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Château Quintus

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Nesta subseção, abordam-se operações de conceptualização atinentes à formação de palavras complexas e à construção dos seus significados. Serão bases para essas reflexões os trabalhos de Salomão (2009), Carmo (2009), Botelho (2009), Castro da Silva (2012), Lopes (2016) e Simões Neto (2016). Serão abordadas quatro operações: ajuste focal/focalização, metáfora, metonímia e compressão. Ao longo desta seção, as três primeiras operações já foram abordadas, mas sem aplicações à morfologia lexical. Isso será feito agora, acrescentando-se a operação de compressão como um mecanismo produtivo de conceptualização.

3.3.2.1 Focalização/ajuste focal

A focalização aparece no trabalho de Langacker (1987, 2013) e é trabalhada por Castro da Silva (2012), com o nome de ajuste focal. Como já dito anteriormente, o ajuste focal diz respeito à capacidade de o falante/conceptualizador selecionar elementos específicos de uma cena para compreendê-la como um todo. Para mostrar como esse fenômeno aplica-se à formação de palavras, o autor utiliza um exemplo também visto em Salomão (2009): o par carcereiro e prisioneiro.

Observa o autor que, embora essas palavras sejam construídas com um mesmo formativo, a partir de bases potencialmente sinonímicas (cárcere e prisão), os significados delas apontam para referentes completamente opostos dentro de uma mesma cena. Isso, além de reforçar a hipótese de uma composicionalidade fraca na interpretação do significado, mostra que uma mesma cena pode ser perfilada de maneiras diferentes. Em prisioneiro, o foco está em

quem está dentro do lugar, ao passo que, em carcereiro, o foco está em quem está fora. Isso soa, em certa medida, óbvio, mas é um contraste semântico recorrente e um mecanismo de produção bastante produtivo.

Simões Neto (2016) contrastou as palavras latinas aquārĭus e utrārĭus, ambas utilizadas para designar o aguadeiro, pessoa responsável por transportar a água:

[e]m aquārĭus, a base é aqua (água) e, em utrārĭus, tem-se uter (odre: recipiente feito de pele de animal para transportar líquidos), como base. Note-se que, em uma formação, toma-se o líquido transportado como base, ao passo que a outra toma o recipiente, daí o ajuste focal é compreendido por uma metonímia CONTINENTE/CONTEÚDO, em que aquārĭus parte do conteúdo, e utrārĭus, do continente (SIMÕES NETO, 2016, p. 203).

Em uma situação analogamente inversa, há bases que remetem a elementos diferentes de uma mesma cena e que são utilizadas para formar, por meio de um mesmo esquema, palavras distintas que se referem a um mesmo referente.

3.3.2.2 Metáfora

A metáfora, simploriamente definida como um mecanismo de compreensão em que tomamos um conceito em termos do outro, é também produtiva na extensão de significado no léxico. Para tratar dessa operação, Castro da Silva (2012) valeu-se dos trabalhos de Batoréo e Casadinho (2009), sobre os vários usos do verbo botar, e do de Álvaro (2009), sobre a polissemia da preposição até. O autor reconhece a metáfora como um dos mecanismos mais producentes no estabelecimento de uma rede polissêmica.

Por meio do trabalho de Batoréo e Casadinho (2009), o autor menciona construções como ‘botar discurso’ e ‘botar a alma para fora’, que sugerem que os significados estendidos de botar – com o sentido mais físico de colocar – são decorrentes de metaforização.

No que toca ao trabalho de Álvaro (2009), em que se veem as construções “Eliana viaja

até Juiz de Fora, sempre”; “Seu pai volta até domingo”; “Edu ganha até R$ 3.000,00 nesses

trabalhos”; e “Até juízes reconhecem que a demora é o principal fator de impunidade”, Castro da Silva (2012) menciona que a autora sugeriu que essas construções relacionam-se metaforicamente por meio dos domínios de espaço, tempo, quantidade e qualidade.

Simões Neto (2016) utilizou os exemplos do português arcaico dereitoreira e torticeyros como formações que parecem acionar metáforas orientacionais e experiências corpóreas. Em dereitoreira, aparece a compreensão do lado direito como algo correto.Sobre isso:

Helena de Oliveira (1987) explica a história dessa concepção, partindo de uma das teorias mais difundidas e aceitas: a ideia de que os primeiros habitantes do Hemisfério Norte eram adoradores do Sol, que, lá, parece se mover em sentido horário, para a direita. Na sequência, a autora, menciona os budistas, que seguem sempre à direita, ao saírem para meditar. Para os muçulmanos, Deus tem duas mãos direitas. No Antigo Testamento bíblico, conta-se que Eva se originou da costela esquerda de Adão, o que gerou o entendimento cristão do lado esquerdo como o lado do pecado. Na Idade Média, a mão esquerda é concebida como a mão da sujeira. Enfim, muitas são as vias interpretativas para explicar a concepção do lado direito como o lado correto, e uma dessas deve ter sido comprimida na formação de dereitoreira. (SIMÕES NETO, 2016, p. 211).

