Com vozes críticas advindas dos opositores, os arquitetos modernos já estavam bastante familiarizados, o que faz parte da rotina de um movimento combativo ao atentar contra a ordem firmada. O problema é quando estas mesmas vozes críticas começam a surgir dentre seus próprios simpatizantes. O Siedlung Dammerstock (1928-1929) em Karlsruhe se constituiu em um dos principais deflagradores de críticas dentro do Movimento Moderno. Com planejamento de Walter Gropius – que havia deixado há pouco tempo a direção da Bauhaus – e
Fig. 11 – Alfred Fischer. Hans-Schachs-haus. Gelsenkirchen. 1924-1927.
Otto Haesler, Dammerstock se traduz em um esquema rigoroso de habitações em linhas paralelas entre si, dispostas na direção norte-sul, com parte noturna voltada a leste e diurna a oeste. Também aqui alguns itens foram prescritos para os arquitetos que assumiram os projetos: coberturas planas, formato das janelas, e a utilização de reboco liso nas fachadas.
Dammerstock foi calorosamente discutido junto à imprensa na época de sua construção. E suscitou inúmeras controvérsias, como as que levanta Adolf Behne, um dos principais teóricos alemães acerca da Neues Bauen, que denominou a demasiada rigidez do conjunto e das habitações, onde tudo parece ser prescrito, de Wohndiät (Dieta da moradia), na qual o “homem acaba [...] se tornando um conceito, um personagem.”26 E diz, ironicamente: “o homem deve, ao menos
junto aos arquitetos sensatos, a leste ir para a cama, a oeste comer e responder as cartas da mãe, e a moradia é assim tão organizada, que ele não pode fazer absolutamente nada diferente.”27
O princípio da igualdade a todo custo, o que a construção em fita se propõe – mesma distância entre os edifícios, de modo que a todos os moradores correspondam frações iguais de ar, luz, vegetação, enfim, o princípio da democracia expresso na construção – estava “se tornando um dogma, um formalismo que se alastra sob a máscara da ciência.”28 E
sua crítica vai ao encontro do que já contestavam os Junger Architekten: “O arquiteto é hoje, mais higienista do que o Higienista, mais sociólogo, que o Sociólogo, mais estatístico que o Estatístico e mais biólogo que o Biólogo. Ele esquece frequentemente, porém, que higiene, estatística, biologia e sociologia somente tem valor, quando eles não devoram o espaço de morar...”29
O exaltado mundo da técnica e da racionalidade, que se espelhava na máquina, em aviões
Fig. 13 – Walter Gropius, Otto Haesler (Planejamento). Siedlung Dammerstock. Karlsruhe. 1928-1929.
Fig. 14 – Walter Gropius, Otto Haesler (Planejamento). Siedlung Dammerstock. Karlsruhe. 1928-1929.
e em automóveis, parecia estar perdendo sua força motivadora e o espírito revolucionário para entrar em outro – de amarras. Como ressalta Pehnt, o que críticos como Adolf Behne e também Alexander Schwab temiam, era a prematura estagnação da Arquitetura Moderna em dogmas: “Aqui é provavelmente o ponto, a partir do qual se deve explicar a resistência de outros setores, agora também da massa trabalhadora contra a Arquitetura Moderna. [...] Resistência [...] surge a partir de um desejo inconsciente por uma racionalidade completa, que conheça, reconheça e satisfaça também as necessidades sociais e espirituais.”30
Também Mies van der Rohe, através de sua proposta para a Deutsche Bauausstellung de 1931, manifestava a cristalização de alguns ideais que se mostravam inaceitáveis para o momento. Nesta exposição, em que o foco era a construção e organização de pequenas habitações, Mies propõe uma casa com pátio – uma aproximação conceitual e estética ao seu projeto para a Exposição Mundial de Barcelona de dois anos antes –, um modelo luxuoso que claramente se afastava do proposto, e com o agravante da crise econômica que fazia cada vez mais drásticas consequências no país. Aos protestos da direita conservadora, que já eram fartos neste período, juntavam-se agora os de arquitetos de esquerda, que se organizam na exposição
Proletarische Bauausstellung, que teve lugar em Berlim no mesmo ano.
Mas se questionamentos acerca dos ideais sociais da nova arquitetura sempre estiveram presentes, começam a surgir também questionamentos de origem mais prática, quando os custos das experiências construtivas começaram a aparecer. Principalmente no campo de construção de habitação, os arquitetos modernos estavam sempre dispostos a testarem novos materiais e técnicas construtivas ainda não avaliadas, desde que custos de construção fossem reduzidos.
Tal postura foi politicamente legitimada, quando, em junho de 1927 entra em vigor uma lei que sustentava financeiramente conjuntos habitacionais experimentais, com vistas à sua melhoria e redução de custos. Algumas semanas mais tarde, seria formada a “Sociedade de Pesquisa pela Economia na Construção Civil e Habitação”, a RfG,31 que iria então sustentar empreendimentos de “alto risco”.
Entre eles, o próprio Dammerstock, Dessau-Törten, e Weissenhof, mas também inúmeros projetos que não contavam entre os vanguardistas.
Coberturas planas mal construídas e de pouca espessura, problemas com o aquecimento devido às grandes superfícies envidraçadas e uso de vidro simples, isolamento escasso e juntas de dilatação esquecidas, figuravam entre os problemas mais recorrentes. Mas foram os adversários da nova arquitetura que se aproveitavam dessas situações mal sucedidas, e se dedicavam a registrar com afinco cada problema encontrado. Em 1931 foi lançado a Brochura “Pecados Construtivos e Desperdício de Dinheiro na Construção” de Curt R. Vincents, distribuído gratuitamente a
escritórios, repartições públicas, construtoras e arquitetos, até para a Suíça, e que chegou à nona edição.32 Também a crítica nazista iria basear-se largamente
nestes fatos, e iria procurar moldar a visão das novas gerações sobre a Arquitetura Moderna apoiando-se, sobretudo, nestas questões.33
Nenhum outro item da Neues Bauen foi tão controverso e discutido como a cobertura plana. Em inúmeras publicações da época discutia-se suas vantagens e desvantagens econômicas, construtivas, funcionais. Muthesius parece apreender o real motivo das discussões: “todas estas coisas não tem nada a ver com racionalização, nem com economia, tampouco com necessidade construtiva. Trata-se apenas de problemas formais”,34 referindo-se ao Weissenhofsiedlung,
que para ele, era exemplo de como a nova forma soava “tirana” sobre seus representantes. Sua colocação é importante também na medida em que deixa claro que críticas não provinham apenas daqueles que viam ali o aviltamento de toda cultura e tradição da habitação, mas de um entusiasta defensor da estandardização e normatização dos produtos industriais.