• Aucun résultat trouvé

Chapitre XXIII

Dans le document Candide, ou l Optimisme par Voltaire (Page 107-127)

No momento performativo constrói-se a obra, a qual o VJ desenha consoante o contacto com a pré-concepção da imagética e através de decisões impulsivas e reactivas perante a audiência. Este evento é transitório, move-se em tempo-real e ao vivo, e demanda uma incessante comunicação entre o performer e o público. Ao longo do contínuo e efémero instante performativo estabelecem-se conexões entre estes dois elementos. Há um duplo diálogo entre as imagens e os sentidos da audiência, e entre a audiência e a sensibilidade do VJ. Por este prisma, a obra em si apenas se figura através desta interacção. Contudo, uma comunicação de sucesso nem sempre é exímia, pois subsistem graus de aleatoriedade e de imprevisibilidade, desenhadas pelo improviso. Christine Mello, no seu artigo Imagens ao vivo, afirma sobre este assunto que "quando projecções incluem a participação da audiência e tempo-real no próprio núcleo de significado e

construção sensorial, elas tornam-se numa espécie de arte que não é orientada ao objecto, transitória e efémera, em oposição à arte relacionada com um produto específico (como um videoclip), para o resultado final de uma peça ou a contemplação de um espectador." (Mello, op. cit, consult. 22-05-2009)

O objecto artístico em si, não é suficiente como estudo, pois este ganha corpo nas relações momentâneas, e o valor artístico, por sua vez, conquista significado com base na experiência.

Uma das marcas do trabalho realizado ao vivo é sua relação com a pista. Mesmo previamente definida, a sequência dos sets de imagens dependerá da atenção ou dispersão da pista. A esta atenção e vibração do público é cognominada de Temperatura de pista, sendo uma expressão próxima à temperatura de cor, mas aqui procura-se um tipo de tom, cor, ritmo e qualidade visual para se constituir um ritmo de fruição, uma evolução de estímulos. O performer é responsável pela escolha do que projectar, quando projectar, o momento de retirar a imagem e

deixar apenas a cor branca ou outra cor, relacionando-se à construção do ritmo com o público. O modo como está a atenção do público, a quantidade de pessoas ali presentes e a música tocada vai criar a experiência.

Não existem regras que delineiam para qual imagem mudar ou não, mas existe um processo cognitivo: a cognição situada. Esta é-nos apresentada como um acto cognitivo resultante de uma simbiose quase perfeita entre o aprendiz e o meio envolvente, criado para favorecer uma aprendizagem, baseada em circunstâncias interactivas e em tempo real. A cognição situada define que todo ato cognitivo é um ato experiencial, e, portanto, situado, resultante do acoplamento estrutural e da interacção congruente do organismo no seu ambiente, ou seja, organismo e ambiente constituem uma unidade inseparável, e a dinâmica de interacção ocorre contínua e simultaneamente. Esta teoria ajuda a explicar estas pressões de tempo, escolhas em tempo-real, bem como a importância das acções no contexto destas práticas criativas. Como se activa a desempenho cognitiva no ambiente usando ferramentas e técnicas, bem como o movimento e espaço em tais ocorrências realizadas, tem uma importância fundamental na construção de experiências reactivas ao trabalho realizado. Aprender em tempo-real quais as imagéticas, efeitos, e ritmos que funcionam num determinado momento entre a música e o público, é o que permite ao VJ tornar-se mais consciente da imagem performativa, potenciando posteriormente as suas apresentações.

VJing cria reinos improvisados, onde os participantes se envolvem na criação momentânea do performer. Certo é que, para a audiência uma imagem passa, tão rápido, sendo difícil de afirmar a sua função, o seu contorno, numa primeira vista, e volta associada com outra, permanecendo agora por mais tempo, mas mesmo assim a imagem volta a escapar. A falta da imagem, aquela imagem que se tornou a companheira sequencial, passa a funcionar como uma solicitação para o ver. A construção visual funciona em sequências e ritmo, e essa articulação permite a construção de narrativas por cada elemento da audiência, pois trata-se de uma obra aberta a múltiplas interpretações, independentemente das suas medidas de abstracção ou figuração. A performance não conta histórias, mas sim induz à sua criação, i.e., o público é convidado a explorar a imagem e respectivas mensagens. A criação de narrativas é apenas uma amostra do poder imagético. O performer deve assim, contactar o público e convidá-lo a olhar mais vezes para a projecção usando repetições de imagens,sugerindo uma construção colectiva de um espaço e tempo. Apesar de não existir uma narratividade vincada, como no cinema, onde existe gradações de clímax, plot points e resoluções, existe igualmente essa noção de ritmo evolutivo. Pode considerar-se um progresso temporal, não só vincado

pela resposta da audiência, mas igualmente desenvolvida pela expressividade do artista performativo, o VJ.

A construção visual deve obedecer a um conjunto de processos de aprendizagem ao vivo, baseados na configuração visual e na reactividade de um público. O acto performativo é a base estrutural de todo o trabalho de VJing, é o que proporciona momentos sinestésicos, a construção de um ambiente imersivo, e a comunicação das mensagens que foram previamente arquitectadas num momento conceptual. A performance é um contacto, uma capacidade de criar laços entre as sensações e as imagens, é de facto, o momento criativo. O sucesso performativo envolve assim, experiência e conhecimento de causa, que apenas poderá ser harmonioso com treino da prática. Falar em VJing e nas correspondências entre audiência e performance é acima de tudo, saber dialogar.

Concluindo esta ideia, segundo Edmond Couchot, “a imagem é, uma actividade que põe em jogo as técnicas e um sujeito (artesão, artista...) que, além de operar com estas técnicas, possui um savoir faire que leva um ‘traço’, voluntário ou não, de uma certa singularidade. Como operador, este sujeito controla e manipula as técnicas, mas ele também é ‘operado’ por elas, é modelado pelas técnicas através das quais ele vive uma experiência íntima que transforma a percepção que ele tem do mundo: é a experiência ‘tecnestésica’. As técnicas não são somente modos de produção; são também modos de percepção do mundo. As técnicas novas não se entranham necessariamente numa nova imagem, mas fazem surgir as condições da sua aparição.” (Couchot, op. cit., 1998)

Dans le document Candide, ou l Optimisme par Voltaire (Page 107-127)

Documents relatifs