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A. Case assignment methods

2. Case assignment in the two models

A ideia de imaginário, ao longo da história ocidental, teve seu estudo enriquecido por teóricos cujas contribuições foram fundamentais para que a imaginação, a imagem e o símbolo deixassem de serem vistos como um elemento cultural sem importância. Nomes como Gaston Bachelard, Paul Ricouer, Henri Corbin e Gilbert Durand figuram como indispensáveis para o entendimento do imaginário como um campo de estudo de valor científico e apto a promover um olhar diferenciado sobre a cultura, a história, a filosofia, a ciência e outras áreas do conhecimento cujo interesse recai sobre o ser humano em sua totalidade ou em suas idiossincrasias. Assim, apenas o primeiro autor será visto nesse tópico, ficando o último para o item subsequente, já que ele é quem oferta mais conceitos, teorias e ideias para a análise literária comparada a que este trabalho de pesquisa se propõe.

Gaston Bachelard nasceu na França em 1884 e viveu até 1962. Foi filósofo, poeta e teve seus estudos voltados em grande parte para a filosofia da ciência, tendo publicado uma imensa obra sobre temas diversos. Os estudiosos de sua filosofia costumam dividir seus trabalhos em duas vertentes: a obra diurna e a obra noturna. Os escritos diurnos seriam os voltados para a epistemologia e a história das ciências. Já os textos voltados para a imaginação poética, os sonhos e devaneios figuram como noturna. São consideradas obras diurnas O novo espírito científico (1934), A formação do espírito científico (1938) e Filosofia do não (1940), por exemplo; já na lista das obras noturnas aparecem, para citar algumas, A psicanálise do fogo (1938), A água e os sonhos (1942), A terra e os devaneios da vontade (1948) e A poética do espaço (1957). O primeiro conjunto de trabalhos procura construir uma epistemologia das ciências, percorrendo caminhos da metodologia científica. Já o segundo grupo inaugura um novo olhar sobre a subjetividade humana: uma filosofia e uma poética da imagem, colocando a poesia em um lugar de destaque, já que é concebido também como uma forma de conhecimento:

Bem mais do que J.-Paul Sartre, Bachelard vai testemunhar a onipresença da imagem na vida mental, atribuir-lhe uma dignidade ontológica e uma criatividade onírica, fontes da relação poética com o mundo. Para G. Bachelard, com efeito, o psiquismo humano se caracteriza pela preexistência de representações imagéticas, que, intensamente carregadas de afetividade, organizarão imediatamente sua relação com o mundo exterior. Desse modo, a formação do eu pode seguir duas vias opostas: na primeira direção, o sujeito adquire pouco a pouco uma racionalidade abstrata ao inverter a corrente espontânea das imagens, depurando-as de toda sobrecarga simbólica; na segunda direção, ele se deixa arrebatar por elas, deforma-as, enriquece-as para fazer nascer uma vivência poética, atingindo sua plenitude no devaneio desperto. (WUNENBURGER, 2007, p. 18)

O imaginário, portanto, aparece como categoria indispensável para a análise de fenômenos relacionados à subjetividade do ser humano. A imagem, na obra bacherlardiana, alcança um status não considerado por outras epistemologias. Mais adiante, lê o seguinte:

A análise do imaginário pode, portanto, ser feita seja por uma via negativa, na ciência, que apreende a imagem sobretudo como uma fonte criadora. As imagens, que se impõem como obstáculos para a abstração, revelam-se em contrapartida positivas para o devaneio, que dessa maneira é o exato oposto da ciência, visto que “os eixos da poesia e da ciência são primeiramente inversos”. (WUNENBURGER, 2007, p. 18)

A imaginação apresenta, pois, um poder incalculável e é esse poder que é resgatado pela análise empreendida por Bachelard. As representações que emanam das imagens, longe de serem percepções passivas, apresentam um elevado potencial de significação e de energia transformadora que só pode ser total ou em parte aproveitado quando se dá à imagem o seu devido valor e atenção. Para esse teórico, as raízes da imaginação nascem de matrizes inconscientes, os arquétipos, que sofrem uma segmentação baseada em duas polaridades: uma masculina, chamada de Animus, e outra feminina, chamada Anima. A ação dessas polaridades vai levar o ser humano a receber/perceber as imagens ou em um sentido que tende para a luta e o afastamento, ou em uma postura pacífica de reconciliação ante tais imagens.

Para Bachelard, portanto, dever-se-ia unir poesia e ciência complementarmente e não vê-las de forma antagônica. O símbolo, muito presente na poesia, figura então como elemento de grande importância para a compreensão dos pressupostos bachelardianos, uma vez que, para o teórico, poesia e ciência têm o mesmo valor, embora uma trabalhe com a experimentação e a outra com a subjetividade. O símbolo promove um acordo entre o homem e o mundo, há entre ambos uma sintonia que transcende o plano físico, amparado em uma convenção cuja origem é difícil precisar. “O símbolo é um objeto que representa outro de forma analógica ou convencional, um sinal convencional através do qual se designa um objeto. A relação entre o símbolo e o objeto simbolizado é, assim, nesse sentido, convencional, exterior.” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006, p. 253). Os símbolos, sobretudo a partir dos quatro elementos essenciais, a água, a terra, o ar e o fogo, constituem o alimento da imaginação e, por consequência, têm relação direta e imediata com o imaginário. Símbolo e imagem, nessa visão, por vezes se identificam e mesmo se confundem. Uma leitura de imagem e símbolo é descrita nesses termos:

Imagens são a tentativa de captar o que existe, de torná-lo compreensível num aspecto especial. O que existe, a coisa, é o contraponto da imagem, assim como o pensamento figurado (em certo sentido, simbólico) se contrapõe ao pensamento objetivo (lógico). Cada imagem é, na verdade, uma cópia, seja do mundo exterior, seja do mundo interior. Por apresentar um sentido e exprimir uma unidade espiritual, a imagem também é símbolo. Mas temos um verdadeiro símbolo apenas onde se percebe, além do sentido próprio, um sentido mais elevado – e. g., na cor vermelha não apenas o sangue, mas também a vida. Podem-se distinguir diversas imagens, de acordo com sua densidade significativa: da cópia, passando pelo símbolo até o

arquétipo. A realidade dos conteúdos míticos e religiosos não pode ser verificada opticamente; por esse motivo, lhe é atribuído com freqüência com um caráter simbólico. (LURKER, 2003, p. 338)

Imagem, símbolo e imaginário, portanto, estão relacionados de modo visceral. Há, ainda que tacitamente, um acordo semântico entre esses três elementos, de forma complementar, em um intercâmbio de acepções e imprescindível imbricação.

O imaginário, por sua vez, em sua acepção, difere do delírio e da fantasia, ambos também com um potencial imagético singular, mas não tão merecedores de atenção e reverência qual o imaginário. O imaginário se desenvolve, pois, em torno de grandes temas e imagens universais, os quais, ao sabor de um tempo e lugar específicos, manifesta-se socialmente em várias esferas da vida cotidiana, seja no sagrado ou no profano, no erudito ou popular, no eclesiástico ou no secular. Em síntese, sua proposta consiste em uma mudança de paradigma: estudar o ser humano em sua capacidade de devaneio.