• Aucun résultat trouvé

A Teoria das Representações Sociais pode contribuir para a compreensão das transformações de valores e práticas, pois as relações e as transformações sociais são acompanhadas de profundas transformações do pensamento (MOSCOVICI, 1990). A representação social de um objeto é uma representação compartilhada por um grupo social. Um dos grupos sociais em que as representações sociais se formam é o familiar. Ao mesmo tempo, as representações presentes nas famílias são construídas a partir de uma inserção cultural e social. Dessa forma, ao pretendermos estudar como se constroem na família os valores relacionadas ao feminino e ao masculino, como se estruturam os papéis de homens e mulheres nas práticas de socialização, concluímos que a Teoria das Representações Sociais pode dar o suporte teórico necessário à compreensão da construção, manutenção e transformação desses valores e práticas.

Os estudos em representações sociais ganharam impulso na França, a partir da publicação do trabalho de Serge Moscovici, La Psychanalyse, son image et son public, em 1961. Essa teoria surgiu como uma contraposição à Psicologia Social americana, pautada numa perspectiva mais individualista. Baseia-se na noção de representação coletiva de Durkheim, com uma concepção de social mais próxima a concepção sociológica do que à psicológica. A Teoria das Representações Sociais ganhou espaço nas instituições brasileiras na década de 1980, passando a influenciar boa parte das pesquisas em Psicologia Social no Brasil. (SPINK, 1996; SÁ e ARRUDA,2000)

Spink (1996) aponta que há uma multiplicidade de definições do que seja a representação social, mas um denominador comum entre elas, é a consideração de que é um conhecimento que envolve crenças, imagens e símbolos compartilhados por um grupo. Assim a autora define representações sociais, como um conjunto de conceitos compartilhados socialmente que surgem da vida cotidiana, cuja função é organizar a realidade e a prática social.

Jodelet (2001, p. 22) caracteriza representação social como “[...] uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social”. A autora acrescenta ainda:

[...] reconhece-se que as representações sociais - enquanto sistemas de interpretação que regem nossa relação com o mundo e com os outros – orientam e organizam as condutas e as comunicações sociais. Da mesma forma, elas intervêm em processos variados, tais como a difusão e a assimilação dos conhecimentos, o desenvolvimento individual e coletivo, a definição das identidades pessoais e sociais, a expressão dos grupos e as transformações sociais (JODELET, 2001, p. 22).

O processo de representação social de um objeto envolve duas fases: o processo de objetivação, mediante o qual há uma seleção de elementos do que vai ser representado, com base em informações prévias, experiências e valores. Esses elementos são recompostos e se reorganizam, formando um esquema figurativo do objeto representado, tornando-se algo palpável e natural; o segundo processo é o da ancoragem, que se refere à forma como o sujeito recorre ao que é familiar para converter um objeto novo em algo conhecido (ARRUDA, 2002). Esse processo é dinâmico:

[...] a representação social opera uma transformação do sujeito e do objeto na medida em que os dois são modificados no processo de elaborar o objeto. O sujeito amplia sua categorização e o objeto se acomoda ao repertório do sujeito, repertório o qual, por sua vez, também se modifica ao receber mais um habitante (ARRUDA, 2002, p. 137).

A compreensão da estrutura das representações foi proposta por Jean-Claude Abric (1998) como uma abordagem complementar à Teoria das Representações Sociais. De acordo com esse autor, as representações são estruturadas a partir de um núcleo central, representado pelos elementos mais estáveis da representação, elementos que são mais resistentes às mudanças por estarem ligados a “condições históricas, sociológicas e ideológicas”. Em torno do núcleo central, as representações são estruturadas por elementos periféricos, que são componentes mais acessíveis das representações, “[...] associados às características individuais e ao contexto mais imediato” que, segundo Abric (1998, p. 32) têm três funções: função de concretização: resulta “[...] da ancoragem da representação na realidade” e “permitem a formulação da representação em termos concretos”; função de regulação:

tem “[...] um papel na adaptação da representação às evoluções do contexto. Então as informações novas ou as transformações do meio ambiente podem ser integradas na periferia da representação”; função de defesa: em que o sistema periférico é o sistema de defesa da representação que protege o núcleo central, mais resistente às mudanças. Por ser mais flexível, tolera contradições e permite mudanças quando existem novas informações no meio social.

A Teoria das Representações Sociais tem fornecido elementos interessantes para se discutir questões relacionadas ao gênero. Palácios (1997), em pesquisa com profissionais de saúde, verificou que a forma como os profissionais representavam homens e mulheres tinha relação com a compreensão da doença dos pacientes. Os elementos que descreviam feminilidade e masculinidade, para os profissionais, pautavam-se em uma representação social tradicional e estereotipada. Para feminilidade, destacaram as características: beleza, doçura, delicadeza, sensibilidade, passividade e ternura; para masculinidade, fortaleza, virilidade e atividade. Verificou que a representação social de feminilidade e masculinidade para os profissionais não era diferente do observado no senso comum, no entanto essa representação teve implicações para a prática profissional. A forma como os profissionais avaliavam os motivos que levavam ao adoecimento e o diagnóstico dos pacientes do sexo feminino e masculino estava delimitada pela compreensão que os profissionais tinham dos papéis sexuais e das diferenças entre os sexos.

