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Les centres d’intérêt

Deuxième partie : l’activité documentaire de l’USH

2.3. Le Centre de documentation

2.3.5. Les usagers du Centre de documentation

2.3.5.3. Les centres d’intérêt

Nesta secção, serão apresentados os dados coletados nas entrevistas, relacionados com o consumo energético na aldeia Aiha. Os setores residencial, agrícola e transportes serão abordados separadamente. 33% 36% 25% 6% PBF Salários Aposentadoria Outros

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Importa saber que, em 2004, não havia nenhum registro de equipamentos eletroeletrônicos, fogões ou motocicletas na aldeia Aiha, excetuando-se um rádio de longo alcance. Em 2006, Novo (2014) registrou duas malocas com televisão, supridas por pequeno gerador a diesel. Nesta época, o nível de renda dos indígenas era muito inferior, comparado com o atual.

4.3.1 Setor residencial

O setor residencial é responsável por toda demanda de energia elétrica da aldeia. As atividades no meio doméstico que estão relacionadas com consumo de energia são: cocção/conservação de alimentos, aquecimento/resfriamento do ambiente, bombeamento de água, iluminação e comunicação. Diante das formas de suprimento, dividiu-se a análise em três grupos: atividades supridas pelo gerador a diesel, atividades supridas por sistemas fotovoltaicos e atividades supridas a lenha ou GLP. Logo, a somatória dos dois primeiros grupos totaliza a demanda de energia elétrica na aldeia.

De forma específica, o primeiro grupo se constitui de televisores, geladeiras, freezer, ventiladores, aparelhos de som, lâmpadas, celulares, computadores portáteis e lanternas recarregáveis. Na Figura 17, abaixo, é possível ver uma maloca com geladeira e televisão. Outros registros de eletrodomésticos encontram-se no Apêndice 6.

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No Gráfico 6, pode-se dimensionar a frequência desses equipamentos nas malocas, evidenciando as prioridades da comunidade Kalapalo.

Gráfico 6 – Percentual das malocas x Equipamentos elétricos

Observa-se que as televisões, celulares e lanternas recarregáveis estão presentes em 95% das malocas. Em segundo plano, aparecem as lâmpadas atrás das malocas (parte externa), interligadas à linha de distribuição da aldeia (Figura 18), com 77%. Posteriormente, os freezers ou geladeiras com 45%.

Em percentuais menores, seguem lâmpadas na área social (interna), computadores portáteis, ventiladores e aparelho de som.

95% 45% 23% 77% 95% 95% 14% 9% 18% 0% 20% 40% 60% 80% 100% Televisão Freezer ou geladeira Lâmpada (interna) Lâmpada (externa) Celular Lanterna Ventilador Aparelho de som Computador portátil

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Figura 18 - Rede de distribuição, com lâmpada no fundo da maloca

Houve um desmembramento proposital com relação à iluminação nas malocas, visando a análise mais detalhada desse tipo de necessidade. Apenas 23% possuem uma lâmpada na sua área social, ou seja, 77% delas não possuem iluminação interna. Nenhuma delas possui iluminação nos núcleos familiares e todas as malocas, que possuem iluminação interna, também utilizam lâmpadas externamente.

Interessante notar que alguns indígenas, com bastante vivência com o meio citadino, possuíam inclusive computadores portáteis (Figura 19). Neste caso, estão inclusos em 40% das malocas (23% do total) que não desejam iluminação com lâmpadas de nenhuma forma, nem mesmo do lado externo.

Um deles, durante a visita do pesquisador, apesar de apenas ter sido indagado a respeito dos equipamentos elétricos existentes, justificou a ausência de lâmpadas da seguinte forma: “meus pais e meus avós viviam assim”. Não há correspondência direta, então, entre a experiência na cidade com a opção do uso para a iluminação.

