3.2 Spectre étendu d’un opérateur
3.2.4 Cas d’opérateurs avec spectre ponctuel riche
Heimat e comida Heimat e costumes Heimat e personalidade Heimat e nacionalidade
Para que se tenha uma ideia de como essas relações puderam ser deduzidas da interação, convém retomar o trecho 1, apresentado anteriormente na seção de análise, o qual se encaixa muito bem no item “Heimat e costumes”:
001 A1: ˇja,=
002 =aber so was ↓Engt natürlich ahm vielleicht im im ERSTen moment schon ein bisschen ein;=
003 =da hatte ich in den Ersten wochen HIER schon das gefühl;=
004 =<<all> das ist ↓OAH;> 005 =es sind alle so NETT;= 006 =und alle sind soFORT;=
007 =<<acc,f> oh wir umARmen uns und alles;>
008 und irgendwie fällt mir das <<all> ist mir das> SCHWER gefallen.=
009 =weil ich (es) einfach irgendwie keine Ahnung (-) ACHTzehn jahre lang einfach nicht nicht so hAtte;= 010 =also es [ist nicht so dass] meine eltern mich nie
um↑ARMT haben;=
011 A2: [((ri)) ]
012 A1: =odEr h° mich nie: (.) WEIß ich nicht;=aber; 013 ts JA;
014 (-) und ich glaube in de in dEm (.) sinn (.) engt das schon manchmal ein bisschen (.) ein bisschen EIN;
Esse trecho fora utilizado para ilustrar o status intercultural da interação filmada, tendo A1 explicitado sua perspectiva como estrangeira em relação ao costume de dar abraços
no Brasil. De volta à questão dos frames, embora A1 não tenha feito uso de recursos narrativos (como no caso do discurso direto, por exemplo) para comentar a questão do abraço, percebe-se ainda assim a presença de traços em sua fala que remetem a experiências pessoais. A saber, existe a referência óbvia na linha 3 ao fato de que A1 se encontra em solo estrangeiro – a dêixis local se mostra pelo uso de hier (aqui), enquanto a referência temporal é feita pelo adjunto adverbial de tempo in den ersten Wochen (nas primeiras semanas [de intercâmbio]). Além disso, em vez de neutralizar seu discurso com o pronome man (o qual em português indetermina a qualificação do sujeito: “se”) e, dessa forma, atribuir sua fala a qualquer pessoa, A1 faz questão de usar o pronome ich (eu) e, com isso, apresentar a sua versão dos fatos – apresentar, mesmo sem relatos ou histórias, experiências pessoais que são importantes para a argumentação da participante.
Já em relação ao item “Heimat e nacionalidade”, segue o trecho abaixo:
Trecho 7: ((43:26 – 43:57min, Questão 4: Você possui algum tipo de vínculo
emocional com a sua pátria, seja ela qual for? Tente definir esse vínculo. B2 apresenta sua experiência como estrangeira em Versalhes))
001 A2: [ja. ] (é)
002 B2: [<<all> und das ist>] <<all> auch KOmisch;>= (e isso também é estranho)
003 =weil (.) <<all> zum BEIspiel;>= (porque por exemplo)
004 =als ich <<len, h> in verSAlhes war,> (quando eu estava em versalhes)
005 A1: hm_HM,
006 B2: ↑dAnn (.) man hat diese: ah spezifische: linien für (.) euroPÄIsche.
(aí você tem essas ah linhas específicas para europeus) 007 A1: ↑WIRklich;
(sério)
008 B2: [<<p, olhando para baixo> ja es (hat)->] (é tem)
(ah isso acon)
siert SEHR oft in [frankreich.] (tece frequentemente na frança)
