Esta seção está dividida da seguinte maneira: na Subseção 3.1.1, será apresentado o corpus, na Subseção 3.1.2, o perfil dos informantes e, por fim, na Subseção 3.1.3, o procedimento de coleta de dados.
3.1.1. O corpus
Foram gravadas para o experimento de produção 22 sentenças. As sentenças foram divididas em dois grupos: as exclamativas-wh,
64 Deixamos as questões 1 e 2, que são questões mais gerais desta pesquisa, para serem respondidas no Capítulo 5.
contendo 12 sentenças e as SCLs, contendo 10 sentenças. Foram gravados 6 informantes.
Cada sentença foi gravada cinco vezes para cada informante, sendo que uma rodada foi descartada65. Dessa forma, multiplicando o número de sentenças (22) pelo número de informantes (6) e de repetições (4), teríamos (22x6x4) um total de 528 sentenças para análise.
É importante salientar que os dados foram apresentados aos informantes dentro de um contexto e em ordem aleatória. Assim, houve uma ordem diferente para cada repetição e também para cada informante.
Veja em (1) e (2) as sentenças66 que fizeram parte deste experimento67.
(1) Exclamativas-wh68 a. Que alto que ele é!
b. Que inteligente esse menino! c. Que cuidadoso é o teu jardineiro! d. Que bolsa linda aquela lá! e. Como é lindo aquele homem! f. Como tá madura a laranja! g. Como é lindo o Léo e a Maria! h. Como aquela casa tá vazia! i. Quanta barata nessa casa! j. Quanto doce a Maria come! k. Quanto homem nesse lugar! l. Quanto livro que tu comprasse!
65 Para alguns informantes, a rodada descartada foi aquela que apresentou mais falhas, seja na gravação, seja na pronúncia de determinada sentença. Para as rodadas em que não houve falhas, descartamos sempre a última.
66 Os contextos das sentenças estão disponíveis no Anexo A. 67
Com exceção de (2d), de Kato (2007), e de (2f) e (2h), de Sibaldo (2009a), todos os demais exemplos foram criados pela própria autora.
68 Em experimentos futuros, pretendemos uniformizar a forma das sentenças exclamativas-wh, visto que há estruturas muito diferentes para as sentenças em (1). Nesse novo corpus, teríamos, entre as exclamativas-wh com ‘que’, quarto com ‘que+AP’ e quarto com ‘que+NP’. Além disso, haveria uniformidade em relação à presença ou ausência do complementizador, e excluiríamos sentenças como (1h), cujo predicado não precede o sujeito como nos outros casos.
(2) SCLs
a. Muito boa essa coxinha!
b. Muito cuidadoso o teu jardineiro! c. Muito bonito o anel da Maria! d. Inteligente esse menino!
e. Horroroso o namorado da Maria! f. Crua essa carne!
g. Gelada essa água!
h. Uma merda as novelas da Globo! i. Um verdadeiro idiota o teu chefe! j. Um amor esse menino!
Além das sentenças-alvo, também fizeram parte do experimento de produção sentenças distratoras69. A proporção de sentenças distratoras foi de uma sentença distratora para cada sentença-alvo.
Como houve duas seções de gravação em momentos diferentes, na primeira etapa, em que apenas as exclamativas-wh foram gravadas, havia 12 sentenças distratoras. Na segunda etapa, em que foram gravadas as SCLs, havia 10 sentenças distratoras. Em ambos os casos, foram utilizadas sentenças interrogativas-wh como distratoras.
Dessa maneira, considerando as cinco rodadas de gravação, na primeira etapa, cada informante pronunciou 110 sentenças e, na segunda etapa, 100 sentenças. Assim, há um total de 210 sentenças para cada informante.
Veja em (3) e (4) as sentenças distratoras utilizadas no experimento.70
(3) Distratoras utilizadas na 1ª etapa a. Que tipo de homem ele é? b. Que nota tu dá pra esse menino? c. Que formação tem o teu jardineiro? d. Que preço é aquela lá?
e. Como que tu conhecesse aquele homem? f. Como tu faz bolo de laranja?
g. Como se conheceram o Léo e a Maria?
