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Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 150-173)

Outro grande desafio foi tentar articular as narrativas orais com outras fontes, tais como: fotografias, correspondências, documentos internos da escola e jornais. Todos os documentos foram submetidos à análise com o objetivo de esclarecer os pressupostos, os conceitos e as informações presentes nos discursos acerca do objeto de estudo, que é o processo educacional dos surdos do Município de Caxias do Sul. Procurei escrever o texto como uma composição na qual pus em conversação os diversos tipos de documentos. Essas conversações foram fundamentais na construção da minha narrativa, pois se, em alguma entrevista faltava uma data, por exemplo, quem fornecia isso com mais precisão eram as correspondências ou os jornais. Ou então, se não ficava claro que local era aquele mostrado numa fotografia, recorri às entrevistas orais. Enfim, as fontes se complementaram e dialogaram produzindo outro discurso. Nessa direção, acrescentaria uma quarta dimensão ao “diálogo em três dimensões”, de Stecanela (2008), a qual propõe que o material empírico, o problema de pesquisa e o referencial teórico dialoguem entre si, produzindo significado ao que foi levantado. Ainda segundo a autora, é a partir desse diálogo em três dimensões que se torna

possível “dar voz aos números e aos dados”, que por si não comunicam nada. Em um diálogo em quatro dimensões, o pesquisador dialogaria com os dados (ou documentos), com o referencial teórico, com o problema de pesquisa, e, ao mesmo tempo, os dados (ou documentos) também dialogam entre si.

No que concerne às fotografias, utilizei-as tanto como fontes quanto como ilustrações. Em algumas delas, faço a análise das imagens, dos elementos que as compõem, da forma como procuram retratar um momento da história, daquilo que está à mostra e daquilo que ficou de fora do enquadramento das lentes do fotógrafo. Outras vezes, as utilizo unicamente como ilustração, como forma de visualizar uma edificação da escola ou para mostrar um momento de confraternização. O maior desafio ao trabalhar com as imagens foi fazer a seleção daquelas que fariam ou não parte do trabalho. Acabei juntando uma grande quantidade de fotos dos diversos períodos históricos, que atingiu um volume documental inviável de ser analisado pela sua extensão. Sem contar que, nos últimos anos, com o advento da câmera digital as imagens se multiplicaram e a quantidade de fotos produzidas em um único ano é quase incalculável. Então, fiz a seleção daquelas que me diziam mais sobre os diferentes períodos e apresentei-as no corpo do texto ou nos anexos, no final da dissertação. As fotografias foram obtidas nos acervos da escola, no acervo particular dos entrevistados e em jornais pesquisados. Por não fazerem parte de um arquivo sistematizado, a grande maioria das fotos é de autoria desconhecida, então, nas legendas aparecem somente a fonte, a data aproximada e a descrição da imagem.

No caso dos jornais, a análise foi feita procurando informações sobre a educação de surdos no período estudado, com o intuito de identificar a forma como os discursos sobre a surdez circulavam na mídia jornalística regional. Parte dos periódicos foi acessada pelo site da Câmara de Vereadores,14 que disponibiliza virtualmente cópias digitalizadas de jornais de Caxias do Sul e da região entre os anos de 1906 e 2009. O Centro de Memória da Câmara congrega os acervos do Arquivo Histórico da Câmara e do Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami. O site possui ferramenta de busca aos conteúdos dos periódicos, o que facilita a localização de artigos e reportagens a partir de palavra-chave. As palavras utilizadas para busca foram: surdo, surdos, surdez, surdo-mudo, surdos-mudos, Helen Keller e

14

Disponível em: <www.camaracaxias.rs.gov.br>, no link Centro de Memória. Acesso em 02 fev. 2011.

deficiência auditiva. Os resultados remeteram aos jornais Pioneiro, Folha de Hoje e Caxias Magazine do referido período. Além do portal da câmara, tive acesso aos jornais por meio do entrevistado Aldo Fedrizzi, que possui um arquivo pessoal, com reportagens, fotos e correspondências. As correspondências e documentos oficiais foram fornecidos pela direção da Escola de Ensino Fundamental e pela Escola de Ensino Médio. Também obtive alguns documentos com Aldo, que, como relatei anteriormente, possui um acervo pessoal com documentos históricos referentes à escola. Alguns dos periódicos e dos documentos oficiais se encontram anexados a esta pesquisa, como forma de sistematizar esta documentação e, quem sabe, auxiliar em futuras pesquisas.

