S 0 Tenseur des taux de d´ eformation
2.3. Cas des tissus mous 2 Equation d’ondes
A permeabilidade conquistada por Altenesch nas áreas do projeto e construção em Aracaju, como agente de difusão de modernidades técnicas e estéticas, não ficou restrita aos objetos arquitetônicos e da engenharia civil. Seu nome, que fortemente se vinculou a uma alta competência técnica e apreço estético, foi cotado para integrar comissões que revelam a confiança depositada no alemão pelo poder públicos e instituições sergipanas.
197
Ao que parece, as obras do Santuário Nossa Senhora Menina foram iniciadas no inicio dos anos de 1940, como indica notas sobre o arrecadamento de fundos para a sua construção em edições do jornal Folha da Manhã (Cf. DONATIVOS para as Obras Diocesanas. Folha da Manhã, Aracaju, 5 jan. 1940, ano II, n. 563, p. 4.; DONATIVOS para as Obras Diocesanas. Folha da Manhã, Aracaju, 15 fev. 1940, ano III, n. 595, p. 1). O Santuário foi inaugurado em setembro de 1942 (Cf. FESTA do Santuário Nossa Senhora Menina inicia hoje. Infonet, Aracaju, 5 nov. 2017, Disponível em: < http://www.infonet.com.br/noticias/cultura/ler.asp?id=204552> Acesso em: 14 fev. 2018). Sobre o Palácio de Veraneio do Governo na Atalaia não foi possível encontrar dados mais precisos sobre o início de suas construções e mesmo sobre sua inauguração, mas esteve em construção ao menos entre final de 1939 e início de 1941, como foi possível identificar em documentos referentes a recibos e folhas de pagamentos da Repartição de Obras Públicas do Estado disponíveis no Fundo de Obras e Viação V2, volume 06, no APES.
A primeira das atividades, considerada a questão cronológica, que revela esta atuação para além do projeto e da construção, é o seu envolvimento na elaboração da reforma do Código de Posturas de Aracaju. O nome de Altenesch, junto com Fernando Figueiredo Porto, Corintho Pinto de Mendonça e Aristides Araújo, aparece no Ato nº 38 de 10 de setembro de 1935, assinado pelo prefeito de Aracaju Godofredo Diniz Gonçalves, em que é nomeada comissão para elaboração do anteprojeto do Código de Posturas da cidade198. Este Ato justifica a criação da comissão pela necessidade de uma ―legislação moderna que melhor coadune com as condições e tendências do meio‖199
. No Ato há a indicação de que alertas acerca da necessidade de elaboração de uma nova legislação urbanística haviam sido feitos por ―urbanista de renome‖, ―de acordo com prescrições modernas de urbanismo‖. Este urbanista foi o engenheiro paulista Lisandro Pereira da Silva, que esteve em Aracaju para contribuir, junto à prefeitura de Aracaju, com as diretrizes do novo Código200. Engenheiro da Prefeitura de São Paulo, Lisandro realizou na manhã do dia 21 de julho anterior à publicação do Ato nº 38, no Teatro Rio Branco, uma conferência intitulada ―Problema de Urbanismo‖201
, em que apontou as problemáticas percebidas por ele na cidade e cujo discurso refletiu as orientações deixadas por ele para a elaboração da reforma no Código202,203. Em outubro do ano seguinte, 1936, foi publicado o anteprojeto, em cujo enunciado se confirmou a composição original da comissão e o fato de que estes teriam realizado adaptações e ampliações nas propostas de reforma sugeridas pelo engenheiro paulista204. Dois anos depois, em 26 de outubro de 1938, a reforma do Código de Posturas foi finalmente aprovada, substituindo o vigente, de seis de setembro de 1926. Esta aprovação se deu após aquele anteprojeto proposto pela comissão ter sido discutido
198
SANTOS, 2002, p. 41.