69 As sentenças distratoras foram utilizadas como estímulo sonoro nos Experimentos de Percepção apresentados no Capítulo 4 desta tese.
70 Todos os arquivos sonoros estão disponíveis em um CD que acompanha a versão impressa desta tese.
h. Como aquela casa ficou vazia? i. Quantas mulheres limparam a casa? j. Quanto doce tu come?
k. Quantos homens tavam naquele lugar? l. Quantos livros que tu comprasse? (4) Distratoras utilizadas na 2ª etapa a. Que nota você dá pra esse menino? b. Que formação tem o seu jardineiro? c. Quantos livros você comprou? d. Quanto doce você come?
e. Quantos homens estavam naquele lugar? f. Quantas mulheres limparam a casa? g. Como você conheceu aquele homem? h. Como se conheceram o Léo e a Maria? i. Como aquela casa ficou vazia?
j. Como você faz bolo de laranja?
3.1.2. O perfil dos informantes
Para esta pesquisa, fizemos a avaliação de uma amostra de nossa população-alvo, ou seja, de “[...] um conjunto mais restrito de indivíduos pertencente à população-alvo que será estudado na investigação.” (MARTINS, 2011, p. 15-16). No nosso caso, a população-alvo são sujeitos naturais de Florianópolis. A amostra é então constituída de uma pequena percentagem desses sujeitos. Na amostra são todos do sexo feminino, estudantes de Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina (há, desde estudantes de graduação até estudantes de doutorado), e tem entre 20 e 30 anos de idade.
O total de informantes gravados foi de 6 mulheres. Entre essas mulheres, uma é natural de Florianópolis (SC), mas viveu 17 anos em Brusque (SC), e voltou a residir em Florianópolis, onde vive há mais de 16 anos. As demais são naturais de Florianópolis e sempre residiram na cidade natal, mas três delas convivem ou conviveram com pais e/ou
cônjuges de outras localidades brasileiras, como Garopaba (SC), Rio de Janeiro (RJ), Braço do Norte (SC) e Curitiba (PR).71
Por se tratar de um grupo homogêneo de informantes, não levamos em consideração, na primeira etapa de análise dos dados de frequência fundamental, diferenças individuais. Porém, na segunda etapa, os dados serão analisados somente depois de normalizados em Semitons.
3.1.3. Procedimento de coleta de dados
A gravação foi realizada em uma cabine com tratamento acústico no Laboratório de Fonética Aplicada (FONAPLI), localizado no Centro de Comunicação e Expressão da Universidade Federal de Santa Catarina.
Para a coleta das sentenças, utilizamos o computador MAC OS X, versão 10.6.8 e a interface de áudio MOTU UltraLite-mk3 acompanhada pelo software CueMix FX, versão 1.6 e o software Ocenaudio, Versão 2 rc1. O microfone utilizado foi unidirecional Shure SM48, que opera na faixa de 55 a 14.000 Hz. A taxa de amostragem do sinal para a gravação foi de 44.100 Hz por 16 bit.
Nosso trabalho parte da análise de dados de fala de laboratório, ou seja, fala controlada. Segundo Xu (2010), em uma definição ampla, a fala de laboratório se refere à fala gravada em laboratório, geralmente seguindo contextos pré-estabelecidos para serem lidos em voz alta, diferentemente da fala espontânea, na qual não há um contexto pré- estabelecido.72
Ainda sobre a fala de laboratório, Xu (2010) nos alerta que a visão generalizada que se tem sobre a coleta de dados é que apenas com dados de fala espontânea poderíamos entender a fala do dia-a-dia, pois a fala de laboratório seria artificial, uniformemente lenta, mais planejada, monótona e com a prosódia empobrecida e desprovida de funções comunicativas, interações e emoções. Porém, esses mitos, que são desconstruídos um a um pelo autor, geralmente aparecem quando a
71Todas as informantes responderam a um questionário, que está disponível, com as respostas de cada uma delas, no Anexo B desta tese.