Essas conceptualizações orientacionais figuraram também em torticeyros, que designava algo incorreto, injusto. Aparentemente, partiu-se da experiência de que a postura torta foge do normal/ideal e deve ser evitada.

Em trabalho sobre compostos encabeçados por síndrome e complexo no português brasileiro contemporâneo, Simões Neto (2018) analisou a construção síndrome de cirurgião, extraída do contexto “Gente assim deve ter ‘síndrome de cirurgião’: quer meter a mão nas partes internas interiores dos recônditos + profundos da condição humana” (TWITTER, 2018).

Nesse contexto, os falantes discutiam sobre a prática sexual fist-fucking, em que uma pessoa insere a mão ou o punho no ânus ou na vagina da outra. Nesse caso, a prática foi conceptualizada como um ato cirúrgico, e a pessoa praticante ativa – aquela que penetra a mão ou punho – foi conceptualizada metaforicamente como um cirurgião.

3.3.2.3 Metonímia

A metonímia, mecanismo em que se compreende o todo com base em uma parte, parece ser a mais básica de todas as operações. O aspecto selecionador, característica da metonímia, mostra-se presente no ajuste focal, na metáfora e na compressão, operação da qual se falará logo em seguida.

Castro da Silva (2012), ao analisar a metonímia no léxico, utiliza dados extraídos de Gonçalves et al (2010), sobre o sufixo -ão, destacando a recorrência da metonímia continente/conteúdo, em construções como “E o único copão de refrigerante está inacessível”; “Meteu a mão no bolso e tirou o carteirão de dinheiro”; e “Bateu um pratão”. O autor retoma as conclusões de Gonçalves e colaboradores (2009), explicando que o uso do aumentativo não está relacionado à dimensão dos objetos copo, carteira e prato, tomados como base. Nos

contextos, o aumentativo relaciona-se aos conteúdos refrigerante, dinheiro e comida, respectivamente.

A metonímia foi vista na história de várias palavras analisadas por Simões Neto (2016). Alguns exemplos são braceiro, praceiro e carneiro. Em braceiro, adjetivo com significado de forte, o braço é tomado metonimicamente como centro da força. No caso de praceiro, qualidade de quem é agradável e sociável, a base praça é tomada metonimicamente como o espaço de socialização. Por fim, carneiro, substantivo utilizado para designar o animal, traz, na sua história, uma metonímia, pois carneiro era tomado como o animal útil por conta da sua carne macia, o que o diferenciava do áries, animal utilizado para fins de reprodução. Era um paralelismo similar ao que ainda há entre boi e touro.

Aspectos metonímicos foram também vistos por Simões Neto (2018) nos compostos com “síndrome” e “complexo”. Alguns exemplos são síndrome de antibiótico, visto em “Conversar com pessoas que tem síndrome de antibiótico te responde de 8 em 8 horas” (TWITTER, 2018), e síndrome de Luciano Huck, extraído de “Síndrome de Luciano Huck: Gabeira apaga fotos com os amigos do MBL”. No primeiro caso, o antibiótico é tomado metonimicamente, pelo fato de muitos deles apresentarem essa especificidade de uso de oito em oito horas. No segundo, o antropônimo Luciano Huck é utilizado do mesmo modo, remetendo ao episódio em que esse comunicador apagou as suas fotos com o seu, então, amigo, senador Aécio Neves, após esse ser denunciado em um escândalo de corrupção.

3.3.2.4 Compressão

No trabalho de Botelho (2004), sobre as construções X-eiro, a autora sinalizou a capacidade de um input poder comprimir um evento, de forma que, se for adotada uma Hipótese de composicionalidade forte, nunca se chegará à complexidade cognitiva do significado de algumas palavras.

Como exemplo, a autora menciona as palavras mochileiro e sacoleira. Uma análise composicional poderia sugerir pessoas que fazem ou comercializam mochilas ou sacolas, visto que, recorrentemente, as construções X-eiro abordam esse tipo de agente. No entanto, os significados das palavras derivadas não têm nada a ver com isso. A base mochila comprime todo o evento da viagem para dar conta de o mochileiro ser aquela pessoa que viaja bastante, com pouco dinheiro e com espírito aventureiro. Da mesma maneira, a sacola resume todo o percurso das pessoas que vendem muambas e produtos de baixa qualidade. Assim, no processo

derivativo, essas bases comprimem todo um evento cognitivo que, somente um modelo teórico que se baseie na experiência sociocultural e cotidiana consegue dar conta.

