Essa associação religiosa católica destinada a meninas e jovens solteiras tinha por objetivo o aprimoramento moral e religioso das associadas. As Filhas de Maria usavam uma fita azul no pescoço, com uma medalha presa, contendo a
253ACMS. Livro Receita e despeza do externato e do internato, 1902 a 1910. 254APEB. Livro Registro de Visitas dos Fiscais do Governo, 1922-1940. 255
ACMS. Livro Receita e despeza do externato e do internato, 1902 a 1910; Regimento Interno do Educandário do Sagrado Coração de Jesus, aprovado em 24 de fevereiro de 1934.
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Sobre a associação Pia União das Filhas de Maria utilizamos os seguintes textos: ANDRADE, Maria Lucelia de. O encanto da fita azul: ―memórias trajadas‖ das Filhas de Maria. IV Simpósio Nacional Estado e Poder: intelectuais. São Luiz, UEMA, 2007; MANUEL, op. Cit.; RIBAS, Ana Claudia. À sombra das virgens: os códigos de conduta da ―Pia União das Filhas de Maria‖ na primeira metade do século XX. Fazendo Gênero 9:
Diásporas, Diversidades, Deslocamentos. UFSC, 2010; SOUZA, Ioneide Maria Piffano
Brion de. Construindo identidades: a Pia União das Filhas de Maria e o catolicismo romanizado. XIV Encontro Regional da ANPUH-RIO: Memoria e Patrimônio. UNIRIO, 2010.
imagem da santa de devoção da irmandade. Essas indumentárias eram sinais de distinção bastante cobiçados pelas alunas, o que provocava a competição entre elas para ingressar na congregação.
Fazer parte da associação era privilegio de algumas jovens consideradas merecedoras. Além da conduta irrepreensível, a candidata devia ser apresentada por duas jovens que já fossem integrantes da mesma. Depois de um tempo participando das reuniões na condição de ―pretendente‖, a jovem passava a ser ―aspirante‖, recebendo a fita verde. Nesse período, seu comportamento era avaliado. Somente após esses estágios ela se tornava Filha de Maria e, numa solenidade pomposa, recebia a fita azul e o Manual que continha as regras da congregação.
A inauguração da associação no Educandário dos Perdões ocorreu em 17 de maio de 1903, com toda solenidade, a requerimento do Capelão, o Cônego Ildefonso Nunes de Oliveira. O ato foi presidido pelo arcebispo D. Jerônimo Tomé da Silva, que recebeu as 13 aspirantes, dando-lhes a fita verde257.
A Pia União das Filhas de Maria era o resultado de um projeto moralizador da Igreja interessado em disciplinar o sexo feminino. A associação era supervisionada por um clérigo, no caso do Educandário, o Cônego Ildefonso Nunes de Oliveira, que mais tarde auferiu o título de Monsenhor, e a base doutrinária era o Manual, que havia sido escrito por um padre. Segundo Ana Cláudia Ribas, ―não se tratavam de simples regras de conduta católica, mas de uma construção de identidade de gênero concebida a partir de uma ótica masculina‖258
.
O modelo de inspiração das associadas era a Virgem Maria e Santa Ignez, virgem e mártir, representações incontestáveis das virtudes de pureza/castidade, obediência e caridade. Nas reuniões mensais da associação esses valores eram constantemente lembrados na preleção do diretor.
Na reunião mensal de maio de 1915, o Monsenhor Ildefonso Nunes de Oliveira destacou a importância de ler os estatutos da associação e exortou a submissão e o respeito que todas as associadas deviam ter para com os diretores e
257ACMS. Registro das Actas do Conselho e das Reuniões Mensaes da Pia - União das
Filhas de Maria do Educandário do Sagrado Coração de Jesus.
para com as dignitárias, na medida do grau de autoridade de que estavam revestidas, dizendo que a obediência é essencial para a manutenção da ordem. Em seguida, apontou o mal que causavam as relações amigáveis e o amor demasiado aos enfeites. Finalizou enfatizando que as jovens consagradas à Virgem deviam tê- la como modelo259.
