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A intenção não é descrever exaustivamente os evangélicos, todavia, se faz necessário problematizar os principais aspectos e discussões acadêmicas que envolvem essa vertente religiosa cristã da sociedade brasileira. Como apontam Mariz e Gracino Júnior (2013), é possível pensar, a partir das modificações do campo evangélico brasileiro, numa “macro- identidade evangélica”, identificada a partir da inserção dos evangélicos na vida pública - a exemplo de eventos como “Marcha para Jesus”, que envolve diferentes denominações, além da presença marcante da bancada evangélica na política nacional. Tais fenômenos borram as delimitações denominacionais e/ou confessionais entre tradicionais, reformados, pentecostais e/ou neopentecostais, permitindo-nos entender a existência de uma macroidentidade evangélica. Nesse sentido, Ricardo Mariano aponta para o fato de que “na América Latina, o termo evangélico abrange as igrejas protestantes históricas, as pentecostais, e as neopentecostais” (2004, p. 134). Desse modo, podemos concordar que, no Brasil, convencionou-se a se identificar como evangélico todo cristão advindo da matriz Protestante.

Contudo, é importante colocar em evidência a existência de diferenças pontuais e significativas no grupo ao qual denominamos de evangélicos. Os evangélicos costumam ser categorizados pela literatura especializada entre protestantes históricos e evangélicos pentecostais. No contexto brasileiro, os evangélicos tradicionais, segundo Leonildo Silveira Campos (2011), são aqueles denominados como protestantes históricos ou clássicos. Vieram com a migração da Europa para os EUA tendo como características o ascetismo e o racionalismo. Entre os clássicos, também existem aqueles denominados de protestantes de missão, que vieram com um intuito proselitista marcante. Os protestantes históricos ou evangélicos tradicionais correspondem às denominações cuja origem remonta aos anos subsequentes à Reforma Protestante, como Batistas, Luteranos, Metodistas, Anglicanos e Presbiterianos.

Já os evangélicos pentecostais correspondem às denominações que surgiram a partir do início do século XX, como Assembleia de Deus, Deus é Amor, Igreja Quadrangular do Reino de Deus, Igreja Universal do Reino de Deus, dentre outras. Como apontado por Bohn (2004), as denominações evangélicas pentecostais cresceram muito mais que as históricas. Tal crescimento, como argumenta Montero (1999, p. 358), relaciona-se ao “modo pelo qual [o pentecostalismo] dialoga com a tradição religiosa africana”.

Uma das diferenças mais marcantes entre os evangélicos pentecostais e os tradicionais é que os primeiros são adeptos do culto ao espírito santo e da experiência da glossolalia, também denominada como “falar em línguas estranhas”.

Campos (2011) afirma que o Brasil viveu apenas duas fases pentecostais: clássicos, a partir de 1910 e posteriormente um novo movimento pentecostal das cruzadas por evangelização. Esses pentecostais deram origem a todas as outras clivagens. Já para o Paul Freston (1994), a história do pentecostalismo se divide em “ondas”. O autor usa a ideia de ondas para escapar de uma sucessão de etapas e por ser uma forma menos linear de descrever a cena evangélica e suas transformações. Entretanto, para João Décio Passos (2005, p.54), “a classificação em três fases capta com mais precisão o processo de formação do pentecostalismo no Brasil”.

Considero mais pertinente a percepção de Freston (1994), que sugere como sendo a primeira onda do pentecostalismo aquela correspondente aos pentecostais clássicos: ascéticos e milenaristas. Esse período corresponde aos anos de 1910 a 1950 e tem como características a crença pré-milenarista, que, em linhas gerais, pode ser entendida como a crença no apocalipse, o forte apelo ao ascetismo moral e a rejeição à vida secular. Destaca-se, nesse período, o surgimento, em 1910, da primeira igreja pentecostal em solo brasileiro, a Congregação Cristã no Brasil - fundada em São Paulo - e, no ano seguinte, 1911, a criação da Assembleia de Deus em Belém do Pará, a partir de uma divisão da igreja Batista local (ALENCAR et al, 2012). De acordo com Ricardo Mariano, “Ambas caracterizam-se por um ferrenho anticatolicismo, por enfatizar o dom de línguas, a crença na volta iminente de Cristo e na salvação paradisíaca e pelo comportamento de radical sectarismo e ascetismo de rejeição do mundo exterior (MARIANO, 1999, p. 29)”.