Em outro estudo, Ramos (2003) buscou compreender como mulheres e homens, inseridos no contexto das relações conjugais violentas, elaboram as representações sociais de mulher e da violência contra ela. Os resultados de sua pesquisa indicaram que a representação social da mulher é trabalho/luta e maternidade, e a dos homens é dominador/chefe de família, trabalho e respeito. Observou-se que essas representações estão implicadas na forma de compreender a violência contra a mulher. A representação da violência cometida pelo homem contra a mulher é vista pelas mulheres como intenção de dominar e, pelos homens, como justificação para manter a dominação na relação conjugal. Para a autora, a representação social do

homem, construída pelas mulheres, reafirma o lugar de dominação que este ocupa na estrutura das famílias brasileiras, e a prática da violência conjugal traduz a relação de força entre os gêneros.

Trindade e Enumo (2001) investigaram as representações sociais de infertilidade feminina em mulheres de diferentes estratos sociais. Palavras como incompleta, frustração, pessoa inferior, fizeram parte dos elementos do campo representacional de infertilidade feminina para as participantes da pesquisa. De forma geral, verificou-se que a representação social de infértil implica a depreciação e estigmatização da mulher. Ser infértil é um problema para a maioria das mulheres. As autoras concluem que a representação social de infertilidade está em sintonia com as representações de maternidade e paternidade e que é preciso conhecer como as mulheres compreendem as diferenças de gênero para entender essas representações.

Considerando a especificidade desta pesquisa, nosso interesse em conhecer as representações sociais de gênero para diferentes gerações e as práticas educativas relacionadas no contexto familiar, é interessante verificar os estudos de Duveen, que tem pesquisado o processo de construção das representações sociais a partir do desenvolvimento da identidade de gênero nas crianças. Na opinião de Duveen (1994), para compreender a representação social de um objeto social é necessário entender os processos envolvidos na sua produção e transformação. Nessa busca, o estudo das representações aproximaria a Psicologia do Desenvolvimento e a Psicologia Social.

Para Moscovici (1990), a Psicologia Social e a do Desenvolvimento são as duas faces de uma mesma ciência: uma tenta resolver a partir do grupo o enigma que a outra explora a partir do indivíduo, uma se situa a partir do espaço e a outra, a partir do tempo. Ele considera que o conceito de representação envolve uma relação dialética entre o individual e o social, que resolve o paradoxo individual/social, pois embora humanos sejam pessoas particulares, com um mundo privado, eles têm uma existência comum, comunicam-se, compartilham conhecimento, formam grupos e inventam instituições. Dessa forma, na busca de compreender o desenvolvimento da representação social, considera-se que não faz sentido opor representação

mental e representação social, uma vez que as representações se formam a partir das interações do indivíduo com o meio social (LAUWE e FEUERHAHN, 2001).

De acordo com Duveen (1994):

Representações são sempre construtivas; elas constituem um mundo tal como ele é conhecido e as identidades que elas sustentam garantem ao sujeito um lugar nesse mundo. Assim ao serem internalizadas, as representações passam a expressar a relação do sujeito com o mundo que ele conhece, ao mesmo tempo, elas o situam nesse mundo (DUVEEN, 1994, p. 267).

Assim, considera-se que a distinção entre a abordagem social e a abordagem de desenvolvimento, que distinguem o estudo do individual e do social, pode ser superada. Dentro dessa perspectiva, a compreensão da produção e da transformação das representações para Duveen e Lloyd (1990) envolve três tipos de transformação, que eles consideram como transformações genéticas das representações. São elas: a sociogênese, que é o processo por meio do qual as representações sociais são organizadas, comunicadas e reconstruídas por diferentes grupos sociais; a ontogênese, que é o modo pelo qual a representação social se torna psicologicamente ativa para o indivíduo, ou seja, o processo através do qual o indivíduo reconstrói representações sociais, elaborando identidades sociais particulares; a microgênese, que acontece na interação social. As representações sociais estão presentes em toda interação social, as identidades sociais são construídas no curso das interações, assim a microgênese, é o processo de elaboração e negociação das identidades sociais particulares com as representações sociais em que elas estão baseadas. Segundo Duveen e Lloyd, a microgênese está presente nos dois processos anteriores.

A relação entre esses três processos pode ser exemplificada considerando-se o desenvolvimento da construção para a criança de uma representação social presente na sua comunidade, como, por exemplo, a representação de gênero. Para esse desenvolvimento, a criança precisa receber alguma comunicação, interagindo seja com outras crianças, seja com adultos, seja através da mídia. O processo microgenético leva a transformação ontogenética na representação que a criança tem do mundo. A representação social de sua comunidade não é influenciada em um primeiro momento por

esse processo microgenético, mas se fosse, teríamos também uma sociogênese (DUVEEN e LLOYD, 1990).

Esses autores tem considerado que as questões de gênero são um campo interessante para o estudo do desenvolvimento e da transformação das representações. Seus estudos têm buscado compreender o desenvolvimento da representação de gênero através da ontogênese:

A força da categorização nas representações de gênero que circulam em volta da criança é tão forte que ela sempre vai aparecer como uma menina ou como um menino, desenvolvendo identidades sociais específicas. [...] Representações de gênero fornecem uma referência importante através da qual a criança adquire uma identidade que lhe permite situar-se no mundo social (DUVEEN, 1994, p. 266).

Assim, verificamos que, a partir da Teoria das Representações Sociais, estudos têm buscado maior compreensão da construção e transformação dos papéis e características atribuídos socialmente aos homens e às mulheres. Consideramos, portanto, que essa teoria pode contribuir para a análise de como as representações de gênero na família norteiam as práticas de socialização e como acontecem transformações e continuidades nas representações de gênero dos filhos.

Documents relatifs