O trajar feminino e a frequência das jovens em festas e bailes eram motivos de preocupação do diretor, que repetidamente repreendia esses novos comportamentos em suas instruções nas reuniões da associação:
O Revmo. Monsenhor Ildefonso Nunes de Oliveira fez uma bella pratica, estimulando, não somente as Filhas de Maria como também a todas as pessoas que se dizem christãs, a defenderem a Religião de Nosso Senhor Jesus Cristo, ainda mesmo com sacrifício da própria vida. Referiu-se tambem aos pais de família que consentem que as suas filhas frequentem clubes carnavalescos, cinemas e finalmente certas reuniões que possam offender a moral christã, e que so servem para perdição da alma. Disse ainda que nós Filhas de Maria, devemos nos trajar decentemente, não fazendo uso de modas exageradas, a fim de que não desagrademos a Maria Santissima e tenhamos uma eternidade feliz260.
Críticas semelhantes surgiam em diversos segmentos da sociedade. O processo de urbanização de Salvador, ocorrido nas primeiras décadas do século XX, trouxe novos hábitos aos moradores da cidade com a abertura de lojas e a inauguração de clubes sociais, confeitarias e casas de chá, além de outras opções de lazer, como casas de espetáculos, teatro e cinema. As mudanças nos hábitos da elite feminina, que passava a ocupar os espaços públicos da cidade, foram tão marcantes que causaram certo estranhamento em alguns setores da sociedade261.
As críticas se referiam ao comportamento e às roupas usadas pelas mulheres. Segundo Marcia Leite, ―o que havia era uma sistemática preocupação
259ACMS. Registro das Actas do Conselho e das Reuniões Mensaes da Pia - União das
Filhas de Maria do Educandário do Sagrado Coração de Jesus.
260ACMS. Registro das Actas do Conselho e das Reuniões Mensaes da Pia - União das
Filhas de Maria do Educandário do Sagrado Coração de Jesus.
261LEITE, Márcia Maria da Silva Barreiros. Educação, cultura e lazer das mulheres de elite em Salvador, 1890-1930. Dissertação de Mestrado. Salvador: UFBA., 1997, p.140-
com os movimentos e as atitudes do sexo feminino no ambiente até então de domínio predominantemente masculino‖262
.
Apesar das críticas do Monsenhor Ildefonso, o Educandário fez assinatura do jornal Rainha da Moda263, talvez com a intenção de acompanhar e analisar os assuntos que estavam sendo discutidos no periódico para contra argumentar com as alunas.
Na década de 1910, o número de associadas da Pia União das Filhas de Maria cresceu significativamente, chegando a 127 participantes. A saída da congregação ocorria quando as jovens se casavam, seguiam a vida religiosa ou concluíam o Curso Normal.
A maior parte das associadas devia fazer parte das camadas privilegiadas da sociedade, pois havia muitas solicitações de gastos com a congregação. Para exemplificar, citamos algumas deliberações das reuniões264: cada associada devia contribuir com uma joia nunca inferior a mil reis para o retrato de Santa Ignez; cada associada devia contribuir com uma joia para a instituição da biblioteca da Pia União; deviam ser empregados todos os esforços a fim de se obter dinheiro para o novo altar. Além disso, em quase todas as reuniões a tesoureira passava a bolsa da coleta. Apesar desses registros, encontramos Filhas de Maria que eram alunas matriculadas no Educandário por concessão do governo.
Apesar do controle da congregação sobre o comportamento das associadas, percebemos resistências e transgressões nos registros das atas de reunião. Em muitas ocasiões o diretor reclamou acerca do número reduzido de associadas que participavam das reuniões ou dos sacramentos da Igreja. Em outro registro, ele relatou o caso de uma Filha de Maria que havia aconselhado outra colega a não entrar na associação, pois não poderia mais seguir a moda e dançar. Mas a transgressão que gerou a penalidade mais severa (exclusão da associação), não foi descrita, apenas registrou-se o fato. A ousadia de discordar do modelo de mulher
262LEITE, 1997, op. cit, p.156-157.
263ACMS. Livro Receita e despeza do externato e do internato, 1902 a 1910.
264ACMS. Registro das Actas do Conselho e das Reuniões Mensaes da Pia - União das
proposto pelo catolicismo, principalmente uma Filha de Maria, que deveria ser o exemplo de pureza e recato, ameaçava o projeto da associação, por isso tal situação não deveria ser desvelada.