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Un changement de corps, d’accord ?

Na manhã de natal após a mutilação do irmão, Theo chega à estação de Arles. Às pressas segue em direção ao local em que se encontra Van Gogh. Se depara com uma construção maciça e imponente, o hospital era conhecido pelo nome de ‘Casa de Deus’. “Construído nos séculos XVI e XVII, quando qualquer doença era uma coisa mortal ou demoníaca, o hospital parecia uma prisão, de muros altos de pedra, com janelas bem pequenas e poucas vias de entrada” (NAIFEH; SMITH: 2012, 822).

A permanência do irmão será marcada por poucas horas, à noite mesmo Theo pega o trem e retorna a Paris. Van Gogh está só novamente. Os dias foram marcados por retomadas de consciência e recaídas, a crise oscilava entre a realidade e o devaneio, entre a enfermaria e a solitária. “O hospício de Saint Rémy se fecha sobre ele. Um jardim cercado de muros. Um silêncio inabitual. Uma calma agoniante. Uma natureza onde tudo torna-se presságio”79. [narrador, tradução nossa].

79 L'hospice de Saint Rémy se referme sur lui. Un jardin entouré de murs. Un silence inhabituel. Un calme

angoissant. Une nature où tout devient presage.

Figura 218: fotograma – autorretrato com orelha enfaixada (1889).

Figura 219: fotograma – Arvores no jardim do Hospital Saint Paul, Saint-Rémy (1889).

Figura 217: fotograma – o quarto

de Van Gogh (1888).

157 Quando retomava a lucidez saía da solitária “um aposento minúsculo com paredes acolchoadas, janelas com grades e uma cama equipada por correntes” (NAIFEH; SMITH: 2012, 822). São permitidos a ele passeios ao jardim, que resultaram em várias telas, não só dos arvoredos e fontes que compunham o jardim do hospital, mas também de retratos dos internos, dos corredores e salas do hospital.

No documentário Resnais utiliza telas pintadas no hospital de Arles juntamente com pinturas executadas em Saint-Rémy, são momentos diferentes nas internações de Van Gogh: o hospital de Arles recebeu o pintor em seus primeiros surtos, o asilo de Saint- Paul foi uma opção conjunta de Van Gogh, Theo e de alguns médicos. Renais ‘passa’ pela crise como um único bloco no curta-metragem, tem essa liberdade porque é uma representação biográfica artística da vida e obra do pintor. E ainda, segundo nossas hipóteses de tradução poética, essa liberdade é facilitada pelas propriedades sincrônicas da transcriação.

A rotina de idas e vindas da enfermaria, da solitária e dos jardins, foi constante, no oscilante e imprevisível estado psíquico do paciente. Nos cinco meses de enclausuramento Van Gogh era tomados por fortes surtos, delirava misturando memória do passado com o seu presente, se camuflava embaixo dos lençóis e gritava incessantemente palavras incompreendidas, a crise ‘obedecia’ a um movimento cíclico. Dr. Rey, que de início acreditou que o pintor sofria de uma superexcitação, conclui agora que o paciente deveria ser conduzido a um manicômio. “No auge dos ataques, eles tinham emitido um atestado de alienação mental, declarando que Vincent sofria de um delírio generalizado e determinando a necessidade de cuidados especiais” (NAIFEH; SMITH: 2012, 826).

Figura 220: fotograma, Arvores no jardim do Hospital Saint Paul, Saint-Rémy (1889).

Figura 221: fotograma, Fonte no jardim do hospital de Saint-Rémy (1889).

Figura 222: Dormitório do hospital, Arles (1889).

158 Em uma das altas hospitalares retorna à casa amarela onde buscou reencontrar no trabalho uma nova rotina e recuperação, mas a âncora que lançou em busca de uma aparente tranquilidade, não encontrou uma superfície resistente, pois em aguas profundas e efervescentes a calmaria está apenas na superfície. E uma nova tormenta chegou, e ele regressa para as paredes almofadadas da ‘Casa de Deus’.

Dessa vez, foi uma partida sem regresso, pois Van Gogh entrara em uma internação mais severa, ‘o louco ruivo’ – apelido dado pelas prostitutas de Arles, segue para o hospício de Saint-Rémy. Por escolha e decisão própria, em busca de local onde poderia estar em ‘paz’, “na reclusão tranquila do hospício, sem polícia, credores, senhorios, meninada de rua e vizinhos desconfiados a perturbá-lo, Vincent encontrou a serenidade com a qual sempre sonhara” (NAIFEH; SMITH: 2012, 870).

Em Saint-Rémy, mesmo recluso gozava de certas liberdades, tinha seu alimento garantido, sua dose de álcool diária (obviamente controlada), banhos terapêuticos elogiados pelo próprio Van Gogh. Usufruía de leituras e ainda fumava seu cachimbo. É claro que em se tratando de um hospício havia casos de pacientes surtados, mas a visão do ambiente feita pelo pintor era otimista; mesmo calado e introvertido, parecia ter encontrado companheirismo por parte dos outros internos. “Pois, embora existam alguns que uivam ou tresvariam muito mesmo, observou ele, há muita amizade verdadeira” (VAN GOGH apud NAIFEH; SMITH: 2012,872).

Nas correspondências a Theo desse período é perceptível uma aceitação por parte de Van Gogh, a loucura já não lhe causava tantos medos, estava mais consciente da sua doença. Dr. Rey escreveu à casa de internação que o pintor sofria de uma espécie de epilepsia, não a doença como conhecemos de tremores e desmaios, mas uma epilepsia mental “um colapso de pensamento, da percepção, da razão e da emoção que se manifestava inteiramente no cérebro e muitas vezes desencadeava um comportamento estranho e dramático” (NAIFEH; SMITH: 2012, 872).

Por algum tempo Van Gogh manteve-se lúcido, as crises haviam se acalmado, depois de tantas recaídas tinha, segundo ele, desenvolvido a capacidade de sentir as tormentas emocionais se aproximando. Apesar de ciente do seu estado emocional delicado, sempre ficava apreensivo sobre a chegada inesperada de um ataque, estava exausto. “A cada vez, esperava que fosse a última, [um ataque mais violento], receava

159 ele, [poderia destruir definitivamente minha capacidade de pintar]” (VAN GOGH apud NAIFEH; SMITH: 2012, 898).

O ´silêncio’, como era de se esperar, durou pouco, e violentamente chegará a aflição, “os ataques se tornavam mais intensos e mais prolongados; o intervalo entre eles, menor; seu comportamento mais grotesco e violento” (NAIFEH; SMITH: 2012, 898) e, em um dos passeios para pintar, foi possuído por uma forte crise. Alguns diziam que os campos e a pintura desenfreavam drasticamente os acessos de desiquilíbrio emocional, “as emoções que me tomam diante da natureza podem ser tão intensas que perco a consciência” (VAN GOGH apud NAIFEH; SMITH: 2012, 896).

Era comum falar da solidão imensa que sentia antes de cada crise. Sendo tomado por uma tontura e em seguida a inconsciência. “Os acessos de alucinações pavorosas eram seguidos de desmaios, vertigens (‘nesses momentos, não sei onde estou’) e perda de consciência. A cada vez, ele despertava num oceano de amnésia e angústia” (NAIFEH; SMITH: 2012, 898), porém, como ‘de rotina’, a escuridão se esvai, e o pintor ‘reconquista sua liberdade’, e novamente migra para onde será a sua última residência – Auvers-sur- Oise. Van Gogh lança sua âncora em terreno esperançoso, sem saber por quanto tempo ela irá conter o peregrino – geográfico e sentimental.

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