• Aucun résultat trouvé

Mesmo após este aumento do aparelho repressor, a ALN planejou e executou uma operação de propaganda de suas ações. No dia 15 de agosto de 1969, ela transmitiu um manifesto pelas ondas de rádio.

183 Idem. 184 Idem.

Para transmitir este discurso eles utilizaram a Rádio Nacional, na época, uma filiada da rede Globo. Marighella redigiu o manifesto que foi lido pelo militante da ALN e estudante da Universidade de São Paulo (USP), Gilberto Belloque.185 A ideia partiu do militante da

ALN José Wilson Sabbag. Ele providenciou um estúdio profissional de gravação de jingles publicitários, propriedade de um técnico de som simpatizante da ALN (MELITO, 2014).

O texto esclarecia a população da não responsabilidade das organizações armadas nos incêndios das redes Globo; Record e Bandeirantes;186 listava as prioridades da ALN –

derrubar o governo; anular os atos pós 64; formar um governo do povo; expulsar os americanos e expropriar seus bens; expropriar os latifundiários; melhorar as condições de vida dos operários, camponeses e classe média e denunciar o assassinato de militantes da ALN pelo governo militar (MELITO, 2014).

A ação teve a participação de doze militantes, eles utilizaram dois carros. Não ocuparam o estúdio da rádio, localizado na região central da capital paulista, mas seus transmissores localizados há 27 quilômetros de distância, em São Bernardo. Esta foi a grande estratégia da ação, porque assim que começou a transmissão187 a polícia partiu para

o estúdio e não encontrou ninguém.

Desta forma, os militantes que estavam nos transmissores tiveram tempo suficiente para fugir. E até que a rádio conseguisse derrubar seu sinal, o pronunciamento já era transmitido pela terceira vez no raio de alcance de cerca de 600 km (MAGALHÃES, 2012).

Mas a mensagem não ficou restrita aos ouvintes da Rádio Nacional. Joaquim Câmara Ferreira conversou com o jornalista Hermínio Sacchetta, seu antigo companheiro de PCB que ocupava a direção de redação do Diário da Noite e editava o jornal clandestino “Bandeira Vermelha”. Câmera Ferreira solicitou a publicação na íntegra do texto de Marighella, Saccheta atendeu às solicitações, apesar de discordar do projeto de luta armada (MELITO, 2014).

185 Gilberto Belloque foi preso em março de 1970 e ficou seis anos na cadeia.

186 Em 13 de julho de 1969 ocorreram os incêndios na Record e Globo, e no dia 16 de julho de 1969 na Bandeirantes. O governador de São Paulo, Abreu Sodré responsabilizou, as organizações armadas pelo desastre. 187 A central Globo de jornalismo comunicou ao DOPS-SP o ocorrido.

Após esta ação, Sacchetta foi detido por quinze dias, em seguida foi demitido do Diário da Noite e passou cerca de cinco anos sem conseguir emprego nos meios de comunicação (MAGALHÃES, 2012).

Dezoito dias depois da ação na Rádio Nacional, Sabbag foi morto188 por integrantes

do DOPS-SP, após comprar outro gravador. Segundo Paulo de Tarso Venceslau, “Sabbag tinha voltado na mesma loja, que havia comprado o gravador utilizado na ação da rádio Nacional, e o vendedor avisou a polícia”.189

Este novo gravador seria usado na produção de manifestos da ALN. Marighella desde abril de 1969 vinha trabalhando nestas fitas,190 o plano era divulgá-las em praça

pública nos subúrbios das grandes cidades, mas este projeto nunca foi realizado (MELITO, 2014).

Este episódio da Rádio Nacional evidencia que apesar do aumento do aparelho repressor e das constantes mortes de integrantes da ALN, como o líder do GTA-SP, Marco Antônio Braz, a organização ainda continuava com a tática de desafiar a ditadura militar.

A gravação do manifesto foi realizada por um técnico de som simpatizante da ALN. Nas nossas pesquisas constatamos que apesar da ALN ter um pequeno quantitativo de militantes disposto e/ou em condições de participar da luta armada, havia um contingente de pessoas que apesar de pequeno, em relação ao resto da população, davam algum tipo de suporte logístico a ALN.

Por outro lado, o fato do Diário da Noite ter conseguido publicar o manifesto da ALN desvenda a existência, naquele momento, de uma fratura no sistema de censura do governo militar. Durante a ditadura, com a imprensa censurada, conseguir burlar esta censura foi um feito da ALN.

Chama atenção também a ação do militante do PCB, editor do jornal, que mesmo sendo contrário ao programa da ALN decidiu divulgar um manifesto da organização, mesmo sabendo que posteriormente seria severamente punido. Desta forma deveria ainda

188 Segundo o relatório da Comissão da Verdade/São Paulo, Sabbag foi executado por integrantes do DOPS em 03 de setembro de 1969.

189 Paulo de Tarso Venceslau em entrevista concedida ao pesquisador Paulo Marcelo Mello. São Paulo, SP, 3 de agosto de 2019.

190 Em abril de 1969, Marighella começara a gravar com a filha de Zilda Xavier, sua companheira, uma série de fitas intituladas Rádio Libertadora.

existir alguns laços entre a ALN e integrantes do PCB, mesmo após a brusca saída de alguns integrantes no episódio da formação da ALN.

Por último, o fato de o jornalista ter ficado cinco anos sem conseguir emprego nos principais jornais do Brasil é um bom exemplo de que a ditadura militar teve um apoio considerável de grande parte dos meios de comunicação.

Contudo, apesar do discurso e comportamento do líder da ALN, o cenário nacional, no ano de 1969, era de intensa perseguição aos integrantes das esquerdas revolucionárias por parte da ditadura militar, pois

A rede de informações que permitiria aos órgãos de repressão chegar aos núcleos das principais organizações clandestinas, a exemplo da ALN, vai se compondo com rapidez e eficiência. Essas organizações se veem cada vez mais encurraladas no espaço que vai se estreitando (NOVA; NÓVOA, 1999, p. 143).

Nessa esteira, Roio apresenta um relato das torturas aplicadas pelo DOPS-SP ao militante da ALN, Ricardo Zaranttini, o qual afirmou que viajaram

[…] com destino a Tutóia191. Quando entrou, foi encapuzado, e assim ficaria

a maior parte do tempo, sem poder ver aquela manada de covardes que se divertiram em tortura a seres humanos imobilizados. As sessões de torturas demoram cerca de 20 horas por dia, com equipes que se revezam. Novamente pau-de-arara, choques generalizados, pancadas, queimaduras e horas sobre latinhas que penetram na carne dos pés nus (ROIO, 2006, p. 102).