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Figura 19 - Indígena utilizando computador portátil

Tal afirmação confirma os argumentos de Foster (1964) a respeito da aceitação de tecnologias por parte de culturas tradicionais. Eis, é fato, um processo cultural, social e psicológico, que envolve mudança de valores, crenças e regras, sendo que seus efeitos variam de indivíduo para indivíduo, ou grupo. Isso mostra não só o contraste de forças entre o tradicional e o novo, mas também uma questão de escolhas. Nesse caso, contudo, o tradicional prevaleceu sobre o novo.

Deve-se ressaltar que nem o fato de conhecerem e conviverem com a iluminação, quando frequentam as cidades, retiraram desses indígenas o vigor das suas escolhas, o que não quer dizer que elas sejam definitivas.

Outro grupo (23% das malocas), que utiliza a lâmpada na área social, já demonstra aceitação parcial, porém não acusa desejo de ter iluminação nos núcleos familiares. Diante disso, vê-se que a opção de ausência de iluminação nos núcleos familiares é unânime em toda aldeia.

O uso da televisão também merece ser analisado, já que, em boa parte das malocas, cerca de 50%, não usa o aparelho durante todas as três horas diárias, sendo o sono a justificativa mais frequente. Para os jovens, a televisão ainda serve como meio de se aprimorar a língua portuguesa. As geladeiras e freezers, neste cenário de atendimento, conseguem gerar água gelada para o dia seguinte, mas a falta de energia os impedem de conservar alimentos.

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Entre os jovens, o celular é bastante utilizado nas funções que independem do sinal de operadoras como pequenos computadores, gerando vídeos, fotos e outros arquivos. São manipulados diariamente, além de servirem como lanterna.

Dentre os equipamentos menores, chama a atenção o interesse dos jovens pelo computador portátil, muito embora existam apenas quatro unidades na aldeia. É muito provável que este número aumente devido à ânsia de informação e conhecimento.

A Tabela 7 apresenta a quantidade de equipamentos elétricos na aldeia Aiha, com as estimativas de potência elétrica que caracterizam a demanda atual.

Tabela 7 – Potência dos equipamentos presentes na aldeia

Equipamento Quantidade Potência máxima (W) Potência total (W)

Freezer 8 240 1920 Geladeira 2 180 360 Televisão 21 180 3780 Ventilador 3 50 150 Computador portátil 4 65 260 Aparelho de som 2 20 40 Celular 39 1 39 Lanterna 28 1,5 42 Lâmpada 23 20 460 Total 7051

Fonte: Adaptado de PINHO e BARRETO (2008).

O grupo gerador a diesel usado (Figura 20) foi adquirido no último trimestre de 2015, custou R$15.000,00, tem um consumo de 2 litros/hora e está em bom estado. No Anexo 4 seguem suas especificações técnicas. O suprimento através do diesel tem custo elevado (cerca de R$1.500,00 por viagem), pois tem que percorrer o trajeto do rio, consumindo gasolina e óleo lubrificante para motor dois tempos e ser acrescido do frete rodoviário até Canarana (ida e volta).

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Figura 20 - Motor a diesel e gerador de 12 kVA

Sobre as maiores cargas, certamente, serão solicitadas durante as 3 horas de suprimento: televisões, freezers, geladeiras e lâmpadas. Os demais equipamentos devem ter consumos variáveis ao longo do período de atendimento.

A energia elétrica, no entanto, é desejada também durante o dia (6 às 24h), para atender às televisões, freezers, computadores portáteis, carregamento de celulares e outros equipamentos de pequena carga. Nas malocas que não possuem televisão e geladeira/freezer, os indígenas demonstram o desejo de adquiri-los.

É provável que a comunidade tenha expressado desejo pela alternativa fotovoltaica, porque foi estimulada pelos sistemas já existentes na aldeia, como o bombeamento da água de poço instalado por um programa de saneamento do governo e pela iniciativa particular, e pioneira, do indígena que adquiriu um sistema fotovoltaico para suprimento de sua televisão. Além disso, a referência simbólica do sol, mencionada por Bartolomé (1991), deve repercutir positivamente na aceitação da energia solar.

