CHAPITRE III : A PPLICATION AU DIAGNOSTIC DE LA MACHINE ASYNCHRONE
3.4.5 Cas de l'alimentation avec onduleur
Se ainda não podemos considerar os colunistas um grupo profissional, poder-lhes-emos reconhecer algumas características de "tribo" (expressão que, entre nós, Nelson Traquina (2004) utiliza para os jornalistas) ou "comunidade interpretativa"?
Este conceito tem vindo a ser utilizado no âmbito de uma abordagem alternativa para entendimento da diversidade de aspectos que envolvem as práticas jornalística e que não são tidas em conta nas análises do jornalismo enquanto profissão, uma vez que os critérios (rígidos) que definem a profissão não fornecem um quadro de referências adequado para compreender as dimensões narrativa da prática jornalística, o modo como os jornalistas criam uma comunidade por meio do discurso, as associações informais e outros canais e formas de legitimação além daquelas que são promovidas pelo estatuto profissional. Este modo alternativo de conceber a comunidade jornalística, tem-se conceptualizado extravasando os estudos de media e jornalismo, recorrendo à antropologia, à etnologia e aos estudos literários.
Assim, as "comunidades interpretativas", entendidas como grupos unidos pelas suas interpretações partilhadas da realidade, segundo a definição de Hymes produzem textos e "determinam a forma daquilo que é lido" (Fish, 1980, cit por Zelizer, 2000:38), exibindo certos padrões de autoridade, de comunicação e de memória quando interagem mutuamente (Degh, 1972, cit por Zelizer, 2000:36), estabelecem convenções tácitas e negociáveis que regulam a forma como os seus membros podem "reconhecer, criar, experenciar e falar sobre textos" (Coyle e Lindlof, 1988, cit por Zelizer, 2000:36)
É também neste sentido que Zelizer (2000:39), entre outros, assinala que "os jornalistas estão unidos, enquanto comunidade interpretativa, pelas interpretações colectivas de determinados acontecimentos-chave". Tal como observa a autora (2000:38), a importância da criação de sentido através do discurso é também apontada pela imagem que Park (1940) tinha das notícias como uma forma de conhecimento, pela definição de
Carey (1975) da comunicação como ritual e como quadro comum de compreensão, pelas ideias de de O'Brien (1983) acerca das notícias como um pseudo-ambiente e pelos trabalhos de Schudson (1988, 1992) sobre o modo como os jornalistas constroem uma imagem de si próprios.
No exercício da sua actividade, partilham um enquadramento de referência, que Bourdieu (1997) identifica como as estruturas cognitivas, perceptivas e avaliativas, pelo que a prática jornalística tem na base uma série de assunções e crenças partilhadas. É esse sistema de crenças ou ideologias que, como refere Elliott (1974), dá sentido ao trabalho de qualquer grupo ocupacional, justificando-o dentro e fora do grupo.
De modo similar ao que alguns autores apontam, referindo-se à notícia, em que medida também a opinião expressa reflecte uma "cultura de grupo", um "sistema de valores", "um pensamento de grupo" susceptível de se transformar num "pack opinion" (por similitude ao conceito de pack journalism)? Pois não é também a opinião um relato seleccionado da realidade, uma "imagem refractada", consequência de um "prisma" (valores), na terminologia de Patterson (1997) ou do uso de certas "lentes", na de Bourdieu (1997)? 54
Aparentemente, tal parece uma grosseira contradição, pois da opinião diz-se correntemente ser "livre", expressa num registo eminentemente pessoal, apresentando-
54 Não sendo aqui oportuno alongarmo-nos muito, registamos apenas alguns marcos da investigação sobre
ideologias e modelos profissionais dos jornalistas: Em 1963 Cohen inicia um conjunto de investigações sobre as atitudes e papéis profissionais. Mas o trabalho que mais influenciaria as investigações posteriores foi o de Johnstone, Slawski e Bowman, em 1972. Nessa investigação de forte cariz empírico, os autores elaboraram um primeiro grupo de variáveis para medir atitudes e papeis, composto por oito items. Uma década depois, David Weaver e G. Cleveland Wilhoit, reformulariam essa escala de items, tendo-a melhorado em pesquisas posteriores (1991; 1996.Contudo, a investigação melhor conseguida foi publicada em 1998-The Global Journalist, na qual recolhem investigações sobre a actividade jornalística em países dos cinco continentes. Apontam-se algumas críticas a estas investigações, nomeadamente o terem privilegiado o indivíduo como objecto de estudo, negligenciando o contexto. Tem-se considerado como variáveis independentes a organização para que o jornalista trabalha, as características individuais (como a educação e a ideologia política), factores externos como a relação com as fontes, mas tem-se excluído factores tão importantes como o contexto socio-político, o sistema mediático, as audiências. (Neste sentido, Reese (1999) dá-nos um contributo, através do seu modelo de "hierarquia de influências" , o qual inclui cinco níveis de análise - o individual, as rotinas, a organização, o nível exterior ao media e o nível ideológico- não estabelecendo, contudo, as relações entre os diferentes componentes).Outra limitação importante da investigação sobre ideologias e modelos profissionais resulta do facto de se ter como fonte exclusiva para a construção das tipologias de jornalistas as opiniões expressas por eles. Mancini (1999) confrontou-se com a contradição entre a prática profissional e os modelos teóricos, ao encontrar incoerências evidentes entre as autopercepções dos jornalistas italianos e o que era o reflexo do seu trabalho.
se muitas vezes sob a capa insuspeita da "análise". Trata-se de uma crença (tão arreigada quanto durante tanto tempo o esteve a da objectividade jornalística).
Os dados disponíveis corroboram a ideia de que os colunistas funcionam em “circuito fechado”, constituindo grupos reduzidos, de lenta renovação, muitos deles presentes na cena mediática há muito tempo e acumulando presenças em vários media. No entanto, a ideia de "circuito fechado", não deve corresponder exactamente à imagem de que o discurso dos colunistas é uma conversa apenas entre os colunistas, os próprios jornalistas, a elite política, a elite intelectual e uma minoria da população, como defenderemos mais à frente.
Não rejeitando a hipótese de que os colunistas se entregam à prática de leituras recíprocas que induz efeitos de estandardização dos conteúdos (Rebelo, 2000: 26; Soera, 2000:4) interessará, pois, através da análise de conteúdo das colunas de opinião e do discurso dos colunistas (patente nas entrevistas que obtivemos) indagar quais são as crenças, os valores, os "óculos" com que os colunistas vêem a sua própria actividade, o que faremos ao longo deste texto.