010 B2: [<<f> und> ] [´DES`halb; ] (e por isso)
011 A1: [ah (.) KRASS.] (ah que isso)
012 B2: <<all> und dEshalb würde ich> [SAgen; ]= (e por isso eu diria)
013 B1: [ist eine ] [WARteschlange.]
(é uma fila)
014 B2: =[ich bin mich ] (eu não)
[n NICHT da in hEimat; ] (estou na pátria)
015 A1: [<<para B1, sussurrando> habe ich NIE gesehen.>] (eu nunca vi)
016 B2: [weil ich (.) nicht ↓TEIL davon bin.] (porque eu não faço parte disso)
017 A1: [°hhh ] 018 [ja:. ] (é) 019 A2: [hm_HM.] 020 A1: [ja.] 021 A2: [ja.]
022 B2: (-) ich (.) <<len> geHÖre nicht;> (eu não pertenço)
023 dann:; (então) 024 A2: ja;
025 B2: <<all, p> ich geHÖre nicht zu;>= (eu não pertenço)
026 =<<pp, levanta os ombros> dann,> (então)
(ah que isso) 028 B2: ja.
029 A2: hm::
030 B2: <<f> das ist> äh/also (.) <<f, palmas das mãos estendidas para frente> du bist nicht europäisch;>
(isso é äh então você não é europeu) 031 <<polegares para cima> oQUEI?>
Aqui, as participantes discutem mais uma vez como definir Heimat, mas com foco específico em um tema proposto por B1: “a Europa pode ser considerada Heimat?”. Depois de algumas contribuições, B2 afirma ser Heimat melhor definido quando relacionado ao termo ‘nação’ e, com base nesse raciocínio, inicia um relato de quando estava na cidade de Versalhes, na França. Como se pode perceber ao longo do trecho acima, B2 se qualifica como não europeia, isto é, um sujeito que não possui um passaporte europeu e, por isso, distingui-se daqueles que o possuem – como no caso de filas separadas. Tal autodenominação pode ser observada, por exemplo, nas seguintes expressões: weil ich nicht teil davon bin (porque eu não sou parte disso [da Europa]) ou ich gehöre nicht (eu não pertenço [à Europa]). Mais interessante é notar como a brasileira ironiza seu status ao simular, nas linhas 30 e 31, uma fala que a desqualifica exatamente por não ser europeia – du bist nicht europäisch oquei (você não é europeia, ok?). O aumento da intensidade da voz, juntamente com o gesto de “enquadramento” (possivelmente uma referência metafórica a um quadro ou outdoor em que estaria escrito justamente o que B2 vocifera) servem como pistas focais para a contextualização pejorativa da nacionalidade de B2.
Com base nos exemplos expostos acima, vale ressaltar que o raciocínio analítico aqui construído parte do princípio de que grande parte do insumo que constitui o(s) frame(s) atrelado(s) ao uso do termo Heimat advém de experiências pessoais das participantes entrevistadas. Entretanto, esses frames não contêm somente informações que remetem às vivências de cada sujeito, como se verá logo a seguir. Antes de se passar para o próximo tópico, porém, faz-se necessário salientar que não se pretende com a lista acima ilustrada postular de maneira categórica os frames que dão sentido aos termos pátria e Heimat no Brasil e na Alemanha. Na verdade, a coleção de frames desse trabalho foi realizada com foco
específico nos objetivos interacionais das participantes filmadas e, desse modo, com atenção especial à negociação de sentido promovida in loco. Como já dito anteriormente, tem-se como resultado não só uma lista de frames compreendidos em isolamento, mas sim um complexo esquema de referência construído em conjunto – por brasileiras e por alemãs.
4.3.3.2 Variação informacional nos frames de Heimat
Com efeito, as transcrições sugerem que os frames em análise se pautam também em referências que vão além da experiência pessoal – que, na verdade, estão mais atreladas a preconceitos ou a visões tradicionais e convencionais em relação à temática da pátria. Bem como no caso da lista 1 (acima), coloca-se a lista 2 abaixo como uma possível segunda camada de temas discutidos em relação a Heimat:
Lista 2: relações entre tradição histórica e Heimat