O recurso à simulação de um processo comunicativo particular, como uma conversa familiar face a face, por exemplo, é típico da crônica machadiana de maneira geral e funciona como uma estratégia narrativa que consiste em aproximar as coordenadas espaçotemporais da produção e da recepção do texto, fazendo coincidir discursivamente o momento de escrita e o momento de leitura da crônica. O narrador simula sua presença súbita ao lado do leitor no momento em que este realiza a leitura, inserindo explicitamente as circunstâncias da enunciação no corpo do enunciado. São muitos e variados os exemplos, citamos alguns mais ilustrativos por questão de método e economia de espaço; dentre eles um exemplo mais extenso, mas de citação inevitável porque bastante elucidativo do que ficou dito acima:
Bons dias!
... E nada; nem palavra, nada. Ninguém me responde; todos estão com os olhos na eleição do Iº distrito. Mas, com seiscentas cédulas! Também eu, acabando, lá irei dar o meu recado, por sinal que já o trago de cor; mas cada coisa tem o seu lugar. Quando um homem chega e cumprimenta, parece que os cumprimentados o menos que podem fazer é retribuir o cumprimento; acho que não custa muito. Calaram-se, a pretexto de que vão votar, será político, mas não é político; não sei se me entendem. Enfim, por essas e outras é que eu gosto mais da roça. Na roça a gente vai andando em cima da mula; a dez passos já as pessoas bem educadas estão de chapéu na mão:
___ Bons dias, Sr. Coronel! ___ Adeus, José Bernardes. ___ Toda obrigação de V. Exa... ___ Todos bons, e a tua?
___ Louvado seja Deus, vai bem, para servir a V. Exa.
Que custa isso? Que custam dois dedos de boa criação? Nada. E note-se que lá fora, mesmo quando há eleição, ninguém se esquece dos seus deveres: às vezes até os cumprem com mais galhardia. Esta corte é uma terra de malcriados.
Pois olhem, quando eu entrei aqui, vinha alegre...16(ASSIS, 2008a, pág.91)
Neste texto, o narrador insere o título habitual da coluna, “Bons dias!”, no enunciado da crônica e simula uma conversação face a face com o leitor, que por estar se preparando para votar não responde de volta o cumprimento. Note-se que o cronista comporta-se como se estivesse fisicamente no mesmo espaço do leitor: “quando eu entrei aqui...”, e assim procede em várias outras crônicas, como quando se aproxima do fim do texto: “Com esta vou-me embora. Queria falar-lhes de uma porção de coisas, das cinquenta cédulas do Senado, e outros sucessos, mas é tarde...”17, ou quando menciona o momento de produção da crônica: “... Aqui
não houve mais retê-las; todas voaram, umas para as janelas, outras para os pianos, outras para dentro; fiquei só, peguei no chapéu e vim ter com meus leitores, que são sempre os que pagam as favas18. A enunciação se desenvolve, por um lado, em uma topografia
compartilhada entre os participantes, deslocando a posição física do narrador para o espaço material do leitor; por outro lado, a cronografia da enunciação é atualizada a cada novo momento de leitura, deslocando o tempo do enunciado em função da iniciativa de leitura.
Esse recurso, que presentifica a enunciação no momento de atualização do enunciado, estabelece uma modelação na composição do gênero que, neste momento, pertence ainda quase exclusivamente ao domínio jornalístico, e mostra-se coerente com os condicionamentos impostos por este último. Esse procedimento atende ao princípio da atualidade inerente ao jornal diário e, mais que isso, funciona como uma eficiente estratégia textual de captação do público leitor ainda não acostumado com a leitura de periódicos, já que ele reconheceria nestas marcas linguísticas, uma atividade discursiva familiar, representada pela interlocução direta de uma conversação rotineira. Além disso, a materialização discursiva do cronista diante do leitor exerce um efeito de interpelação, forçando-o à elaboração de uma resposta e de uma participação ativa no processo de leitura.
Neste sentido, podemos dizer ainda que esta estratégia colabora com a formação do leitor, exigindo dele uma tomada de posição ativa diante do que lê. Esse procedimento discursivo é coerente com o exaltado posicionamento inicial de Machado a respeito do papel do jornal no processo de democratização das ideias da época. Segundo ele, o jornal representava a “república do pensamento”, a arena de debates e discussões na qual o povo teria direito a voz e participação ativa: “uma forma de literatura que se apresenta aos talentos como uma tribuna universal é o nivelamento das classes sociais, é a democracia prática pela
17 Crônica de 11 de junho de 1888 (ASSIS, 2008a, p.129) 18 Crônica de 18 de novembro de 1888 (ASSIS, 2008a, p.197)
inteligência”19 (ASSIS, 1994, p.947). Para o escritor, o jornal não só promoveria o acesso
popular à literatura, às discussões públicas e aos acontecimentos relevantes, como se constituiria a partir das demandas coletivas.