Quanto às narrativas, o tratamento dispensado começou com a tradução, processo bastante demorado e trabalhoso. Utilizei dois computadores, um para reproduzir o vídeo e outro para digitar a tradução, isso porque era necessário parar e voltar várias vezes, a fim de compreender o que estava sendo dito. Esse contato com as entrevistas foi muito importante para a imersão no material empírico, pois participei do momento de seu acontecimento, da sua tradução e das inúmeras revisões e leituras posteriores. Ao mesmo tempo em que traduzia e assistia às filmagens, fazia a relação com os documentos escritos que havia manipulado ou com as conversas que havia tido com outros membros da comunidade surda, e isso me possibilitou enriquecer as reflexões e interpretações das entrevistas. Todas as entrevistas traduzidas e transcriadas estão anexas ao trabalho. Apesar de terem sido apresentadas em anexo, considero que essas sejam parte fundamental da pesquisa. Faço minha leitura dessas fontes no Capítulo 4, mas quis deixar aberta a possibilidade para que o leitor pudesse fazer suas próprias interpretações e pensar outras possibilidades de enxergar o processo educacional em questão.

Outro tratamento que dei às entrevistas foi o registro fotográfico das mesmas, quando usei o recurso do PrtSc para capturar a imagem da tela do computador e transformá-la em foto. Como as narrativas foram todas filmadas e, posteriormente transcritas, muito da espacialidade e da visualidade da Língua de Sinais foi perdida na tradução. Colocar as imagens da entrevista foi um recurso que encontrei para minimizar tais perdas ao mesmo tempo em que aproveitei para registrar, na própria dissertação, sinais de pessoas ou de lugares. Isso porque, no âmbito da cultura surda, é muito valorizada a memória dos sinais, ou seja, que sinais eram utilizados para expressar determinadas ideias, qual era o sinal de “batismo”

dos surdos (alunos e professores), enfim, a questão das identidades e da cultura está fortemente ligada à Língua de Sinais, e esses aspectos, muitas vezes, não são registrados, ficam circulando na memória coletiva até que são esquecidos, e se perdem no tempo. Por isso, resolvi fazer este registro fotográfico além do escrito.

Por último, acredito que seja importante discorrer sobre o tratamento formal dado às entrevistas. Poderia dizer que o próprio ato de tradução já seria uma forma de tratar os dados, pois as traduções estão carregadas por minhas interpretações. Entretanto, a fim de dar uma melhor fluência para a leitura do texto fiz o trabalho que chamo de transcriação. A diferença entre o trabalho que realizo e as tradicionais formas de transcriação, propostas pelos teóricos da História Oral, é que ao invés de retirar as questões do entrevistador e transformar o texto em uma narrativa em primeira pessoa, organizando o texto a partir de outra cronotropia. Mantenho a ordem das falas, não apago minhas questões e acrescento observações e comentários nas entrelinhas das entrevistas, procurando descrever aspectos que não apareceriam numa simples tradução e transcrição. Para a realização desta etapa, me baseei na dissertação de mestrado realizada por Leite (2004, p. 67-75), em que o autor faz algumas críticas às formas de História Oral tradicionais e, ao mesmo tempo, propõe outra maneira de sistematizar as entrevistas. Chama, então, de romanceamento polifônico, o ato de transcriar as entrevistas dando tom de texto em prosa. Deixa transparecer as múltiplas vozes que perpassam a narrativa, dentre elas a do entrevistador e suas impressões sobre o momento da entrevista. Procurei simplificar sua proposta, que incluía um sistema de pontuação diferenciado para identificar as vozes, e acrescentei ao texto, conforme explicitei anteriormente, as imagens da entrevista.

Após a transcriação, procedi à devolução das entrevistas aos surdos. Esse momento de colaboração da escrita ocorreu de forma diversificada com cada participante. Para Aldo, levei a entrevista impressa e li junto com ele, de forma que, se surgia alguma dúvida de vocabulário ele me questionava, e, inclusive, acrescentou informações que havia se esquecido de mencionar na hora da filmagem. Para Tibiriçá, entreguei a entrevista impressa, ele levou para casa, me devolveu com as correções e tiramos algumas dúvidas pessoalmente. A entrevista de Carilissa foi enviada por e-mail e as correções e dúvidas foram sanadas virtualmente. Todos os entrevistados reagiram de forma bastante positiva à devolução das entrevistas e ao processo de colaboração. Foi uma das etapas mais

interessantes da pesquisa, constatar como cada um reagiu ao ver suas narrativas trabalhadas, escritas e valorizadas pelo pesquisador.

No próximo capítulo, trato de algumas reflexões sobre a historiografia da educação de surdos, bem como das teorias e práticas que vigoravam nas escolas especiais em diferentes períodos e contextos históricos. Por último, traço um panorama geral sobre a educação de surdos na atualidade e as discussões sobre a educação inclusiva, numa perspectiva crítica.

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