Uma das características centrais da sociedade industrial no capitalismo avançado é, segundo Marcuse (1979), uma falta de liberdade confortável. As necessidades orgânicas da maior parte dos indivíduos são atendidas pela sociedade sem que se modifique a maneira como ela se organiza. Como afirma o autor:
A esse respeito, parece fazer pouca diferença o ser a crescente satisfação das necessidades conseguida por um sistema totalitário ou não totalitário. Nas condições de um padrão de vida crescente, o não conformismo com o próprio sistema parece socialmente inútil, principalmente quando acarreta desvantagens econômicas e políticas tangíveis e ameaça o funcionamento suave do todo. (MARCUSE, 1979, p. 24).
Uma vez que o não-conformismo com um sistema que tende a identificar as partes com o todo social parece inútil, resta aos indivíduos o encontro da „felicidade‟ e do „prazer‟ na ausência da liberdade. Marcuse (1979) compartilha da idéia que temos desenvolvido acerca da possibilidade de abolição do trabalho na sociedade contemporânea. A liberdade não seria impedida se “[…] o aparato produtivo pudesse ser organizado e orientado para a satisfação das necessidades vitais, seu controle bem poderia ser centralizado; seu controle não impediria a autonomia individual, antes tornando-a possível” (1979, p. 24). Entretanto, destaca Marcuse, é exatamente o contrário que se realiza, uma vez que o aparato impõe suas exigências econômicas e políticas “[…] para a defesa e expansão do tempo de
trabalho […]” (1979, p. 24). Foi possível perceber isso na exposição que fizemos acerca da gestão e organização do trabalho que esteve atrelada ao desenvolvimento tecnológico sem, com isso, possibilitar aos trabalhadores uma maior tempo livre.
De acordo com Marcuse (1979), o poder político representado principalmente pelo Estado, tem se afirmado sobre o processo mecânico e sobre a organização técnica do aparato, justificando pelo desenvolvimento da tecnologia a exigência de que os homens sejam mais produtivos. Entretanto, há que se considerar que o poder das máquinas nada mais é que “o poder do homem, armazenado e projetado” (MARCUSE, 1979, p.25) e, portanto, a alternativa a isso estaria na utilização do processo mecânico como base para o exercício da cominação, mas como base para a liberdade, possibilitando ao indivíduo exercer sua autonomia.
Também aquilo que se chama necessidade humana deve ser examinado, uma vez que podemos chamar de necessidades humanas aquelas que se formaram socialmente, transcendendo o nível biológico de nossa existência. Contudo, em função da antinomia existente entre sociedade e indivíduo, pode ser colocada em dúvida a veracidade de algumas necessidades. Tal distinção é necessária, uma vez que para a manutenção da sociedade do consumo sob a ditadura da moda, as necessidades são em grande parte superimpostas21 aos indivíduos por interesses sociais particulares, ou seja, interesses particulares transformados em sociais. Tais necessidades já são produtos de uma sociedade cujo interesse dominante exige a repressão de idéias ou de necessidades cujos teores sejam contraditórios com o todo social.
Marcuse (1979) afirma que entre as necessidades superimpostas estariam todas aquelas que “[…] perpetuam a labuta, a agressividade, a miséria e a injustiça” (p. 26). Nesse sentido, ele afirma que a maioria das necessidades comuns de “[…] descansar, distrair-se, comportar-se e consumir de acordo com os anúncios, amar e odiar o que os outros amam e odeiam, pertence a esta categoria de falsas necessidades.” (p. 26). Tais necessidades podem até vir a se tornar do próprio indivíduo na medida em que são fortalecidas pelas condições de sua existência, mas
21 Marcuse utiliza-se deste termo para conceituar as “falsas” necessidades. Em suas palavras: “‟Falsas‟ são
aquelas [necessidades] superimpostas ao indivíduo por interesses sociais particulares ao reprimi-lo: as necessidades que perpetuam a labuta, a agressividade, a miséria e a injustiça […] A maioria das necessidades comuns de descansar, distrair-se, comportar-se e consumir de acordo com os anúncios, amar e odiar o que os outros amam e odeiam, pertence a esta categoria de falsas necessidades" (1979, p.26).
independente até mesmo do quanto ele se identifique com tais necessidades, há que se considerar que elas são “produtos de uma sociedade cujo interesse dominante exige repressão” (p. 26).
O autor reconhece como necessidades que têm direito indiscutível à satisfação apenas aquelas que são vitais, a saber: “de alimento, de roupa e teto ao nível alcançável da cultura.” (MARCUSE, 1979, p. 27). Apesar de arriscar-se em recusar como necessidades todas aquelas que não são vitais, Marcuse afirma que a distinção entre necessidades socialmente produzidas verdadeiras e falsas só pode ser feita, de fato, pelos próprios indivíduos se e quando estiverem livres para dar a própria resposta, o que é paradoxal, pois deste modo, a liberdade inexistente como condição dessa resposta. Segundo ele: “Enquanto eles [os indivíduos] forem mantidos incapazes de ser autônomos, enquanto forem doutrinados e manipulados (até seus próprios instintos) a resposta que derem a esta questão não poderá ser tomada por sua.” (p. 27).
