Perception et association de modalit´ es
2.2 Cas g´ en´ eral de l’int´ egration et d’interactions multisensorielles
Sendo a presente investigação centrada na problemática do Ensino de Canto, a qual compreende a inter-acção de dois intervenientes: professor/aluno, foi efectuada uma análise dos dados respeitantes aos pensamentos que os inquiridos têm acerca dos seus alunos. Foram tidas em conta, também, algumas
considerações tecidas pelos professores que, de alguma forma, se revelaram importantes para a sua forma de pensar e para a elaboração dos seus juízos pessoais.
Segundo a perspectiva dos sujeitos inquiridos, o aluno poderá ser considerado como um interveniente imprevisível, cuja receptividade ao ensino se prenderá com os mais diversificados factores inerentes à sua própria personalidade e sentido crítico, aliados ao relacionamento que mantém com o seu professor, embora se possa defender que «… a receptividade a um ensino mais cuidado é sempre boa.» (Nogueira, III.xxxi)
… os resultados são mais do que meramente satisfatórios! A questão muitas vezes é a de saber gerir a informação que se pretende partilhar. É o lado psicológico e pedagógico da questão! Perceber quem é a “pessoa/aluno” que se tem pela frente, perceber como motivá-lo para a informação que se vai partilhar, por exemplo se se está a ser demasiado complexo, demasiado científico, demasiado detalhado, de acordo com o nível etário e de aprendizagem do próprio aluno em questão. A questão é que, mais tarde ou mais cedo, essa informação venha de facto a ser transmitida, quer ao longo das aulas práticas, quer através de uma cadeira específica, que é a didáctica, criada especialmente para partilhar essa informação. (Salgado, II.vii,viii)
Eu acho que [a receptividade a este tipo de ensino que compreende uma dimensão científica] é boa, mas depende de cada um. Essencialmente é muito polémico, no ensino individual. Desde que haja bom relacionamento entre professor e aluno as coisas correm bem, mesmo quando este professor não está a ser correcto. Passa para o aluno uma certa certeza, e não pode ser de outra maneira, e aí é que está o perigo, às vezes, e que depois se vê quando há diferenças. A ignorância, nesse aspecto, é tremenda, e quando se tem contacto depois com outras visões, há a comparação do aluno. Eu penso, que a receptividade do aluno para com o professor, se for hermética, é um problema; se não houver outras comparações é um problema. Eu costumo dizer: pensamos antes de cantar e pensamos depois de cantar para saber o que é que se fez. É a minha visão. (Taveira, II.xlviii,xlix)
Caso fosse pretensão deste estudo a realização de uma caracterização minuciosa das reacções dos alunos a este ou aquele tipo de metodologia, e sendo a sua
receptividade ao ensino muito desigual71, esta categoria de codificação poderia facilmente ser convertida numa família de códigos. Ainda que esse não seja, de todo, objectivo primordial, a análise ao modo como os alunos são vistos de acordo com a perspectiva dos inquiridos será facilitada pela introdução de novos códigos, pertencentes à sexta categoria de codificação, a qual foi designada por Pensamentos do sujeito.
A visão dos inquiridos passa por enquadrar os alunos nestes parâmetros, observando-os de acordo com a sua capacidade de reacção ao que lhe é transmitido, reacção essa que irá condicionar o modo como decorrerá o processo ensino-aprendizagem, uma vez que se trata de ensino individualizado.
Alguns dos códigos poderão ser qualificados como: «Os que gostam de saber»; «Os que não se apercebem»; «Os que se confundem»; «Os que ficam bloqueados»; «Os que atingem o equilíbrio».
2.2.6.1.1. Os que gostam de saber
Há alunos que tem muita curiosidade em perceber os pressupostos científicos que justificam uma certa maneira de cantar. (Ly, III.xix)
Os alunos gostam de perceber o que fazem e, portanto são receptivos ao ensino que se baseia em aspectos científicos. No entanto necessitam de “tratamento individualizado” e neste tipo de ensino cada caso é um caso e temos que dar resposta a todos. (Melo e Silva, III.ix)
2.2.6.1.2. Os que não se apercebem
Eles vão vencendo as dificuldades e só mais tarde é que sabem; quando já venceram muitas das dificuldades é que eles vão saber o porquê das coisas,
numa altura em que não lhes faz confusão porque já as venceram. Nessa altura já podem aperceber-se da parte técnica porque a prática já está vencida. (Troufa, II.xl)
[É] … necessário, sobretudo no início da aprendizagem que o aluno esteja “despreocupado” dessas noções, que o podem condicionar na espontaneidade que deve presidir a uma boa e sã emissão vocal. (O. Lopes, II.xxxii)
… nunca foi minha intenção “bombardear” os alunos com este tipo de informação porque considero que num nível elementar não é de todo necessário utilizar uma terminologia científica. (Ly, III.xx)
2.2.6.1.3. Os que se confundem
A utilização exclusiva de tal terminologia [científica] pode até ter um efeito nocivo no estudante, que pode ter uma postura demasiado reflexiva o que impede de certa forma a sua disponibilidade mental e física para realizar o que o professor solicita. (Ly, III.xx)
[Alguma terminologia científica serve] … apenas para confundir e preocupar os alunos, retirando-lhes espontaneidade, auto-confiança, carregando-os de quotiliquês supérfluos e que em nada lhes permitirá melhores prestações… (O. Lopes, II.xxxiii)
2.2.6.1.4. Os que ficam bloqueados
… há alunos que ficam bloqueados sempre que haja demasiadas explicações, outros, nem tanto. (Ly, III.xix)
… eu acho que o professor tem de saber o que está a fazer, mas pessoalmente acho que, no princípio, quanto menos o aluno souber melhor. Vamos levá-lo pela intuição. Há coisas básicas que devemos explicar, mas já temos que explicar tantas coisas ao mesmo tempo! O Canto não é como os outros instrumentos em que se fala progressivamente: hoje fala-se numa coisa, amanhã fala-se noutra; no Canto, infelizmente, tem que se falar de muita coisa ao mesmo tempo, e se ainda vamos juntar a isso este problema, o que vai acontecer quando fizermos isto? O aluno fica de tal maneira bloqueado que não emite um som. (Troufa, II.xxxix)
2.2.6.1.5. Os que atingem o equilíbrio
… tem que haver uma “libertação” a certa altura para que a espontaneidade não seja afectada.
… depende de cada pessoa e como reage. Pode haver progresso mas pode haver também em certos casos demasiada concentração o que causa a falta de espontaneidade. Há que haver um equilíbrio que é conseguido com muito treino. (Silva, III.xiv,xv)
Considero que relativamente a este aspecto o meu professor era mestre, porque só intervinha quando de facto era necessário, não perturbando a energia dos alunos nem o saudável decorrer da aula. (Ly, III.xix)
Se tudo isto estiver claro na cabeça do aluno, será muito mais fácil para ele realizar o desempenho muscular pretendido, e até de processar o trabalho muscular a realizar por pura mentalização: o pensamento a treinar o corpo. Evidentemente que a acção muscular tem que ser feita, e deve ser treinada para se criar a memória muscular correspondente, o músculo tem que ser activado, mas a compreensão cerebral de um processo é fundamental, e eu penso que isto também é o que o lado científico traz: o mapeamento do nosso corpo e a compreensão do fenómeno vocal. (Salgado, II.ix)