Os dados atuais sugerem um padrão de suprimento de energia elétrica, ou seja, em linhas gerais, toda maloca deseja um sistema que atenda aos seguintes equipamentos básicos: televisão, geladeira ou freezer, uma lâmpada, celulares/lanternas recarregáveis e um equipamento adicional (computador portátil, aparelho de som, ventiladores), podendo existir variações não tão drásticas.

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No que se refere aos ambientes comunitários, a escola tem uma necessidade energética similar a uma maloca, enquanto a unidade básica de saúde requer apenas um pequeno refrigerador.

Em reuniões diárias na casa dos homens, o atendimento fotovoltaico para os equipamentos das malocas foi denominado como um sonho da comunidade, ainda que exista a noção de que para energizar mais equipamentos, o sistema deve ser maior e mais caro. Não houve, em nenhum momento, registro de um depoimento negativo com relação à energia elétrica.

Nesse sentido, foi possível ouvir depoimento de uma família que deseja aumentar sua renda fabricando bancos de madeira (Figura 21). Para tanto, revelou necessidade de pequena lixadeira elétrica para acabamento, além da intenção de comprar uma máquina de costura. No caso das peças de madeira fabricadas já têm, como destino, a comercialização em Cuiabá.

Observa-se então que, o padrão de suprimento mencionado poderá ser ampliado nestes casos, ou mantido, sugerindo um gerenciamento adequado da demanda (alternando o uso de equipamentos) para suprir estes pequenos equipamentos, visando o crescimento econômico da aldeia.

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Diante disso, fica muito claro que a demanda desejada é uma demanda latente, mas não é estática. Pelo contrário, há um dinamismo no ritmo das transformações socioculturais. A fabricação dos bancos de madeira, ou a atividade de costura, podem contagiar outros indígenas e a demanda de energia elétrica efetivamente aumentar.

Laraia (2006) e outros autores afirmam que a cultura não é, por natureza, estática, porque está sujeita a constantes reelaborações. Logo, as mais tradicionais tendem a viver esse processo de forma mais intensa quando em contato com tecnologias. Por isso, torna-se importante entender que este perfil de demanda expressa o desejo e a escolha dos Kalapalo, muito embora, daqui a algum tempo, o processo mencionado possa alterar esse perfil.

Cabe ressaltar, também, que a metodologia se mostrou adequada, desde a observação participante como processo de imersão e diminuição do etnocentrismo, até a definição por entrevistas baseadas nas premissas de Girod (1992), dentro de um diálogo do cotidiano, ouvindo o grupo familiar sem abordagem induzida. Assim, foi possível detectar informações importantes, tais como: a ausência de iluminação, uso da televisão por jovens indígenas (homens e mulheres), como meio de aprender português; além de uma família indígena que deseja máquina de costura e aumento de renda.

Nesse contexto, fica evidenciado que as características da demanda de energia elétrica na aldeia Aiha têm sentido e natureza particulares, em sintonia com seus traços socioculturais. Esses traços, muitas vezes, determinam resistências, ou usos diferenciados com relação aos usos das sociedades industrializadas. A questão da iluminação abordada é um bom exemplo desta afirmação.

O segundo grupo relaciona-se com os sistemas fotovoltaicos existentes na aldeia. O sistema maior é responsável pelo bombeamento de água de poço artesiano para duas caixas d’água de 15.000 litros cada. Existe uma rede de distribuição, cabendo a cada maloca um ponto de água. Esta instalação, segundo os indígenas, tem oito anos de funcionamento e foi realizada através de projeto de saneamento básico do governo federal. É composta de 24 módulos fotovoltaicos de 50 W cada. Além disso, não há necessidade de armazenamento de carga, nem de inversor, visto que a bomba trabalha em corrente contínua. Este sistema extinguiu o trabalho árduo das indígenas de buscarem água da lagoa através de grandes panelas de alumínio.

Existem mais três sistemas pequenos para alimentação de rádios de longo alcance, que operam de 7 às 18h. Um sistema funciona na unidade básica de saúde com módulo de 140 W e outros dois sistemas em malocas, dotados de módulos de 75 W e 120 W.

