Os estudos de públicos em museus são o termo provindo maioritariamente da sociologia para um método analítico que pretende caracterizar quem visita o museu e desta forma prestar um melhor serviço.
Este é o ponto de partida, para o qual a maioria das direcções de museus está sensibilizada, dadas as constantes referências que as respectivas publicações dão ao caso.
A história desta estratégia de gerir a comunicação para uns, de potenciar o serviço para outros, nasce na década de 80 e no bloco anglo-saxão. Destacam-se os trabalhos feitos nos EUA e Canadá e a partir dos anos 90, também na Austrália e Reino Unido. Existia como primeira convicção, que para um melhor entendimento do fenómeno haveria de se produzir um trabalho que diferenciasse os “públicos de museus” dos “não públicos”. Esta foi uma ferramenta de trabalho de tal maneira generalizada que ainda se aborda no ambiente da especialidade com frequência. Os dados que eram trabalhados pelos respectivos analistas incidiam sobre dados sócio demográficos (idade, sexo, educação, ocupação) e/ou geográficos (residência, visitante pontual, turista nacional/internacional). Estes, uma vez cruzados com o número de entradas criavam um compêndio informacional objectivo e quantitativo de interesse e do qual se partiu, geralmente para a aposta voltada mais para os
em detrimento de uma linguagem neutra e simples.
A selecção dos estudos de públicos que correspondem a esta descrição são de: HOOD (1993) e HAYWARD (1993) com a particularidade cultural típica de britânicos e norte-americanos, que é diferenciar o universo de pessoas com formação e/ou trabalho intelectual daquelas de quem tem trabalho braçal ou de execução, logo de fraca exigência de educação. Esta dicotomia entre ―blue
color‖ e ―white color‖ jobs espelha-se nos comportamentos; enquanto os primeiros procuram uma
aprendizagem, novas experiências e o sentido de valorização do tempo, os segundos têm objectivos que se relacionam mais com o entretenimento.
A segunda fase da evolução dos “estudos de públicos” deveu-se à insatisfação dos resultados aferidos preverem tão simplesmente discernir, quem tem por hábito dirigir-se a um museu daqueles que o fazem esporadicamente; então lentamente a mesma estratégia de abordagem cariz sócio económica especializou-se, bebendo em grande parte na segmentação, que o marketing fez do poder de compra das sociedades ocidentais. Aconselha-se a leitura do trabalho de Hein em ―Learning in the
museum‖.
O terceiro momento da história dos “estudos de público” decorre da introdução de métodos de análise a dados qualitativos, que ocorrem quando é aplicada a prática do inquérito e ocasionalmente a entrevista, visando quase sempre a satisfação pelo serviço prestado, através do levantamento das expectativas e necessidades, bem como das motivações dos visitantes, tendo por critérios,
normalmente o que Rand (2000) seleccionou em: "Reinventing the Museum: Historical and
Contemporary Perspectives on the Paradigm Shift":
1. conforto (necessidade físicas elementares);
2. orientação (mapear o espaço de forma intuitiva);
3. sentido de ser bem-vindo, de pertença (excluir a sensação de elemento forâneo àquele
processo de interactividade com o “outro” e com os conteúdos);
4. entretenimento (tempo de lazer);
5. socializar (oportunidade de discussão e partilha);
6. respeito (a diferença);
7. comunicação (permitir uma interpretação e construção de significado);
8. aprender (aprender coisas relevantes e novas);
10. a confiança para explorar conteúdos (sentido de bem-estar intelectual);
11. revitalização (sentido de gelstalt, em que a memória dá a visita como positiva para o
desenvolvimento pessoal do indivíduo).
A conclusão mais ou menos generalizada da prática de inquéritos e entrevistas no mundo dos museus veio a confirmar uma dúvida que desde sempre assolou quem tinha o poder discricionário de pensar a comunicação do museu – porquê a fuga do visitante à ordem da exposição?
Muito simplesmente a previsão do “programador” normalmente sai gorada por assumir que a visita é um acto pessoal, uma experiência de concentração individual em adquirir de
conhecimentos. Estes mesmos estudos evidenciaram que, para a maioria das pessoas que visitam o museu, encaram-no como uma experiência de grupo, que envolve valorização pessoal sem dúvida, mas no quadro de um exercício a ser levado a cabo em família ou entre amigos; daí que sejam destacadas as expectativas de divertimento e de entretenimento; com instalações apropriadas (no qual se dá especial destaque ao universo infante-juvenil), visando a oportunidade de aprender.
Aliás, o público escolar é muito explorado pelos museus, ainda para mais quando são as excursões a razão do grande sucesso de bilheteira de muitos dos espaços, e a consciência que do êxito dessa intervenção pode significar o retorno dessas mesmas crianças com as famílias.
Para compreender este tipo de abordagens há trabalhos fundamentais como o levado a efeito pelo UK Arts Council and Museums and Galleries Comission, direccionado para as crianças, onde é afiançado que as expectativas deste segmento etário são:
- Exposições com forte oportunidade de interactividade;
- A possibilidade de participar activamente na história como mais uma personagem; - E uma oportunidade para aprender de forma divertida.
Finalizando este argumento sobre os estudos de público e a sua evolução, a compreensão do museu como uma experiência holística e o factor social serão os grandes aportes da sociologia ao programador.
Bernard Lahire (2005) por intermédio do termo: “visitante individualizado” conseguiu explicar muito bem em que consistem esses factores.
O autor parte do pressuposto que, o mesmo indivíduo desenvolve disposições diferentes para contextos sociais distintos; ora o método para aferir esta realidade passará por uma abordagem
necessariamente qualitativa: constando desta a observação, a entrevista e o registo de histórias de vida.
Deste método, existem dois exemplos paradigmáticos: um francês, desenvolvido na Cite des Sciences et de l‟Industrie (CSI); e outro, italiano, resultado da união de esforços de vários museus transalpinos.
Para o primeiro caso, (MENGIN e HABIB; 2005), é dito que as entrevistas, a observação dos visitantes, as consultas aos monitores e a leitura do livro de honra (onde ficam expressas opiniões), são as fontes primárias de dados necessários à interpretação das lógicas de deambulação e por conseguinte dos estilos de visitas.
Já para o segundo caso, (MAZZOLINI; 2002), procurou-se estudar as motivações (aplicação do método construtivista), os comportamentos e algo muito interessante: o impacto cognitivo nos visitantes. Os resultados confirmam o interesse em potenciar o saber pessoal, a socialização e garantir formas alternativas de passar o tempo.