Tavares dos Santos (2009) e Carmo (2009), respectivamente, refletiram sobre esses mesmos aspectos nas construções X-nte e X-ista. As autoras que trabalharam com esse produtivo mecanismo de compreensão não chegaram a dar um nome específico a ele. Elas mencionam apenas que a formação de palavras pode esconder “historinhas” que não são visíveis em uma análise pautada apenas na forma. Lopes (2016), ao tomar conhecimento desses trabalhos, aplica esse formato de análise às palavras prefixadas no português arcaico. No entendimento desse autor, algumas construções prefixais

[...] se destacam pela força dessa capacidade de compressão semântica dos prefixos, de tal modo que uma simples palavra, formada por um item prefixal associado a uma base léxica, compacta em si uma espécie de micronarrativa, que é mais completa e específica que a paráfrase em geral apontada para a dita formação. O prefixo com- serve muito bem para exemplificar essa hipótese. Ao se verificar a etimologia e o percurso diacrônico do verbo concordar, constata-se que é fruto de um processo parassintético lato sensu (cum- + cord(is) + vogal temática verbal + morfemas flexivos verbais), apresentando o significado de ‘pôr-se ou estar de acordo’. Esse significado mais geral e mais abstrato parece originar-se, metonímica ou metaforicamente, da micronarrativa original (etimológica) que a formação parece ter contido: ‘ter o coração com o outro; estar com o coração lado a lado do outro; pôr o coração próximo ao do outro’. (LOPES, 2016, p. 244).

Lopes (2016) observa que, mesmo nas construções em que os prefixos não possam ser sincronicamente depreendidos, a pesquisa diacrônica pode ajudar a construir uma micronarrativa – termo utilizado pelo autor no lugar de historinha, utilizado pelas autoras – em que se pode perceber a cena comprimida. Alguns dados analisados por Lopes (2016) estão reproduzidos no Quadro 3, a seguir.

Quadro 3 – Micronarrativas prefixais no português arcaico

VOCÁBULO ETIMOLOGIA MICRONARRATIVA PARÁFRASE

enveja Do lat. īnvĭdĭa < invĭdus, -a, -um < invidēre

‘olhar insistente para algo ou alguém; maus olhares para algo ou alguém’ ‘desgosto provocado pela felicidade ou prosperidade alheia ou vontade irrefreável de possui-los’

escaeceu Do lat. *excadescere, frequ. de excadĕre

‘cair para fora (da memória)’

‘perder a lembrança de algo; deixar de pensar em algo’

enpeecer Do lat. *impedĭscĕre, incoativo de impedīre < in- + pēs, pĕdis

‘não deixar andar com

os seus pés’ ‘dificultar ou tornar impraticável determinada ação’

obediẽte Do lat. *obediscĕre, incoativo de obedīre (ob- + audīre),

‘que põe os ouvidos a escutar outrem que fala ou instrui’

‘que se submete à vontade de outrem’ posfaçã Do lat. *postfaciare <

lat. post faciem

‘estar atrás da face’ ‘injuriar, caluniar, dizer mal de alguém’

resurreycõ Do lat. ressurrēctĭō, - ōnis < lat. resurgĕre < subrigĕre < sub- + - regĕre

‘ato de mostrar-se novamente, conduzindo (-se) de baixo para cima’

‘retorno da morte à vida’

substãça Do lat. substantia, -ae < substāre < sub- + - stāre

‘o que está por debaixo

de’ ‘natureza’

trabalhey Do lat. vulg. *trĭpālĭāre, derivado de trĭpālĭum,

‘torturar com

instrumento de tortura composto de três paus’

‘empenhar forças físicas ou cognitivas para

executar algo’

Fonte: Lopes (2016, p. 245).

A partir dessas micronarrativas, Lopes (2016) analisa que muitas formações têm sua motivação semântica elaborada a partir de situações mais concretas que se relacionam à experiência corpórea – mente corporificada –, e que, em estágios posteriores da língua, assumiram significados mais genéricos em percursos de extensão metafórica e/ou metonímica.

Foi com base nesse trabalho de Lopes (2016) que Simões Neto (2016) dedicou uma seção à discussão dos dados de X-eir- no português arcaico, a partir de suas micronarrativas. Os dados já mencionados para metáfora, metonímia e ajuste focal são oriundos justamente dessa tentativa de aplicar o mesmo modo de análise à sufixação no latim e no português arcaico.

Chama-se esse fenômeno genericamente de compressão, porque, tanto as autoras citadas (BOTELHO, 2004; CARMO, 2009) quanto Lopes (2016) e Simões Neto (2016), usam recorrentemente a palavra “compressão” em vários momentos da análise. O aspecto metonímico é bastante relevante nessas compressões, e não há, aparentemente, nada que diferencie esse fenômeno do ajuste focal. Parece apenas que são fenômenos iguais vistos a partir de constructos teóricos diferentes. Uma vez que o ajuste focal advém da gramática de Langacker (1987, 2013) e a compressão é proposta dentro do sociocognitivismo de Salomão (2009), o ajuste focal, em função da conjuntura internacional, acaba sendo o termo mais utilizado e consagrado.

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