2 Model and Semantics
2.6 Character Sets, natural languages, and internationalization
Logo após a assinatura do decreto que colocou o Brasil na Grande Guerra, uma série de ações mobilizou o cenário político-social e diplomático do país. Um dos efeitos imediatos da declaração de guerra se fez sentir no mercado de ações: após a decisão do país, houve uma alta das cotações dos títulos brasileiros na Europa, conforme confirmado pelo Ministro francês Paul Claudel em discurso163. Para Compagnon: “passada a grande emoção do ano de 1917, que situa a questão da entrada na guerra no centro da atualidade e das preocupações quotidianas, o conflito continua a ocupar lugar central nas sociedades e na vida política até o armistício”164.
A política interna de guerra avançou rapidamente após a declaração de beligerância contra o Império Alemão. De fato, não havia grande dificuldade, pois a maioria dos deputados e políticos em geral era partidária da causa brasileira na guerra e aprovaria as ações do presidente no âmbito interno. As ações promovidas pelo governo impactaram profundamente a vida social dos brasileiros durante o conflito e modificaram o cotidiano, especialmente nas grandes cidades. Compagnon detalha parte das ações promovidas pelo governo brasileiro:
Em 16 de novembro, o Congresso brasileiro vota a lei de guerra que proíbe aos alemães estabelecidos no país qualquer comércio e qualquer relação financeira com o exterior, põe termos aos contratos públicos que envolvam fornecedores alemães e proíbe aos alemães a obtenção de concessões de terra. Os bancos e as companhias de seguro alemães são submetidos a uma fiscalização excepcional165.
As ações previam, ainda, a proibição, para pessoas de nacionalidade alemã de assumir funções consulares, bem como a exoneração destes indivíduos de cargos diplomáticos166. A censura postal foi instituída no território nacional167. As leis de guerra procuravam, acima de tudo, manter a ordem e a proteção da nação.
163
TELEGRAMMAS. Os titulos brasileiros. O Dia, Florianópolis, 18 jul. 1918. p. 02.
164
COMPAGNON, Olivier. O adeus à Europa: a América Latina e a Grande Guerra. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. p. 151
165
Ibid., p. 143.
166
MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Guerra da Europa – documentos diplomáticos –
Attitude do Brasil – 1914-1917. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1917. p. 156-157.
167
O tema da censura postal brasileira, durante a Grande Guerra, ainda se constitui em uma lacuna a ser preenchida pelos pesquisadores.
Assim, a declaração de guerra acabou aprofundando duas questões que já vinham se aprofundando anteriormente: a “questão alemã” e o nacionalismo. Se antes da beligerância, os indivíduos de origem alemã representavam apenas um perigo a ser vigiado, agora, com a declaração de guerra, eles se tornavam o inimigo, o outro, aquele a ser enfrentado. Conforme Frederick C. Luebke, tivemos ao menos dois grandes tumultos que tiveram com alvo a população alemã, ambas ocorridas após afundamentos de navios brasileiros, devido ao “forte sentimento anti-germânico”. A primeira onda de tumultos aconteceu após o afundamento do Paraná em abril de 1917 e a segunda a partir do mês de outubro, às vésperas da entrada do Brasil no conflito168.
A questão do nacionalismo é recorrente dentro desta abordagem, pois coloca o cidadão brasileiro em estado de alerta, pronto para denunciar supostos traidores da pátria. Complementarmente, a presença de diversos imigrantes alemães (ou descendentes) nos estados do Sul e Sudeste do Brasil, em cidades como Curitiba, Porto Alegre e Rio de Janeiro, desencadeou forte repressão e ataques públicos a estes supostos “germanófilos”. Trabalhos como os de Márcio de Oliveira e Stefan Bonow, que utilizaram, principalmente, dados coletados na imprensa, demonstram a delicada situação de desconfiança que se desenvolveu nas cidades de Curitiba e Porto Alegre junto às comunidades alemãs, que desenvolveram estratégias para se resguardar169. Ainda conforme Luebke, a guerra teria causado forte impacto na comunidade alemã no Brasil, com impactos repressivos no campo da imprensa étnica, das escolas alemãs, da comunidade religiosa alemã e, também, nos clubes e outras agremiações associativas170. A interpretação sobre um “perigo alemão” no Brasil quando levadas ao extremo, naquele contexto, poderiam chegar, inclusive a interpretações, não só sobre a fidelidade dos teuto-brasileiros ao Brasil, mas sobre a própria integridade territorial. Para alguns, tolerar uma “comunidade alemã fechada”
168
LUEBKE, Frederick C. Germans in Brazil: a comparative history of cultural conflit during World War I. Baton Rouge: Louisiana State Universitu Press, 1987. p. 120-174.
169
BONOW, Stefan Chamorro. A desconfiança sobre os indivíduos de origem germânica em
Porto Alegre durante a Primeira Guerra Mundial: cidadãos leais ou retovados? Porto Alegre, Tese
(Doutorado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011; OLIVEIRA, Márcio de. A cidade de Curitiba e os imigrantes alemães durante a Primeira Guerra Mundial, uma análise da imprensa local. Cadernos CERU, série 2, v. 23, n. 2, p. 175-202, dez. 2012.
170
era correr riscos de sofrer uma “invasão alemã”171. Percebe-se de acordo com René Gertz que a situação alemã tornou-se mais problemática: “se antes da guerra é provavelmente menos fácil encontrar indícios de apoio à “ameaça germânica, [...] no período da guerra há indícios que podem ser interpretados nesse sentido”172. Buscando combater o “perigo alemão”,
Intelectuais e jornalistas produziram muitos escritos sobre o assunto. Exemplo típico desta literatura é um livro como O
alemanismo no sul do Brasil, de Sílvio Romero, de 1906. Mais
próximo da Primeira Guerra e durante a mesma surgiram vários outros escritos do gênero, como O perigo prussiano
no Brasil, de Arbivohn [Raimundo Bandeira], ou O pangermanismo no sul do Brasil, de Raul Darcanchy, de 1914 e 1915, respectivamente173.
Apesar de ainda serem escassos os estudos sobre as políticas internas durante a guerra, é evidente que, nesse contexto de ebulição social, as medidas oficiais e para-oficiais colocavam como primeira necessidade a manutenção da ordem no país. Entretanto, ao mesmo tempo em que se organizava o ambiente doméstico, havia a necessidade de, também, de cuidar da atuação na guerra.