Partie 2. Tous impliqués
3. Réagir
3.1. Que faire en cas d’attaque armée ?
É, portanto, relevante a influência que a teoria psicanalítica teve sobre o movimento surrealista. Apesar de algumas discordâncias e de Freud não reconhecer, a princípio, na arte surrealista semelhanças com seus postulados, a contemporaneidade e a busca por alguns objetivos comuns, marcam a aproximação entre essas duas manifestações. Como um movimento intelectual, científico e terapêutico, a psicanálise estava interessada num método de acesso ao inconsciente que regularia a vida psíquica dos indivíduos. Mas, para além da terapêutica, ela faz, também, uma crítica profunda e incisiva à vida social moderna e seu conjunto de repressões em nome da cultura e da civilização. Toda essa reflexão sobre os processos culturais que impediam a livre manifestação do desejo e expressão dos conteúdos inconscientes estão na base do Surrealismo e de seus principais interesses. Com o foco de suas investigações no processo criativo, o surrealismo se manifesta em favor de uma dimensão inconsciente e de seus arranjos, aqueles que perpassam a premeditação e a intenção: “ a criatividade deveria se alimentar nos níveis mais profundos do inconsciente, dos sonhos e alucinações e, ao mesmo tempo, excluir o pensamento racional. Era preciso banir a razão, o gosto e a vontade consciente do processo criativo. ” (BRETON, s/d).
No Manifesto Surrealista de 1924, Breton posiciona-se de forma contundente com relação aos processos de repressão empreendidos contra o indivíduo na sociedade moderna. Critica o predomínio de uma razão utilitária sobre a imaginação e supõe, a partir desse predomínio, o esvaziamento do homem, a falta de sentido, a escassez de sonhos e desejos. Os processos de repressão são aqui atribuídos, em parte, à educação positivista e predomínio do materialismo nas ciências e na filosofia. Na literatura, critica fortemente o realismo e sua tendência às descrições detalhadas de cenas, ambientes, ações e estados de espírito dos personagens. Além disso, a ilusão de um sujeito formado, de um herói, também é colocada em questão por Breton, como uma pretensão de nivelar os indivíduos a partir de um modelo ideal, numa “intratável mania de reduzir o desconhecido ao conhecido, ao classificável (...)”
(BRETON, 1924). Esse sujeito formado, pronto, seria, então, um sujeito classificado, previsível e alheio às singularidades, um sujeito racional ou racionalizado pelo autor que o “digeria” e entregava ao leitor devidamente analisado.
Nesse ponto, Breton se afasta ligeiramente de Freud. Primeiro, porque o esforço da psicanálise, mesmo mostrando a monumental influência do inconsciente em nossas ações, não deixava de ser um esforço da consciência e da razão. O caminho trilhado por Freud e outros nesse sentido era o de trazer à racionalidade os conteúdos mais instintivos e obscuros da psique humana, o de vencer as repressões e tornar conscientes os complexos, era, em última instância, um desejo de sobrepor luz à escuridão. No entanto, existe a visão de um sujeito formado, composto de instâncias psíquicas definidas, um sujeito que pode ser analisado, compreendido, comparado com outros. Existe um modelo de normalidade e de patologia, existe a influência de um ser humano sobre outro – o analista sobre o paciente -, existe um destino final do processo analítico mesmo que não se queira falar de cura. Na arte, o processo de experimentação não prevê explicitamente essa metodologia, nem aponta para o mesmo final, apesar de percorrer e reconhecer as mesmas – ou semelhantes – dimensões do espírito humano. De qualquer forma, do ponto em que essas duas manifestações se encontram surge uma crítica potente ao “império da lógica”:
Ainda vivemos sob o império da lógica, eis aí, bem entendido, onde eu queria chegar. Mas os procedimentos lógicos, em nossos dias, só se aplicam à resolução de problemas secundários. O racionalismo absoluto que continua em moda não permite considerar senão fatos dependendo estreitamente de nossa experiência. Os fins lógicos, ao contrário, nos escapam. Inútil acrescentar que à própria experiência foram impostos limites. Ela circula num gradeado de onde é cada vez mais difícil fazê-la sair. Ela se apoia (...) na utilidade imediata, e é guardada pelo bom senso. A pretexto de civilização e de progresso conseguiu-se banir do espírito tudo o que se pode tachar, com ou sem razão, de superstição, de quimera. (BRETON, 1924, p. 4)
A pesquisadora Lúcia Grossi dos Santos, em seu estudo sobre o Surrealismo e as relações de Breton com a Psicanálise, aponta a existência de uma série de contrapontos entre um e outro que são fundamentais na experiência surrealista com a linguagem. Apesar de buscar os pontos de contato entre esses dois campos, a autora não deixa de mencionar diferenças importantes que separam a teoria de Freud e o pensamento de André Breton. Por mais que possamos ver diversas semelhanças e um impulso fundamental em relação à dimensão inconsciente, a um desvelar de máscaras e uma superação do racional, segundo a autora, a via surrealista pretendia um saber total, uma espécie de revelação e talvez confundisse o próprio desejo com a sua interpretação ou as narrativas produzidas a partir dele (SANTOS, 2002). Além
disso, afasta-se também da Psicanálise por não se aproximar de uma via terapêutica de acesso ao inconsciente.