72
Entretanto, Xu (2010) defende que muitas vezes a linha que divide a fala espontânea da fala de laboratório pode não ser tão clara, pois mesmo na fala não controlada certos níveis de controle são necessários, como nos monólogos orientados. E considera ainda que, dependendo da pesquisa, a fala espontânea não seria um registro melhor do que a fala de laboratório.
proposta de estudo não é adequada e/ou quando há crueza no design experimental, mas, segundo Xu (2010), essas características nunca aparecem na fala de laboratório em geral.
Xu (2010) ainda apresenta diversas vantagens do uso da fala de laboratório. Entre essas vantagens, temos que a fala de laboratório, ao contrário da fala espontânea, nos permite controlar totalmente os fatores que contribuem para o fenômeno que estamos estudando.
Além disso, quando estudamos um fenômeno prosódico, como o foco, por exemplo, encontrar pares mínimos de sentenças em que o foco está presente ou ausente em fala espontânea é praticamente impossível, mas, se o experimento for controlado, não há dificuldade alguma em obter tais pares.
A coleta de dados baseou-se em leitura dirigida, ou seja, cada sentença foi apresentada à informante inserida em um contexto que supostamente favorecia a interpretação relevante para os propósitos desta pesquisa; e a informante deveria ler apenas a sentença-alvo. Seara e Figueiredo Silva (2007) argumentam que essa metodologia favorece a coleta de dados de fala menos controlada, apesar de lida, pois busca a espontaneidade por meio de contextos em que as sentenças-alvo estão inseridas, os quais devem propiciar uma boa interpretação da situação.
Para a apresentação dos dados aos informantes, foram utilizados slides do Power Point. Cada uma das sentenças deste experimento foi inserida em um contexto discursivo diferente73. Veja em (5) um exemplo.
(5)
Você está sentada em uma mesa na praça de alimentação de um shopping com uma amiga. Imagine que você está há muitas horas sem comer e que deu a primeira mordida em uma coxinha maravilhosa. Nesse contexto, você comenta com sua amiga:
- Muito boa essa coxinha!
Os dados foram apresentados de forma aleatória para cada repetição e para cada informante. Os informantes, antes de iniciarem a gravação, foram orientados a segurar o microfone sempre na mesma distância. Além disso, a própria pesquisadora explicou que o contexto deveria ser lido silenciosamente e que a sentença destacada em negrito deveria ser pronunciada em voz alta tão naturalmente quanto possível. O
73
informante foi orientado a, caso desejasse fazer uma pausa, avisar ao final de uma rodada de gravação (antes de começar cada rodada, havia um slide informando ao sujeito em que ponto ele estava). Antes, porém, de o informante iniciar o experimento, uma tela com instruções foi apresentada. As seguintes instruções estavam presentes:
Você deve observar as seguintes instruções neste experimento: 1. Cada slide apresenta uma história que deve ser lida em
silêncio. Ao final da história estará a sentença que deverá ser elocucionada por você.
2. Procure se colocar o mais dentro possível do contexto da história porque isso é o que garante a espontaneidade da sua produção!
Durante a gravação, o informante permaneceu sozinho no interior da cabine acústica, e a pesquisadora, com um fone de ouvido, que permitia a comunicação com o ouvinte que estava dentro da cabine, ficou do lado de fora. O informante, caso tivesse alguma dúvida ou necessidade durante a gravação, foi orientado a perguntar à pesquisadora sem sair do interior da cabine.
Ao final da gravação, o informante assinou o termo de consentimento livre e esclarecido, disponível para consulta no Anexo D deste trabalho, e respondeu ao questionário disponível no Anexo B. O questionário foi elaborado conforme o indicado por Llisteri Boix (1991), pois assim poderemos ter acesso a dados como naturalidade, tempo de residência nesse local, se o informante residiu em outros lugares e por quanto tempo, grau de escolaridade, profissão etc. Esses dados são importantes, pois, caso necessário, será possível controlar variáveis extralinguísticas que possam afetar a entoação.
As gravações ocorreram em dois momentos diferentes. A primeira etapa, que consistiu na gravação das Exclamativas-wh, ocorreu entre 9 de agosto de 2013 e 6 de junho de 2014, e a segunda etapa, que foi a gravação das SCLs, ocorreu entre 29 de julho de 2014 e 18 de setembro de 2014.