199
ARACAJU. Prefeitura Municipal. Ato nº 38 de 10 de setembro de 1935. Nomeia comissão para elaborar o ante-projeto do Codigo de Posturas do Municipio. Actos do Governo Municipal e Leis e Resoluções da Camara Municipal, Aracaju, Est. Graph. J. Lins de Carvalho, 1936, p. 33.
200
SANTOS, 2002, p. 42; Id. Práticas e apropriações na construção do urbano na cidade de Aracaju/SE. 2007. 144 f. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente) – Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2007, p. 122.
201
PROBLEMA de Urbanismo. O Estado de Sergipe, Aracaju, 21 jul. 1935, ano III, n. 677, p. 1.
202
DR. LYSANDRO Pereira da Silva. O Estado de Sergipe, Aracaju, 23 jul. 1935, ano III, n. 678, p. 1.
203
O discurso do engenheiro paulista Lisandro Pereira da Silva foi publicado na íntegra pelo jornal O Estado de Sergipe, dividido nas seis edições do jornal publicadas entre os dias 27 de julho e 02 de agosto de 1935, sob o título ―Problemas de Urbanismo‖.
204
ARACAJU. Prefeitura Municipal. Projeto do novo Código de Posturas. O Estado de Sergipe, Aracaju, 16 out. 1936, ano IV, n. 1033, p. 3; ARACAJU. Prefeitura Municipal. Projeto do novo Código de Posturas. O Estado de Sergipe, Aracaju, 20 out. 1936, ano IV, n. 1037, p. 3.
na Câmara Municipal e a ele terem sido acrescidas ―pequenas alterações de detalhe‖205
. Este Código foi o primeiro elaborado para a Aracaju a ser incluída a ideia do zoneamento da cidade pela definição de perfis prioritários de atividades para ocupação por cada zona, criando as zonas comercial (ZC), industrial (ZI), residencial (ZR) — subdividida em três zonas ZR1, ZR2 E ZR2 — e rural e agrícola (ZA). Não ficam expostos nos documentos encontrados, os atos e decretos governamentais, o peso da participação de cada um dos integrantes da comissão. Logo, a contribuição de Altenesch não pode ser dissociada da contribuição dos outros três integrantes da comissão.
Também no ano de 1935, quando se deu a nomeação do alemão para a comissão do Código de Posturas, foi ele convidado para compor outra comissão, desta vez aparentemente em função mais breve e pontual, mas por isso não menos indicativa da credibilidade conquistada pelo alemão na elite intelectual de Aracaju. Refere-se aqui à sua participação como membro do júri do 2º Salão Mixto de Artes. Junto com o escultor Gatti, o professor José Augusto da Rocha Lima, o poeta Arthur Fortes e o jornalista Zozimo Lima206, compôs a comissão que avaliou e premiou trabalhos artísticos de variadas categorias. A exposição, realizada no salão de danças do Recreio Clube, foi iniciada no dia primeiro de setembro207, e contou com trabalhos de pinturas, desenhos, esculturas, cartografias e peças de artes decorativas e aplicadas. Mais duas edições deste salão de mostras artísticas foram identificadas208, contudo, nestas não há registro da participação de Altenesch.
A terceira e última comissão identificada a que se associa o nome do engenheiro alemão foi aquela que seria responsável por dar início às atividades de reconhecimento e controle dos bens de valor históricos localizados em São
205
ARACAJU. Prefeitura Municipal. Decreto-Lei nº 37 de 26 de outubro de 1938. Aprova a reforma do Código de Posturas do Município de Aracajú. Decretos-Leis 1938. Aracaju, Papelaria Lins, p. 37, 1939.
206
2º SALÃO Mixto de Artes. Correio de Aracaju, Aracaju, 6 set. 1935, ano XXIX, n. 418, p. 1.
207
2º SALÃO mixto de artes. O Estado de Sergipe, Aracaju, 1º set. 1935, ano III, n. 711, p. 2.
