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A presença da sociologia de Simmel no Brasil também passa pelos esforços do personagem desta dissertação apesar de Willems não ter sido seu aluno, uma vez que Simmel deixara a Universidade de Berlim em 1914, antes da chegada de Willems. Ao

86 Fernando Henrique Cardoso cursou ciências sociais na FFCL entre 1949 e 1952. Em 1955 tornou-se o primeiro assistente de Florestan Fernandes.

investigar os “primórdios da recepção de Simmel no Brasil”, Waizbort (2007) atenta para o papel de Willems em cinco publicações: Leituras Sociológicas, Revista Sociologia,

Dicionário de Etnologia e Sociologia, Ensaio sobre o esnobismo e o prefácio à segunda

edição de Cunha. Dessa forma, Waizbort indica como Willems teve com seus projetos um importante papel na tradução e na utilização de conceitos simmelianos na academia brasileira. A primeira tradução de um texto de Simmel em português, por exemplo, é atribuída por Waizbort a Willems, na publicação de Leituras Sociológicas (1940), na qual um excerto de Soziologie (SIMMEL, 1908), “As formas Sociais como Objeto da Sociologia”, é disponibilizado para o público brasileiro. Nesse sentido, o autor nos revela o “fato de Simmel estar presente desde os primórdios da institucionalização das ciências sociais no Brasil” (WAIZBORT, 2007. p. 14), em que a “relação com Simmel era ainda uma relação direta com a obra em alemão, língua nativa de Willems” (Idem. p. 14). Ou seja, antes que houvesse a disponibilidade de acesso à obra de Simmel no Brasil a partir da leitura do autor feita pela Escola de Chicago. Para além da importância da primeira tradução de Simmel no Brasil no manual de introdução à sociologia de Willems e Barreto87, outra criação foi fundamental para a difusão das obras de Simmel no país: a

Revista Sociologia.

Ao analisar o conteúdo da Revista Sociologia nos seus primeiros anos (1939- 1941), ou seja, o período em que Willems estava fortemente empenhado em sua publicação e que compreende a época em que era professor assistente em Sociologia Educacional, Andrea Alves (1993) nos dá mais elementos para compreender como se deu a presença da obra de Simmel no periódico durante o período. Simmel foi o autor alemão mais citado (apesar de não ser um autor muito mencionado por Willems em sua própria obra). Além disso, segundo o levantamento de Naara Luna (1998. p.20. Apud. WAIZBORT, 2007. p.21), que se estende até 1955, Simmel segue como o autor de língua alemã mais citado (16 artigos). Conforme afirma Andrea Alves,

(...) analisando os conceitos mais recorrentes de 1939, podemos perceber que a revista Sociologia imprime uma concepção de sociologia que, devido à influência de Willems, guarda forte relação com a perspectiva simmeliana. Constatamos a forte incidência dos conceitos de ‘fato social formal’, ‘assimilação’ – principal interesse de Willems – e ‘sociabilidade’ (ALVES, 1993. p.15).

87 Antenor Romano Barreto (1891-1982) foi professor do Instituto de Educação Caetano de Campos e que seria incorporado a Universidade de São Paulo. Foi professor de sociologia do “Colégio Universitário da Faculdade de Direito da USP. Participou de diversos projetos educacionais, dentre elas a criação da Revista Sociologia e de Leituras Sociológicas (1940), ambas em co-autoria com Willems.

E continua a autora:

(...) julgamos que a revista Sociologia recorre a uma definição simmeliana da sociologia, já que também assinala, sob a denominação de fatos sociais formais, elementos como: interação, associação e assimilação, entre outros (Idem. p. 20).

Além disso, Leopoldo Waizbort (2007) nos lembra como o “texto fulminante sobre a sociologia do esnobismo”, publicado por Willems (1939) é “claramente devedor, e em profundidade de Simmel” (p. 23), apesar de Willems não mencionar o autor. A afirmação de que Willems não cita Simmel no artigo não é inteiramente correta. Willems chega a citar o autor ao afirmar que “Simmel já reconheceu que o cruzamento dos círculos sociais significa a ‘libertação’ da individualidade, proporcionando-lhe a possibilidade de uma relativa autonomia moral e intelectual” (1939. p. 46). No entanto, o argumento de Waizbort é de que a concepção do artigo tem uma profunda inspiração simmeliana, e, nesse sentido, a referência a Simmel não aparece na publicação.

O “Essai über den Snobismus”, publicado, como vimos anteriormente, graças ao apoio de Dunkmann e influenciado pelo grupo que orbitava por Vierkandt na Universidade de Berlim, teria sido republicado por Willems em 1939 na Revista do

Arquivo Municipal sob o título “A Sociologia do Snobismo”88 (WILLEMS, 1939) e seria, segundo Waizbort, um índice importante de como a sociologia de Simmel estava presente na obra de Willems.

O Dicionário de etnologia e sociologia também é lembrado por Waizbort, que aponta “inúmeros conceitos de impregnação simmeliana” (WAIZBORT, 2007. p. 23), apesar de, conforme citado acima, Simmel não ter figurado entre os autores mais citados pelo dicionário, com 11 aparições.

Por fim, Waizbort cita a referência à Simmel no prefácio da segunda edição de

Cunha: tradição e transição em uma Cultura Rural do Brasil, agora com o título Uma Vila Brasileira. Essa nova edição (que, como apresentarei no segundo capítulo, trouxe

mudanças substanciais devido às críticas que a publicação original recebeu) traz a referência da “sociologia simmeliana do conflito como uma das contribuições decisivas para o tipo de investigação” (WAIZBORT. 2007. p.23) que Willems realizaria. Waizbort questiona essa nova referência: “ilusão retrospectiva ou ocultamento germânico em uma

88 É curioso notar que este artigo parece ter sido esquecido pelo próprio Willems que, ao listar suas publicações, que acompanhava os seus três relatos autobiográficos (1983; 1993 & 2016), deixa de fora esse texto.

investigação em tempo de guerra? De qualquer forma, revelador” (Idem).

Além disso, conforme aponta Waizbort, ao pensarmos na recepção da obra de Simmel é importante associar outro nome da sociologia alemã. Segundo o autor,

A sociologia formal de von Wiese é sempre vista (...) em unidade com a sociologia formal de Simmel, como um continuador que sistematiza o que em Simmel ainda está desordenado e apenas sugerido. (...) Na revista Sociologia, em cujos inícios von Wiese aparece com destaque, ele é explicitamente caracterizado como sistematizador da sociologia simmeliana e como um continuador seu (...); em mesma medida, quando Simmel é criticado, ele o é em conjunto com von Wiese (WAIZBORT, 2007. p.20).

Dessa forma, considerando a proximidade que Willems tinha com a obra de von Wiese e o elevado número de citações do professor de Colônia, temos mais um indício do papel de Willems na difusão da sociologia simmeliana.