pais, comunidade e Secretaria de Educação).
O estudo também apresentou, como principais desafios, para a replicabilidade dessas práticas o fato de a grande maioria das escolas com bons resultados de aprendizagem e fluxo escolar no ensino médio funcionar em tempo integral. Nesse modelo, existem condições facilitadoras para o ensino: muitos professores lecionam em uma única escola e há menos alunos por professor. Há o desafio do financiamento, já que é um modelo mais custoso para implementação e gestão. Nas instituições com bons resultados, regulares e de tempo integral, a continuidade do trabalho e a manutenção do corpo docente viabilizaram avanços, sendo esses desafios em muitos estados.
Se considerarmos os estudos sobre escolas e sistemas eficazes como o de Pam Sammons, verificamos que seis aspectos sempre são percebidos nos melhores sistemas educacionais: Escolas possuem bom clima escolar; Gestão escolar e ensino são focados na aprendizagem dos alunos; Avaliações indicam intervenções pedagógicas necessárias; Formações desenvolvem professores de alta qualidade; Currículo norteia as ações pedagógicas e Condições essenciais são garantidas pelo financiamento. De acordo com o estudo, no Brasil, apenas os três primeiros aspectos são verificados nos melhores sistemas, os três últimos aspectos ainda se configuram como desafio a ser superado pela educação brasileira.
E quais são as características de uma escola eficaz? As escolas eficazes se caracterizam por ter uma equipe fortemente integrada em torno de um objetivo comum que é a aprendizagem dos alunos. Acreditar nos estudantes é fundamental, depositando altas expectativas na aprendizagem dos discentes, independente dos fatores contextuais. Escolas que atendem a educandos com baixo nível socioeconômico têm uma característica marcante. Primeiro, elas
acreditam nesses alunos, esse olhar sensível e a confiança depositada nesses jovens são essenciais, visto que eles já trazem algumas dificuldades do contexto social de onde vivem.
O trabalho em tais instituições, deve ser realizado de maneira integrada entre os agentes da escola para a garantia do aprendizado dos discentes, independente do seu baixo nível socioeconômico. Uma escola oferta educação de qualidade, quando consegue fazer que seus alunos aprendam, apesar daquilo que é previsto no seu nível socioeconômico. Se um aluno está em uma classe social mais baixa, as estatísticas mostram que ele terá baixa aprendizagem. Todavia, esse fato não pode ser determinístico, visto que uma educação de qualidade, é aquela que consegue reverter esse processo, conseguindo garantir que todos os alunos avancem com equidade.
É o que chamamos de efeito escola, o qual representa “o quanto um dado estabelecimento escolar, pelas suas políticas e práticas internas, acrescenta ao aprendizado do aluno” (BROOKE; SOARES, 2008, p.10). Para falarmos em escolas eficazes que ofertam uma educação de qualidade, temos que falar em duas perspectivas: o direito de aprender e uma formação voltada para a cidadania e os direitos humanos. Quando falamos em educação, devemos compreender que educar é um processo de humanização, em que o convívio social e a interação são relevantes. A escola é um espaço privilegiado para esse convívio social. Contudo, seu papel não se restringe a isso, uma vez que a ela não pode ser apenas esse espaço de convívio social, onde aprendemos os valores plurais pelo convívio. Ela deve ser também, um espaço efetivo para a aprendizagem, pois a cidadania está intimamente relacionada à aprendizagem.
Precisamos garantir que os educandos ampliem suas possibilidades de transformar suas histórias por intermédio da realização de seus projetos de vida pela inserção no mundo do trabalho ou no ensino superior e, sobretudo, a inserção em uma sociedade na qual atuarão como protagonistas da sua história, conscientes dos seus direitos e deveres.
Na seção seguinte, discutiremos as contribuições do trabalho colaborativo entre professores e alunos e refletiremos sobre a importância das práticas colaborativas no fazer pedagógico.
3.1.2 As contribuições do trabalho colaborativo: reflexões sobre os afazeres pedagógicos