208
A primeira edição do Salão Mixto de Artes foi organizada pelo pintor José Freire Pinto. Realizada durante a primeira semana do mês de setembro de 1934 em prédio da Rua Pacatuba, expôs trabalhos de pintura, cartografia, arquitetura, escultura e artes aplicadas (Cf. 1º SALÃO Mixto de Artes. O Estado de Sergipe, Aracaju, 2 set. 1934, ano II, n. 434, p. 4; FOI encerrado domingo, o 1º Salão de Arte Mixta. O Estado de Sergipe, Aracaju, 11 set. 1934, ano II, n. 440, p. 2). Sobre a edição do salão para o ano de 1936, apenas se identificou que a sua realização foi igualmente no início de setembro, e que o salão ocupado, desta vez foi aquele do edifício da Maçonaria. Cf. NOTICIARIO. Diario Official do Estado de Sergipe, Aracaju, 9 set. 1936, ano XVIII, n. 6565, p. 2089.
Cristóvão, a antiga capital do estado de Sergipe209. A cidade havia sido elevada à categoria de monumento histórico por Decreto-Lei 94 do Interventor Eronides Ferreira de Carvalho em 22 de junho de 1938, como primeiro desdobramento em Sergipe da política de proteção do patrimônio histórico e artístico nacional instaurada pelo presidente da República Getúlio Vargas com o Decreto-Lei 25 de 30 de novembro de 1937210. A comissão em questão era formada pelo bacharel José Calasans, por Altenesch, pelo secretário da Prefeitura Gabriel Dantas, servindo de secretário, e o secretário da Justiça e Negócios do Interior do Estado Manuel de Carvalho Barroso, que ocuparia a posição de presidente da comissão. À comissão foram designadas as funções de:
[...]
a) Registrar e catalogar todos os edifícios, peças de mobília, etc., etc., de reconhecido valor histórico, arquitetônico e arquitetônico- religioso;
b) Paralizar o processo de destruição e deterioração dos objetos registrados;
c) Conservar ou restaurar todos os edificios, partes de edificios, peças de mobília, quadros, etc., etc., de acordo com as possibilidades e necessidades;
d) Pesquisar sobre a historia regional, com relação aos edificios, peças de mobília, quadros, etc., etc., como sobre personalidades legendárias, relacionadas ao local ou aos objetos em questão; e) Tratar de descobrir o plano primitivo da cidade de São Cristóvão,
ou projetar um novo plano que se enquadre no primitivo indicado pela disposição dos prédios antigos principais;
f) Rever o código de obras da cidade de São Cristóvão, modificando-o, se fôr necessário, para adaptá-los os trabalhos da comissão;
g) Aprovar as plantas de todas as construções que deverão obedecer, assim, a uma rigorosa estilização [...]211
A Altenesch competiriam especificamente as ―pesquisas arquitetônicas e arquitetônicas construtivas, conservação e restauração dos edifícios, peças, etc.‖. Não foram encontradas informações posteriores ao lançamento da comissão que indicasse avanços dos trabalhos e envolvimento efetivo de Altenesch. Excetuando- se texto na edição da Folha da Manhã — do mesmo dia do lançamento da
209
SERGIPE. Secretaria da Justiça e Negócios do Interior. Instruções N. 1. Diario Oficial do Estado de Sergipe. Aracaju, 12 jul. 1938, ano XX, n. 7346, p. 2059.
210
SANTOS, Magno Francisco de Jesus. Um intelectual a serviço do patrimônio: José Calasans e as políticas do SPHAN em Sergipe. In: Samuel Albuquerque (Org.). José Calasans e Sergipe. Aracaju: IHGSE; São Cristóvão: Editora UFS, 2016, p. 152-176, p. 156.
211
SERGIPE. Secretaria da Justiça e Negócios do Interior. Instruções N. 1. Diario Oficial do Estado de Sergipe. Aracaju, 12 jul. 1938, ano XX, n. 7346, p. 2059.
publicação sobre a comissão no Diário Oficial, em 12 de julho de 1938 — em que é afirmado que esta comissão começaria os trabalhos preliminares em São Cristóvão em dois dias212, nenhum outro indício destas atividades foi encontrado.
