Figura 1 - Diagrama atividades de leitura
Fonte: autor
Sejam atividades de pré-leitura, leitura ou pós-leitura, tais dimensões devem ser levadas em consideração para que o estudante saia de uma possível condição de exterioridade e venha a compreender que a Literatura dirige-se para ele. Superando, assim, os muros que o separam das práticas de leitura na escola.
Nessa direção, com o uso do estímulo emocional competente, a pré-leitura pode significar o êxito nas atividades que devem ir em direção da construção não só de um leitor competente, capaz de compreender a obra, mas de um leitor ativo. Agente em seu processo de leitura, livre para recriar/criar a obra, que deixa de ser parte de um patrimônio cultural frio e distante dele e passa a integrar sua subjetividade.
Para finalizar, é preciso tratar aqui do conceito de clássico que não é um ponto pacífico. Suas inúmeras concepções foram debatidas largamente, desde um modelo, passando por uma oposição radical ao atual até a pretensa universalidade da obra de arte. Compagnon reflete sobre uma definição que tende a dar aos clássicos ares de perfeição:
o clássico transcende todos os paradoxos e todas as tensões: entre o individual e o universal, entre a tradição e a originalidade entre a forma e o conteúdo. Essa apologia ao clássico é perfeita, perfeita demais para que suas costuras com o tempo não cedam com o uso (2003, p. 235)
Com efeito, esse entendimento não leva em consideração as peculiaridades históricas, as concepções teóricas e a relação com o público. Apesar das limitações desse conceito, os
clássicos, para o autor, têm espaço reservado em nossa sociedade como patrimônio cultural, vistos como uma tradição “cujo sentido é preciso compreender. [...] é preciso manter” (Compagnon, 2003, p. 239). Entretanto, tais concepções ainda não dão conta de conceituar o que é clássico.
Por sua vez, Ítalo Calvino reflete sobre o que seria um clássico, a partir da observação da cultura de suas experiências com leitura, chega a estabelecer quatorze conceitos, dos quais alguns são particularmente interessantes para o professor/mediador que deseja levar tais textos para a sala de aula. O primeiro analisado aqui será: “os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual” (CALVINO, 2007, p. 10). Ao deixar tais marcas inesquecíveis num leitor e num público, a obra se inscreve na cultura de tal forma que nomes, frases, personagens e até lugares contidos na obra passam a circular entre os membros de determinados grupos sociais e muitas vezes até entre analfabetos. Tal influência é tão forte que há pessoas que chegam a duvidar de que aquele elemento não é realidade, “será que isso é de um livro mesmo?”Ao ouvir o nome Capitu, no Brasil, há uma pergunta que circula: “será que ela traiu?”, mesmo sem ler “Dom Casmurro” de Machado de Assis, a heroína da dúvida ocupa um espaço importante no nosso inconsciente coletivo. Tal afirmação corrobora com o próximo conceito.
“Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura” (CALVINO, 2007, p. 11). Obras como “Dom Casmurro” circulam pelas ideias de nossa cultura tão fortemente que é praticamente impossível que outros autores dos mais variados gêneros literários ou cinematográficos não tenham sofrido alguma influência; ou mesmo, a própria obra tenha sofrido diversas adaptações. Apesar disso, não se pode afirmar que os clássicos atendem às expectativas de todos, o que nos leva ao próximo conceito.
“Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente a repele para longe” (CALVINO, 2007, p. 12). Distante das águas tranquilas do consenso, um clássico transborda de polissemias e singularidades. Diferentes críticos, em diferentes épocas, sugerem um ponto final para o entendimento da obra, mas são calados pelas águas caudalosas da inventividade que abrem afluentes para as mais diversas direções. Como ler “Água-viva” de Clarice Lispector? Qual o gênero da obra? Romance? Poema em prosa? Ensaio? Monólogo? Se há uma resposta para essas perguntas, com certeza, não está nas mãos dos críticos, mas nas dos leitores que navegam por essas águas. Esse peculiar encontro com o sujeito leitor é tema do próximo conceito.
“Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos” (CALVINO, 2007. p. 12). É um choque de singularidades: um livro invulgar contra uma subjetividade única; os destroços dessa colisão são chamados de ineditismo. Não há comentário anterior ou posterior a leitura que substitua a experiência estética que, por assim dizer, não se esgota. O que nos leva a concluir…
“Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer” (CALVINO, 2007, p. 11). Como nós nunca cessamos o humano em nós, os clássicos nunca cessam os reflexos do humano em seus jogos de espelhos. Em “Grande Sertão: veredas” de Guimarães Rosa, a cada nova leitura uma nova vereda é percorrida, onde um novo reflexo do humano se distingue; Riobaldo parece nos conduzir a espelhos diferentes em cada encontro.
O que daria aos clássicos esse poder de fluidez e permanência ao mesmo tempo? Para Jouve, as obras tidas como exemplares de grande literariedade, ou como dito acima clássicas, são uma articulada confluência entre forma e conteúdo: “Podemos, então, afirmar que toda obra considerada hoje como literária foi, em dado momento, acolhida como esteticamente bem sucedida” (2012, p. 47). A escrita encanta a cognição, cristaliza a obra como exemplo único de execução da língua, enquanto o conteúdo lança luz sobre nossa condição social e pessoal, “Toda vez que uma obra aborda uma das grandes questões com as quais somos confrontados, adquire um alcance geral que explica a persistência do interesse que dispensa a ela” (2012, p. 124). Esse alcance e essa persistência podem ser a ampliação para os conceitos de clássico trazidos aqui.
Fazer com que os estudantes encontrem seus próprios clássicos, construam seus próprios conceitos sobre as obras lidas, sejam expostos a estímulos emocionais competentes, passando pelo retorno a si compõem uma equação para a formação do sujeito leitor.