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Cas cliniques

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Serafim parou o carro ao largo da estrada de terra batida. Estávamos cerca de um quilômetro longe da cidade. Abrimos as portas do carro e nos pusemos a andar. Eu, de braços dados a Joana e Maria. Logo mais a frente, ia Manuel de braços com Lourdes, consultando a cada passo dado com sua bengala, os obstáculos mais próximos.

Lourdes andava com dificuldade e reclamava baixinho do ritmo das passadas de Manuel. Veio à tona novamente e falou sobre algo recorrente em suas poucas intervenções:

- Eu não ando só não. O pessoal tem que andar comigo. Não aprendi a andar só.

Lourdes se referia a algo importante no processo de educação dos cegos. Nas escolas especializadas, não se aprende apenas o código Braille. Aprende-se também a como se locomover usando bengalas. Sem ter se exposto a este processo educacional, Lourdes precisava de companhia para locomover-se em espaços abertos.

Mais adiante, eu via as enormes pedras empilhadas do sertão. Eram inúmeros os agrupamentos de pedras roliças, equilibradas caoticamente umas sobre as outras, pontuando o vazio do deserto.

Os quatro irmãos passaram a reconstruir, para mim o trajeto que um dia os levou até um destes amontoados. Descreviam as cercas ao longo do caminho, as matas espinhosas e os restos da coivara, ao longo da estrada. Todos os irmãos cegos juntos, seguidos pelo pequeno Antão.

No correr da caminhada, senti-me instalado simultaneamente em vários espaços. Havia aquele no qual meus pés pisavam a terra seca e socada, capaz de transferir para minhas solas o calor acumulado do dia. Era um espaço instaurado no absoluto presente, no qual a brisa soprava em meu rosto seu hálito morno. Aquele espaço, entrava em minha pele de forma aguda e fina como se fossem os espinhos da palma. Sobreposto e entrelaçado a este lugar concreto havia um outro, mais diáfano, porém não menos presente. Era aquele que surgia em minha mente, enquanto meus companheiros de caminhada reconstruíam as ambiências daquela tarde, perdida no passado. Via, a um só tempo, o caminho que percorríamos e aquele outro, descrito por eles.

Eu me reparava construindo em minha mente cercas, matas, crianças e coivaras. No instante em que cada uma das palavras era pronunciada, surgia uma imagem correspondente, por mais que não houvesse percorrido aquele caminho cercado, visto aquelas crianças e aquela coivara. Para cada palavra, surgia uma imagem e para cada frase, um cenário.

Aquele passado vivido por eles era possível de ser comunicado para mim. Eles me induziam a ver o desenrolar daquela tarde. A narrativa que ouvia provocava o surgimento

de inúmeras cenas em minha mente. Porém, pensei, o que se formava diante de mim não era aquele passeio originário. Existia um vácuo entre o que eles descreviam como sendo o que viveram e os substratos que eu era capaz de extrair do relato. Tudo ecoava de forma absolutamente desgarrada daquilo a que se referiam: eu paria as minhas próprias crianças e a minha própria coivara.

Nós nos comunicávamos exatamente quando eu evocava para meu corpo, até o caroço de meu espírito, as minhas próprias experiências. Ao ouvi-las, eu me transportava para uma outra estrada, segurava as mãos de outras crianças, e sentia o cheiro de outro mato queimado. Era portanto na despossessão, na perdição, no desvio inevitável dos conteúdos, que uma comunicação entre nós se estabelecia87.

Para que alguém de fato comunique algo para outrem é preciso que não tenha sentimento de posse sobre o que irá dizer. É preciso que perca antecipadamente o desejo de controle sobre o que diz. Pois aquilo dito só chegará a alguém se for capaz de se desviar, de se perder nas peculiaridades dos outros corpos. Não há in-formação sem com-formação, pensei.

Mas... que imagem viria à mente de meus interlocutores, ao evocarem as marcas de uma vivência passada? Pois, para que uma lembrança surja é preciso que algum fato tenha cravado suas garras, deixado alguma cicatriz, alguma marca, em algum lugar do espírito.

87 O modelo de canal comunicativo criado por Shannon, (citado em notas anteriores) caiu por terra com os avanços da

cibernética e das ciências da computação. O criador do computador, Alan Turing, define computação como sendo o “tratamento de signos”, portanto, uma ação de transformação da informação recebida. Sob este ponto de vista, o receptor, anteriormente visto como suporte passivo para a mensagem de um emissor, ganha outros contornos. Na trilha deixada pela cibernética, Edgar Morin, usa o termo “computação” para referir-se a toda atividade de troca entre indivíduo e meio. O indivíduo “computa” , “trata”, “re-elabora” aquilo que lhe chega, a partir das estruturas biológicas, lingüísticas, psíquicas, sociais, todas pré-existentes ao indivíduo. Para Morin, o indivíduo seria uma ação computacional, pois ele não é passivo sequer para as estruturas das quais é herdeiro. Ele, o indivíduo, reposiciona a informação genética, reposiciona a língua, reposiciona tradições culturais. Neste sentido, o indivíduo nunca seria um emissor ou um receptor puro. É o que parece ficar claro quando Tomé diz que era “na despossessão” no “desvio inevitável dos conteúdos”, que se dava a comunicação entre ele e seus companheiros cegos. (MORIN, Edgar. O Método III- O Conhecimento do Conhecimento. Porto Alegre: Ed. Sulina, 1999. p. 50 -79)