Clara Mafra (2001) argumenta que os pentecostais, sobretudo os da Assembleia de Deus, no contexto do seu surgimento, introduziram inovações significativas ao universo evangélico brasileiro. Essas inovações poderiam ser resumidas em três aspectos que os diferenciavam das práticas religiosas evangélicas das igrejas existentes na época: o primeiro aspecto é o de que não havia o elogio da cultura culta e erudita, o que contribuiu para o maior ingresso das camadas populares a essa denominação, além do espaço dado na dinâmica congregacional para o improviso e a irreverência, graças à ênfase dada às manifestações do espírito santo (sobretudo a glossolalia); por consequência, havia uma forte crítica ao formalismo das igrejas protestantes históricas. O segundo aspecto apontado por Mafra se relaciona a “uma concepção mais solta da agência do Espírito Santo [que] permitiu a maximização da tendência batista de fazer de cada membro da igreja um missionário” (MAFRA, 2001, p. 32), fazendo com que a denominação rapidamente se espalhasse pelo território brasileiro. E o último aspecto das inovações advindas do pentecostalismo remete ao discurso pentecostal, que era mais voltado ao comportamento dos fiéis do que às questões de cunho teológico, pois, segundo eles,

“a boa teologia é aquela que se deixa penetrar pela inspiração divina e que, ao mesmo tempo, concorre para o bom senso e a simplicidade” (MAFRA, 2001, p. 33). Tal discurso produziu uma postura comportamental ascética rigorosa, marcada por um forte sentimento de rejeição ao mundo.

A segunda onda do pentecostalismo, apontada por Freston (1994), é caracterizada pela expansão do movimento pentecostal com a migração interna no Brasil, correspondente ao período que vai de 1950 a 1960, o qual coincidiu com o aumento do processo de urbanização do país e o crescimento acelerado das grandes cidades. Nesse período, o movimento se caracteriza tanto pela evangelização em massa e midiática e pela forte adesão entre os migrantes das metrópoles quanto pela fragmentação do campo pentecostal. Para realizarem e intensificarem suas atividades evangelísticas, os pentecostais passaram a ocupar espaços anteriormente considerados “mundanos” (estádios de futebol, teatros etc). Foi nesse contexto que surgiram, entre muitos outros, três grandes grupos ainda ligados ao pentecostalismo clássico: Igreja do Evangelho Quadrangular (1951), Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo (1955) e Igreja Pentecostal Deus é Amor (1962) (CÉSAR, 2000; FRESTON, 1994). Também deve ser destacada a grande influência das “Cruzadas Mundiais de Evangelização”, que eram financiadas por denominações pentecostais do sul dos EUA e tinham um discurso destacadamente proselitista e anticatólico (PY, 2016).

Como aponta Mariano (1999), no que se referem à teologia, as duas primeiras ondas pentecostais apresentam distinções apenas nas ênfases que cada qual confere a um ou outro dom do Espírito Santo – a primeira enfatiza o dom de línguas; a segunda, o de cura (MARIANO, 1999, p. 31). Por conta da ênfase dada à cura, as igrejas pentecostais da segunda onda receberam muitas pessoas em busca de milagres e curas.

E, por fim, a terceira onda dos evangélicos neopentecostais, apontada por Freston (1994) como o advento do neopentecostalismo, a partir da década de 1980, cuja característica marcante é a chamada teologia da prosperidade. O movimento neopentecostal, como ficou conhecido, também tem como característica a utilização massiva dos meios de comunicação, com destaque para a televisão (MARIANO, 1999; SIEPIERSKI, 1997). Essa fase do pentecostalismo é marcada por uma maior liberdade na sujeição às condutas e maior ênfase ao consumo e, de acordo com Mariano (1999), há uma inversão na cosmologia pentecostal, uma vez que o ascetismo e a renúncia ao mundo - que até então eram centrais entre os pentecostais brasileiros - é substituída por uma visão de mundo cuja trajetória do crente precisa ser marcada por uma vida de realizações, sendo a fé o meio para obtê-las. Nesse contexto, a pobreza passa a ser

compreendida como obra demoníaca da qual o ser humano precisa e deve se libertar para alcançar a prosperidade.