Sem dúvida, a simplicidade e eficiência destes sistemas fotovoltaicos contribuíram para que os moradores da aldeia desejassem sistemas similares, como solução para o déficit de

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energia elétrica nas malocas. O sistema particular pioneiro, já mencionado, é composto por duas placas de 140 W, visando o suprimento de alguns equipamentos elétricos de forma contínua, conforme Figura 22.

Figura 22 - Placa solar do sistema particular

A demanda de energia elétrica no meio residencial Kalapalo é composta da demanda de equipamentos supridos pelo gerador a diesel, somada à energia fotovoltaica para o bombeamento de água e para o sistema particular.

O terceiro grupo no setor residencial se refere ao uso prioritário da lenha, principalmente para a cocção, e, de forma complementar, o uso do GLP. 100% das malocas usam a lenha diariamente para a cocção e para aquecimento das malocas durante à noite. Já o uso do GLP (Figura 23), que só foi registrado em cerca de 75% das malocas, se restringe ao cozimento de alimentos não tradicionais como arroz, macarrão e feijão.

Diante disso, foram realizadas estimativas do consumo de lenha e GLP para fins energéticos no mês de abril de 2016, na aldeia Aiha. As medidas relativas à lenha foram realizadas com cinta e balança vertical; já os consumos de GLP foram informados através de dados de entrevistas.

Quanto ao consumo de lenha médio diário, estimado por maloca no mês de abril de 2016 foi de 10,5 kg com 3,0 kg de desvio padrão. No que se refere ao consumo de GLP mensal informado: 55,25 kg, ou seja, um botijão de 13 kg atende durante 4 meses, em média, às malocas

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que adquiriram o fogão convencional. No Apêndice 6 são apresentados registros fotográficos adicionais.

Figura 23 - Uso complementar do GLP

4.3.2 Setor agrícola

O setor agrícola, apesar de suma importância para a subsistência da população da aldeia, não aponta consumo energético além da atividade humana.

4.3.3 Setor de transportes

O setor de transportes é dividido entre os transportes rodoviários e hidroviários. Quanto à parte rodoviária, no mês de abril de 2016, foram encontradas 22 motocicletas na aldeia, a grande maioria de 150 cilindradas. Ainda que sugira quase que uma moto por maloca, é preciso considerar que só em uma maloca há 5 motocicletas. 75% das malocas possuem essa alternativa para deslocamento para roças, para pescaria no rio e deslocamento para outras aldeias na mesma região, como as aldeias das etnias Nahaquá e Matipu.

É muito raro a ida até Canarana de motocicleta, já que a trajetória de moto até o rio Kuluene exige barco, seguida de trilhas até Gaúcha do Norte e estrada de barro até Canarana.

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Totaliza então 320 km, em estradas muitas vezes quase intransitáveis, em função das chuvas. O consumo também não é bem definido, mas existe uma certa unanimidade na estimativa mensal de 20 litros de gasolina por moto.

Ademais, há um trator à diesel na aldeia. Este equipamento é usado para remoção de madeira de porte, para reforma ou construção de nova maloca. No mês de abril, utilizou-se 120 litros de diesel para este fim, já que havia movimento considerável para tal.

Quanto à parte hidroviária, a comunidade tem que viabilizar uma ida à Canarana, para saque mensal de dinheiro proveniente de salário ou bolsa de programas sociais, além de necessidade de compra de mantimentos e combustível para o dia a dia. Existem dois motores de popa na aldeia, um de fabricação Mercury, outro Yamaha. Certamente, é preciso prever 200 litros de gasolina para esse fim, considerando que a embarcação aguarde, no porto da aldeia Kuluene, o momento da volta. Além disso, ainda há o custo de óleo lubrificante (1 litro para 50 litros de gasolina) e do frete de aproximadamente R$700,00 para percorrer os 120 km em estrada de barro para a cidade (ida e volta).