Entretanto, se pensarmos nas necessidades de consumo e de alto padrão de vida22 produzidas nos jovens executivos, conforme descrição de López- Ruiz (2004), pelos valores disseminados entre os executivos das grandes corporações, dificilmente poderíamos negar que aquelas sejam produtos das necessidades repressivas destas. Nas entrevistas com os trainees, ficou evidente que algumas das necessidades e ambições que eles têm hoje surgiram em função de seu contato com as demandas e valores das empresas.
Marcuse (1979) afirma que a Sociedade Industrial tem como característica peculiar o sufocamento das necessidades que exigem libertação e, por isso, integrado a um todo repressivo o termo “liberdade” torna-se instrumento de dominação. O controle social é tecnológico, ele se ancora nas necessidades que a própria sociedade produziu para que pudesse reproduzir-se sem transformações significativas em sua organização. Neste sentido, o autor salienta que a mimese parece ter substituído a introjeção enquanto mecanismo de constituição do sujeito,
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López-Ruiz (2004) menciona que os hábitos de consumo dos jovens executivos dos dias de hoje estão voltados para a „permanência social‟. Estes profissionais precisam manter a aparência de um status elevado, uma vez que este indica sua participação social do grupo dos executivos. Em suas palavras: “[…] uma categoria como a de „trabalhadores de altas rendas‟ torna visível o fato de que este grupo encarna e dinamiza uma nova cultura comercial que, se comparada com a das tradicionais classes médias profissionais, representa uma mudança substantiva nos hábitos e no sentido dado ao consumo. É por isso que, sintetizando a partir de uma de suas características, é possível afirmar que os consumos dos „trabalhadores de altas rendas‟ passam a estar orientados em direção a uma crescente sofisticação e estetização da vida cotidiana. É, justamente o consumo de estilo onde esse setor é induzido a buscar a criação e recriação dos sentidos que orientam suas vidas.” (LÓPEZ- RUIZ, 2004, p. 19)
uma vez que a existência de uma dimensão interior em contraposição a exterior parece não existir mais. O que se dá é uma „formação‟ dos sujeitos pela identificação imediata com os objetos presentes da realidade social, o que impossibilita qualquer individuação. Sendo assim, “se os indivíduos se encontram nas coisas que moldam a vida deles, não o fazem ditando, mas aceitando as leis das coisas – não as leis da Física, mas a lei da sociedade.” (MARCUSE, 1979, p. 31). Trata-se apenas da submissão aos fatos e não de um ajustamento necessário à realidade, elemento que destacamos sob outra perspectiva no tópico anterior. Também para Marcuse (1979), a ideologia foi absorvida pela própria realidade, identificou-se com ela, tendo sido colocada no próprio processo de produção. Nas palavras do autor:
O aparato produtivo e as mercadorias e serviços que ele produz „vendem‟ ou impõem o sistema social como um todo. Os meios de transporte e comunicação em massa, as mercadorias casa, alimento e roupa, a produção irresistível da indústria de diversão e informação trazem consigo atitudes e hábitos prescritos, certas reações intelectuais e emocionais que prendem os consumidores mais ou menos agradavelmente aos produtores e, através destes, ao todo.
(ADORNO23 apud MARCUSE, 1979, p.32).
Neste contexto, segundo Marcuse (1979), surgiu um padrão de pensamento e de comportamento que só possui um único sentido, a reafirmação do todo social, trata-se do pensamento unidimensional. Este é sistematicamente promovido pelos elaboradores da política e por aqueles que provisionam os meios de comunicação de massa. O glorificado progresso experimentado pela sociedade industrial dissociou-se do compromisso em melhorar as condições da vida humana. Em lugar da transformação da organização social, o que ocorreu foi uma mera “pacificação da existência”, expressão utilizada por Marcuse (1979).
As funções anestésica e pseudo-formativa da indústria cultural dão subsídios para que a racionalidade tecnológica se reafirme em detrimento do pensamento. Neste ponto, a dominação – disfarçada em afluência e liberdade de consumo – se estende a todas as esferas da vida pública e privada, integra toda oposição autêntica e absorve todas as alternativas. A racionalidade tecnológica revela seu caráter político ao revelar-se veículo da dominação, criando um sistema verdadeiramente totalitário no qual sociedade e natureza, corpo e mente são
mantidos num estado de permanente mobilização para sua defesa. (MARCUSE, 1979, p.37).
O sistema capitalista no qual se procedeu a análise de Marcuse, Horkheimer e Adorno sofreu modificações significativas no que diz respeito à sua dinâmica – globalização, informática – mas a crítica cultural empreendida pelos autores permanece válida uma vez que seu fundamento – a busca irrestrita por acumulação de capital - é o mesmo. De fato, a globalização constituiu uma tentativa de ordenação da economia em escala global, mas os recentes eventos econômicos advindos dos países mais desenvolvidos do mundo têm demonstrado a fragilidade em que se encontra tal organização.
Infelizmente as perspectivas não são menos preocupantes que as dos autores da Teoria Crítica. Pelo contrário, o diagnóstico de uma rejeição da consciência individual dissonante do todo social confirma-se objetivamente. Todavia, a manutenção do padrão de vida e do conforto enquanto sucedâneos da liberdade estão ameaçados.