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: LA CARTE DES 22 MÉTROPOLES

Os bancos estão entre as principais instituições de uma economia capitalista, pois fornecem os recursos para a realização de projetos de investimentos e para a aquisição de ativos financeiros. Suas receitas decorrem principalmente da diferença entre a taxa cobrada pelos empréstimos e a taxa paga pela obtenção de recursos (o chamado spread), sendo esta sua principal operação. Seu ativo é composto também por títulos públicos e privados, ações e reservas no Banco Central, que podem ser utilizadas como garantias para a tomada de recursos no mercado interbancário. Seu passivo, por sua vez, é composto pelos depósitos (tanto à vista quanto os de prazo mais longo), por empréstimos de outros bancos e do Banco Central (MINSKY, 1964).

A principal característica que diferencia os bancos das demais instituições financeiras é sua capacidade de criar moeda mediante a concessão de empréstimos, que resultam na abertura de novos depósitos à vista (moeda escritural), que podem ser utilizados para pagamentos em outras instituições bancárias. Sa principal fonte de recursos são os depósitos, que são também a base para diversos indicadores de controle por parte das autoridades, como a relação entre os empréstimos efetuados e as reservas de contingência, que medem a segurança na posição de cada instituição. Por isso, os banqueiros adotam postura ativa na administração de seus passivos4, desenvolvendo instrumentos e mecanismos com o objetivo de influenciar a preferência dos

4Essas iniciativas correspondem ao quinto estágio da evolução do sistema bancário tal como proposta por Chick (1986), ou seja,

demais agentes, modificando neste processo sua estrutura de remuneração dos depósitos, flexibilizando prazos e as taxas de juros de cada aplicação (MINSKY, 1986).

Tendo em vista a demanda das empresas e das famílias por recursos de terceiros, é a decisão das instituições bancárias de fornecer ou não empréstimos que valida as decisões dos demais agentes. Embora os banqueiros possuam maior conhecimento sobre seu ambiente de negócios que os demais agentes, o futuro é para eles tão incerto quanto para o restante da economia: “Even though bankers may have a better general knowledge of local competitive conditions or the future plans of competitors, they will have no better knowledge of future conditions than anyone else” (KREGEL, 1997: p. 544). A concessão de empréstimos baseia-se, então na análise do histórico de cada demandante, atribuindo-se menor ênfase no projeto para o qual os recursos serão destinados. A justificativa é a incerteza em relação ao futuro, pois projetos rentáveis no momento da contratação podem resultar em prejuízos no período dos pagamentos5. Os bons pagadores são contemplados, enquanto aqueles que enfrentaram dificuldades financeiras são deixados de lado, ou precisam lidar com condições mais rígidas, como menores prazos e/ou maiores taxas de juros (KREGEL, 1997). Podem ser ainda exigidos colaterais em valor acima do montante a ser emprestado, uma segurança adicional, que, entretanto, em períodos de dinamismo, em que os preços dos ativos se elevam, amplia a fragilidade, pois os agentes usam a valorização dos preços para assumirem maiores dívidas, fragilizando ainda mais sua posição (NASICA, 2010).

Da mesma forma que os bancos buscam maiores lucros, como os demais empresários, sua preferência pela liquidez também se eleva em períodos de crise. Quando as empresas e as famílias não conseguem arcar com seus compromissos, as receitas dos bancos também são afetadas, e muitas vezes eles próprios passam a enfrentar dificuldades. Nesse momento, as margens de segurança se deterioram, quando não desaparecem completamente, pois o valor dos colaterais também é afetado, podendo cair abaixo do valor da dívida. Nessa situação, eles tendem a priorizar recursos líquidos, como títulos públicos e reservas no Banco Central, reduzindo a concessão de empréstimos, e mesmo os poucos recursos emprestados são direcionados apenas às instituições mais sólidas (em sua avaliação), com termos de empréstimos mais rígidos. Essa atitude dificulta o refinanciamento das posições dos demais agentes, intensificando a crise. Por

5Não se trata tampouco de um comportamento irracional, pois como KEYNES (1936) demonstrou, em momentos de incerteza

isso, de nada adianta o Banco Central atuar como emprestador em última instância se não forem desenvolvidos mecanismos que garantam que os recursos recebidos pelos bancos serão repassados na forma de empréstimos, e não aplicados em títulos públicos (MINSKY, 1986).

As condições dos empréstimos interferem no processo produtivo em três momentos: na produção do bem de capital, na sua aquisição e no refinanciamento das dívidas assumidas, quando se tratar de posturas especulativas ou Ponzi. As decisões dos banqueiros, então, impactam tanto os projetos ainda não iniciados, e que podem sequer chegar a ser concretizados, quanto aqueles já em andamento, o que traz consequências mais sérias: as novas taxas de juros podem tornar o projeto insolvente, com os pagamentos efetivos superando as receitas esperadas (MINSKY, 1986).

A análise de Minsky mostra que a instabilidade financeira também atinge as instituições bancárias, e que pode ser estendida, com pequenas modificações, para outras formas de financiamento. A partir do final do Regime de Bretton Woods, a tomada de recursos no mercado de capitais (embora em diversas operações garantidas por alguma linha de crédito bancária) passou a adquirir maior relevância, destacando-se os títulos de dívida e as ações, especialmente na economia norte-americana. As operações com títulos também são baseadas na preferência pela liquidez de cada agente, estando sujeitas a instabilidades, da mesma forma que os empréstimos bancários. Em uma fase de estabilidade, os agentes se sentem mais confiantes em arcar com pagamentos futuros, aproveitando-se de taxas de juros mais baixas para efetuar a emissão de títulos, com o intuito de financiar o investimento. Do lado do comprador dos títulos privados, os períodos de estabilidade também são favoráveis, pois a menor preferência pela liquidez aumenta o valor dos papéis, levando-os inclusive a aceitar aqueles de menor qualidade, mas que geralmente possuem maior remuneração. A existência de mercados secundários é outro fator importante, pois permite que o comprador se desfaça do papel (desde que haja mercado para o mesmo) quando necessário, aumentando a liquidez e reduzindo o risco atrelado ao ativo (MINSKY, 1986).

Assim como no caso dos empréstimos bancários, as expectativas também sofrem reversão com o uso dos títulos por parte das empresas, pois retornos aquém do esperado podem inviabilizar o pagamento dos juros, deteriorando ainda mais a posição do emissor e gerando instabilidade no mercado. Além disso, quanto maior o volume de títulos emitidos por uma empresa, maior o montante de recursos necessário para fazer frente aos compromissos da dívida,

gerando desconfiança por parte dos compradores, que passarão a elevar suas exigências em futuras emissões (como prazos mais curtos ou taxas de juros mais altas, por exemplo) (MINSKY, 1986).

No caso de financiamento por emissão de ações, o movimento é semelhante: nos períodos de estabilidade, o preço destes ativos aumenta com a avaliação otimista das quase-rendas, estimulando novas emissões. Para manter os papéis atrativos, a empresa precisa assumir a distribuição de dividendos, em volume cada vez maior, o que pode comprometer sua saúde financeira. Em uma eventual queda no ritmo da atividade econômica, a empresa pode não atender às exigências do mercado na distribuição dos dividendos, impactando negativamente no preço das ações. Inicia-se, assim, um processo de desvalorização que atinge tanto os novos quanto os antigos acionistas (MINSKY, 1986).

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