Como o mundo teria cravado suas garras, como teria deixado seus vestígios em Maria e Manuel, em Luzia e Joana?88

Ao longe, eu ouvia o cantar de um pássaro e o roçar de galhos ressecados balançando ao ritmo da brisa rala e inconstante. Cruzamos, então, a cerca que separava a estrada das amplas planícies abertas. Havia, aqui e acolá, pontuando o grande vazio, grupos de árvores muito baixas e ressecadas, sem qualquer folhagem, assemelhadas a arbustos. Cortando o raso, delimitando supostas propriedades, corriam longuíssimos muros de pedra, da altura de meu joelho. Joana rompeu o silêncio:

- Veja, Tomé... aqui o espaço é tão amplo, não é? - Sim... não há paredes, tetos ou qualquer tipo de borda.

- Mas eu acabei de criar algumas. Já tenho as minhas bordas, os meus anteparos. Aqui, há um lugar de vento, uma trilha de vento na qual eu estou sintonizada. É um lugar, um espaço definido.

Novamente fechei os olhos. Desta vez os manteria fechados até quando não mais suportasse. Para orientar-me em meio àquela vastidão que acabara de abandonar-me, meu corpo se encrespava de tensão. O tropeço era eminente e minha atenção passou a amparar- se no som. Não me parecia existir muitos sons. Senti-me isolado. A brisa envolvia tudo em um uníssono. Porém, para Joana não havia uníssonos. Tudo possuía vozes específicas ao nosso redor:

88 Tomé constrói uma imagem próxima daquilo que de fato ocorre a nível neurofisiológico. Não se trata de uma imagem

integral, o que se imprime em nosso sistema cortical quando vivemos algo. Não memorizamos a percepção em seu conjunto. Apenas gravamos “certas marcas”, nos diz Edgar Morin. A partir destas marcas, reconstruímos uma certa vivência. Estas “marcas mnésicas” não possuem localidade, não estão estocadas em algum ponto do espaço cerebral. O que gravamos não são as representações do mundo. Gravamos, porém, a ação, o ato instantâneo de nossa computação. Recuperando o processo computacional, nos advém o aparecimento da lembrança. Temos aqui, portanto, um exemplo claro da supremacia da criação sobre a representação, nas relações que travamos com nosso ambiente. Pois guardamos não as imagens, mas as operações que desenvolvemos para construí-la. (MORIN, Edgar. Op. cit. 1999. p.127-131)

- Sim, é verdade. O som da brisa é um isolante mesmo. Mas não totalmente pra mim. Estou ouvindo algum barulho, que vem lá de cima. Não sei se é algum chuveiro aberto.

Abri os olhos e conferi do que se tratava. De fato, acima de onde estávamos, próximo ao imenso lajedo, havia uma casinha e uma cacimba. Lá, uma mulher retirava água e depositava-a em uma lata. Ela estava longe. Muito longe. Não apenas para meus ouvidos, mas também para meus olhos. Manuel mais adiante, continuou o mapeamento do território: - Acho que existe alguma coisa logo ali na frente, não é Tomé? O que é?

- Lá bem longe, existe um monte de pedras. Acho que são de uma antiga cerca.

- Ah, sim. Eu sinto uma sombra. Acho que é a altura deste monte. Não dá para perceber que são pedras.

Manuel falou sobre mapas, enquanto pisava firme o chão do deserto sertanejo. Nossos mapas, disse ele, eram coloridos e através da cor, nós videntes podíamos diferenciar o que era Piauí do que era Pernambuco; podíamos supor através de traços e fronteiras, aonde findava a terra e se iniciava o mar. Mas para ele, nossas cartografias eram muito pouco eloqüentes. Elas não ofereciam nada ao tato, e nada para apalpar. E, por fim, eram inodoras. Ao contrário dos nossos mapas, lisos e abstratos, os mapas construídos para cegos eram estriados. E as matérias utilizadas para se referir às geografias eram mais próximas, senão as mesmas, dos referentes. A terra era areia, fixada com cola em uma superfície. As fronteiras, uma linha de costura. Já o mar, era representado através de uma negativa: o mar era o que não era areia e o que não era linha. Não havia, definitivamente, no mundo da cegueira, como confundir os mapas com os territórios, pensei.

Estava inebriado com o volume de informações que éramos capazes de extrair diretamente daquela geografia arrasada em que plantávamos nossos pés. A brisa, por exemplo, soprava em meu rosto e circulava entre as minhas pernas, a cada passo que eu dava. Ao arremessar- se contra meu corpo, um obstáculo para seu fluir, eu me sentia filtrando-o, modelando-o. A brisa parecia ganhar uma forma, foi o que disse para meus amigos. Maria manteve o passo, ouvindo-me falar sobre modelações do vento e segurando em meu braço disse:

- Engraçado, pra mim ele é só vento.

Retirado abruptamente de meu idílio, respondi com algum desapontamento: - É... Acho que estou vendo coisas...

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