Ainda entre os neopentecostais é possível perceber que o enfraquecimento do discurso pré-milenarista e a difusão da ideologia da guerra espiritual - vida material influenciada pela constante guerra entre anjos e demônios - possibilitaram o desenvolvimento da “teologia da prosperidade”, cujo plano de Deus para o cristão é fazê-lo “vitorioso” e próspero (SIEPIERSKI, 1997). Nesse sentido, Mariano (2004) também afirma que no plano teológico as igrejas neopentecostais têm por característica “enfatizar a guerra espiritual contra o Diabo e seus representantes na terra”, em uma disputa cósmica constante entre Deus e o Diabo pelo domínio da humanidade. De acordo com Sanchis (2001), o neopentecostalismo teve muito sucesso por causa da sua habilidade em dialogar com o imaginário popular/religioso brasileiro, no qual “não somente existe um Deus, mas também o ser humano está envolvido num universo povoado de forças, espíritos e influências que mantém relações com as pessoas (SANCHIS, 2001, p. 26)”. Como aponta Mariano:

[...] as igrejas neopentecostais revelam-se, entre as pentecostais, as mais inclinadas a acomodarem-se à sociedade abrangente e a seus valores, interesses e práticas. Daí seus cultos basearem- se na oferta especializada de serviços mágico-religiosos, de cunho terapêutico e taumatúrgico, centrados em promessas de concessão divina de prosperidade material, cura física e emocional e de resolução de problemas familiares, afetivos, amorosos e de sociabilidade (MARIANO, 2004, p.124).

Assim como Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), as principais denominações surgidas no contexto do neopentecostalismo brasileiro (Igreja Mundial do Poder de Deus e a Igreja da Graça) foram criadas a partir de uma cisão da igreja Nova Vida (CAMPOS, 1996). Por adotar uma postura mais liberal do ponto de vista comportamental, rompendo com o ascetismo contracultural típico das igrejas pentecostais da primeira e segunda ondas, a terceira onda propiciou a aproximação das classes médias, altas e do público jovem ao neopentecostalismo. Outras denominações importantes desta fase podem ser apontadas: Renascer em Cristo, Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra e Nova Vida também tiveram bastante sucesso entre esses segmentos devido às suas estratégias proselitistas centradas na música, no esporte, nos acampamentos da juventude etc (MARIANO, 2004).

Por fim, é interessante salientar que as transformações trazidas pelo neopentecostalismo no campo evangélico brasileiro não aconteceram sem embates, discussões e reações de diferentes aspectos das outras denominações surgidas nos períodos anteriores. Em relação às igrejas protestantes históricas, semelhante ao que ocorreu quando o pentecostalismo surgiu no

cenário religioso brasileiro, elas criaram estratégias para não cederem às inovações trazidas e intensamente difundidas pelo neopentecostalismo. Contudo, algumas denominações aderiram, transformando-se em “comunidades avivadas”; já outras optaram por reafirmar seus princípios, assumindo uma postura refratária a essa inovações. De todo modo, sabemos que, no período de 2000 a 2010, o IBGE apontou o pentecostalismo e o neopentecostalismo como as vertentes evangélicas que mais cresceram entre os brasileiros, o que muitos estudiosos têm chamado de “pentecostalização” do campo evangélico no Brasil.

De acordo com alguns estudiosos, a origem dessa “pentecostalização” se deu a partir do advento das “igrejas renovadas”, surgidas com as rupturas internas de grupos “carismáticos” no interior das denominações históricas (FERNANDES et. al., 1998; CAMPOS, 2011). Além das rupturas que ocorreram no interior das denominações históricas e que foram causadas pelas igrejas renovadas, é possível notar que as próprias igrejas históricas estão se renovando. Autores têm argumentado que a pentecostalização é um processo que ocorre “num gradiente”, em que o fenômeno varia de acordo com a “denominação, a congregação sendo ou o próprio indivíduo” (SMIRDELE, 2011, p. 78). De acordo com Valdermar Figueiredo (2012), esse fenômeno estaria provocando a incorporação de elementos do pentecostalismo nas igrejas históricas, com ênfase nos cultos e celebrações.

É importante pontuar que esse processo não acontece sem que haja diversos tipos de embate, discussões internas e disputas entre a tradição reformada e o pentecostalismo. Vale notar que, devido à ênfase no discurso pentecostal sobre a “batalha espiritual”, os pentecostais acabam sofrendo a acusação de professar uma religião mágica em relação às denominações históricas que, com frequência, buscam se distinguir desse tipo de religiosidade (MARIZ, 1995, 1997; BIRMAN et al, 1997).

Por fim, tal cenário apresentado nos ajuda a ter uma perspectiva de como o campo religioso brasileiro, aqui especificamente o evangélico, é configurado a partir de uma complexidade, na qual se notam permanências e rupturas com tradições e discursos hegemônicos a partir de alternativas religiosas e a reinvenção da tradição cristã evangélica, colocando em evidência o caráter heterogêneo do grupo que denominamos de evangélicos.

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