Quando, em agosto de 1939, Sergipe recebeu a visita de Rodrigo Melo Franco de Andrade, o diretor do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), apenas o nome de José Calasans aparece como integrante da comissão a acompanhar o visitante em viagens para São Cristóvão e outras cidades do interior do estado213. Em setembro daquele ano Altenesch estaria deixando Sergipe para cuidar da saúde, e, possivelmente, por já se encontrar adoecido, estivesse afastado das atividades da comissão. Ao que parece, apenas em 1941, quando o Interventor Eronides nominou Calasans delegado do SPHAN em Sergipe é que os monumentos sergipanos passaram a ser de fato reconhecidos, identificados e listados para um processo de proteção214. É possível, como sugere o Professor Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, que aquela comissão criada em 1938 não tenham completado suas atividades de fato215, adiando assim, para anos seguintes algumas de suas atividades, excluindo a possibilidade da participação mais efetiva e duradoura de Altenesch.
Ainda que não seja possível atestar a participação do alemão nos trabalhos incumbidos à comissão para São Cristóvão, o fato de ter sido escolhido entre outros profissionais do projeto e da construção em Sergipe é mais uma pista do forte laço entretecido entre ele e o poder público. À época da formação desta comissão, Altenesch já estava com trabalhos adiantados na reconstrução da antiga cadeia, renomeada ―Palácio Serigy‖, e a vinculação a estes dois projetos do governo de forma paralela parece revelador de uma parceria fortemente estabelecida.
212
PARA execução do Decreto-Lei sobre São Cristóvão. Folha da Manhã, Aracaju, 12 jul. 1938, ano I, n. 132, p. 1.
213
O diretor do SPHAN esteve em Aracaju, acompanhado do arquiteto e assistente técnico daquela instituição José de Souza Reis e de Eurico Hess, auxiliar técnico, entre os dias 10 e 17 de agosto de 1939. Juntamente a José Calasans eles viajaram para São Cristóvão, Estância, Santa Luzia, Divina Pastora, Maruim, Santo Amaro, Itaporanga, Socorro e Laranjeiras, a fim de realizar um reconhecimento de bens de valor histórico nacional em Sergipe. Cf. EM SERGIPE o dr. Rodrigo Melo Franco, diretor do Serviço de Patrimonio Historico e Artístico Nacional. Folha da Manhã, Aracaju, 13 ago. 1939, ano II, n. 449, p. 1; NOTICIÁRIO. Diario Oficial do Estado de Sergipe, Aracaju, 11 ago. 1939, ano XXI, n. 7655, p. 2147; NOTICIÁRIO. Diario Oficial do Estado de Sergipe, Aracaju, 12 ago. 1939, ano XXI, n. 7656, p. 2167; NOTICIÁRIO. Diario Oficial do Estado de Sergipe, Aracaju, 15 ago. 1939, ano XXI, n. 7658, p. 2186; NOTICIÁRIO. Diario Oficial do Estado de Sergipe, Aracaju, 18 ago. 1939, ano XXI, n. 7660, p. 2202.
214
SANTOS, 2016, p. 159
215
SOUTELO, 2004 apud SOUZA, Fábio Silva. Breve reflexão acerca da identidade cultural: A questão patrimonial no Brasil e em Sergipe. Canindé: Revista do Museu de Arqueologia de Xingó. MAX, Universidade Federal de Sergipe, n. 5, p. 147-161, 2005, p. 154.
Interessante observar também que a participação nas outras duas comissões anteriormente indicadas, para a reforma do Código de Posturas e no júri do Salão Mixto de Artes, se dão em 1935, quando suas arquiteturas públicas de maior relevância ainda não estavam construídas. Este fato parece ser indicador da capacidade de integração social e particularmente, da eficácia das estratégias publicitárias utilizadas pelo alemão nos três primeiros anos de sua atuação em Aracaju, em que o ano de 1935 está incluso. O discurso publicitário associado à difusão de modernidades estéticas e técnicas parece ter sido a fórmula ideal para o sucesso de Altenesch em terras sergipanas.