É importante destacar que, nos anos iniciais do Surrealismo, na sua fase dita intuitiva (1919-1925), o acesso que Breton tem à Psicanálise vem de forma indireta, a partir de dois livros de Régis: Précis de Psychiatrie e La Psychanalyse e de seu trabalho com psiquiatria em hospitais de Paris durante o serviço militar. No ano de lançamento do Manifesto Surrealista, uma obra de Freud já estava traduzida para o francês e era significativa nesse contexto: Psicopatologia da Vida Cotidiana. Segundo Lúcia Grossi dos Santos, “não se trata aqui de um simples fascínio pelo discurso científico, mas antes, de um deslocamento desse discurso que passa a ser percebido como poético, provocando a ruptura de limites entre arte e ciência, antes evocada. ” (SANTOS, 2002, p. 232). Nesse momento, tanto o caminho poético do Surrealismo, quanto o caminho terapêutico e científico da Psicanálise vão se preocupar com o potencial revolucionário do inconsciente, o seu impulso de transformação da vida. Irão construir, a partir da observação e experimentação, métodos muito próximos de ultrapassar as barreiras da razão: o automatismo psíquico e o método da associação livre, subvertendo os significados das imagens que se apresentam à consciência. Para Maria Inês França:
(...) a subversão freudiana do valor da imagem significa constituí-la como representação-coisa, como signos, alguma coisa que está no lugar de outra coisa. É este caráter estrutural e de escritura psíquica que se torna um traço de união entre o projeto surrealista e a psicanálise, pois é o fato de o sonho em relação à lógica pré-consciente/consciente ser considerado um amontoado caótico de imagens sem sentido que o torna, referido a uma outra lógica, a do inconsciente, capaz de revelar as múltiplas possibilidades de sentido que as imagens carregam. (FRANÇA, 2008, p. 98)
É esse revelar de múltiplas possibilidades da imagem que, unindo Surrealismo e Psicanálise, confere valor ao olhar como um ato subjetivo, de significação na relação entre o eu e um objeto exterior (FRANÇA, 2008). Para essa autora, baseada também nos estudos de Lacan e Nasio, o que se coloca entre o eu e o objeto seria um vazio desejante, vazio esse que abre o espaço das possibilidades para a criação de significados, tornando-se um “vazio iluminado”. É por esse motivo, que o olhar não se encerra no eu e também não está contido nos objetos. Nesse entre, nesse vazio iluminado, é que se constroem os significados, e um objeto exterior ao sujeito pode se tornar uma imagem e, posteriormente, um símbolo. É justamente por esse espaço das possibilidades que se interessam a Psicanálise e o Surrealismo, na subversão dos significados cotidianos dos objetos que nos circundam, tomando a lógica do sonho, onde “(...) o objeto é excêntrico, pois quem é que olha no sonho, se estamos de olhos fechados, dormindo?”
(FRANÇA, 2008, p. 100). No sonho, as lógicas se invertem e uma coisa nunca representa a si mesma, sempre há a possibilidade de um desdobramento do seu sentido mais aparente para algo além do que foi expresso.
Neste território de incertezas e múltiplos significados, nesse vazio iluminado que abre a possibilidade do desdobramento e inversão de sentidos das coisas cotidianas, temos também a presença marcante da incompletude. O movimento da incompletude sempre marca um limite para mais além do que se vê. Uma imagem transformada em símbolo não esgota seus significados, é como uma utopia: sempre que se chega a uma definição consciente, a um nome, a uma palavra, ela transcende a si mesma e se abre a novas possíveis interpretações. Dessa forma, sua apreensão total por um saber nunca é completamente possível, visto que nos escapa seu “real significado”. Aliás, ele nem mesmo existiria, na forma que podemos conscientemente conceber. É nessa zona metafórica que os surrealistas vão buscar chegar, construir seus objetos, subverter sentidos, mostrar o fascinante e absurdo poder de evocação de uma imagem aparentemente comum na consciência. Nela também a Psicanálise irá mergulhar, dedicando-se a uma lógica subvertida expressa na linguagem do inconsciente, através dos sonhos, dos atos falhos e da associação livre no processo terapêutico.
(...) psicanálise e arte, através do além da imagem, evocam o mistério, mostrando que o saber que se sabe nunca é definitivo, pois o resto que jamais se esgota se coloca em permanente deslocamento compondo o conceito de verdade parcial do desejo (...). Nesse sentido, a psicanálise freudiana, quando se depara com o excesso de clareza, cujo risco é de matar o paradoxo de suas ideias e os enigmas propostos pela psicanálise, busca a poesia como território singular que toca no poder da palavra e da imagem, apresentando a infinitude da verdade, que se subtrai de todo e qualquer saber estabelecido (FRANÇA, 2008, p. 101-102).
Em 1932 Breton publica Os vasos comunicantes. Neste livro, aprofunda suas considerações sobre a relação entre consciente e inconsciente, além de mergulhar no próprio processo criativo e onírico. De forma experimental, narra suas experiências em estado de vigília e sonho, além de relacioná-las com seu contexto afetivo e social. Esse livro organiza e sistematiza as reflexões surrealistas já colocadas no Manifesto de 1924, explorando, num tom autobiográfico, a extensão do inconsciente nos atos da vida cotidiana de Breton. É importante destacar que esse livro dialoga de forma mais direta com A interpretação dos sonhos, de Freud, originalmente publicado em 1900 e traduzido para o francês como La Science des rêves, em 1926. Em Os vasos comunicantes, tanto Breton se aproxima da Psicanálise - ao considerar o enorme poder do sonho diante da realização dos desejos latentes e manifestação da dimensão inconsciente - como se afasta – ao afirmar a existência de sonhos premonitórios e levar a
discussão sobre o inconsciente para o terreno artístico, vendo como uma de suas maiores riquezas, a potencialidade da criação. Com relação aos sonhos premonitórios, Breton considera que seria possível, sim, o sonho manifestar uma realidade que já estaria plasmada no inconsciente, antes mesmo de vir a se concretizar. Dessa forma, as ferramentas do Surrealismo, entre elas a principal, a escrita automática, construiria um caminho para o acesso a essas realidades ainda ocultas e seus mistérios (ANDRADE, 2011).