O jornal, literatura quotidiana, no dito de um publicista contemporâneo, é reprodução diária do espírito do povo, o espelho comum de todos os fatos e de todos os talentos, onde se reflete, não a ideia de, um homem, mas a ideia popular, esta fração da ideia humana. [...] A discussão pela imprensa-jornal anima-se e toma fogo pela presteza e reprodução diária desta locomoção intelectual20. (ASSIS, 1994, p.946)
Assim, o cronista de Bons dias! recorre ao processo de ficcionalização dos participantes da enunciação, transportando-se para diante de um leitor materializado e se faz ver, estimulando a participação interpretativa e interventiva do público leitor. A seguir, alguns exemplos nos quais o recurso aparece logo nas primeiras linhas, produzindo uma orientação de leitura demarcada pelas condições de um contrato tácito firmado entre o cronista e o leitor e que deverá funcionar como pano de fundo para a leitura da crônica, isto é, a cenografia será validada pelos participantes como uma conversa presencial, efetivada no ato de leitura:
Bons dias!
... Desculpem, se lhes não tiro o chapéu; estou muito constipado. Vejam; mal posso respirar. Passo as noites de boca aberta. Creio até, que estou abatido e magro. Não? Estou; olhem como fungo... 21(ASSIS, 2008a, p.99)
Bons dias!
Agora que está tudo sossegado, aqui venho de chapéu na mão e dou-lhes os bons dias de costume. Como passaram do outro dia para cá? Eu bem. [...]
Estou a ver daqui a cara do leitor, os olhos curiosos que estica para mim, a fim de adivinhar o que vai acontecer nestes seis meses mais próximos, em relação à política...22
(ASSIS, 2008a, p.165)
Bons dias!
Não me acham alguma diferença? Devo estar pálido, levanto-me da cama, e se não fosse a Alfaiataria Estrela do Brasil... quero dizer o xarope de Cambará, ainda agora lá estava. [...] E vosmecês, como vão da sua tosse?...23 (ASSIS, 2008a, p.179)
Bons dias!
Posso aparecer? Creio que está tudo sossegado. Enquanto houve receio de alguma coisa, não pus o nariz, quanto mais as manguinhas de fora...24(ASSIS, 2008a, p.207)
19 Artigo publicado no Correio Mercantil, 10 e 12 de janeiro de 1859. 20 Idem.
21 Crônica de 4 de maio de 1888. 22 Crônica de 26 de agosto de 1888. 23 Crônica de 22 de outubro de 1888. 24 Crônica de 17 de dezembro de 1888.
Bons dias!
Deus seja louvado! Choveu... Mas não é pela chuva em si que o leitor me vê aqui cantando e bailando; é por outra coisa. 25
Nestes últimos segmentos, o narrador comporta-se como se a crônica representasse o encontro real entre ele e o leitor, sendo pois necessário todo o ritual de sociabilidade previsto em uma conversa habitual da época, desde o cumprimento de chapéu até o respeito às normas de polidez, isto é, não ser prolixo, perguntar sobre a saúde etc.
Reforçando a dimensão física da interlocução, a simulação do ato enunciativo se processa, na série Bons dias!, como se a comunicação estivesse sendo produzida em função do fluxo de pensamento do cronista, sem a elaboração prévia própria do texto escrito, e ainda pudesse ser interrompida a qualquer momento em função de um acontecimento externo: “Não digo mais nada para os não aborrecer, e porque já me chamaram para o almoço....”26; “Creio
que tenho alguma coisa que dizer, mas não me lembro. Não era o Liceu, não eram as letras falsas, não era o fogo do Botafogo... Seja o que for, Boas noites.”27; “... e descubro agora que
vem a ser meu tio – fato que neguei a princípio. Também não borro o que lá está. Vamos a segunda face” 28. Em outros momentos, simula a participação, também física, do leitor na
conversa, como na crônica de 6 de julho de 1888, na qual estiliza uma previsão da ansiedade do leitor diante do que o cronista tem a dizer, colocando em cena uma desordem, uma bulha: “Pois bem, trago a esses desesperados uma esperança... Não me sufoquem: ouçam-me; sosseguem; deixem-me falar... Ouçam.”29. Por considerarmos o recurso à conversa com o
leitor um dos elementos particularmente estruturantes da composição de Bons dias! e, além disso, uma marca de heterogeneidade estratégica, reservaremos um espaço maior ao assunto no último capítulo deste trabalho.
25 Crônica de 6 de fevereiro de 1889 (ASSIS, 2008a, p.231) 26 Crônica de 5 de abril de 1888 (ASSIS, 2008a, p.80) 27 Crônica de 6 de setembro de 1888 (ASSIS, 2008a, p.171) 28 Crônica de 29 de agosto de 1889 (ASSIS, 2008a, p.296) 29 Crônica de 6 de julho de 1888 (ASSIS, 2008a, p.144)