• Aucun résultat trouvé

Ao lançar um olhar sobre as práticas culturais que delineiam e operam as nossas identidades, podemos perceber que os grandes aparatos midiáticos e suas corporações empresariais têm um papel central na vida das pessoas na contemporaneidade, pelo menos das que vivem nos grandes centros urbanos. Em relação à infância ressalto que os efeitos dessas produções midiáticas podem ser “impactantes” na vida das crianças e na concepção que se tem de infância.

Uma vez que a infância é uma construção cultural moldada, na era contemporânea, pelas forças desse tecnopoder catalisado pela mídia, torna-se imperiosa a necessidade por parte de pais, mães, professoras/as e líderes comunitários, de estudá-los. (KINCHELOE, 1997, p. 78).

A partir das argumentações do autor percebemos a importância das discussões referentes aos processos pedagógicos que a mídia exerce. Com base no aporte teórico dos Estudos Culturais em Educação, compreendemos que a cultura traz consigo uma infinidade de discursos que operam na constituição dos sujeitos, ou seja, as práticas culturais expressam significações que produzem, de algum modo, os sujeitos (GIROUX, 1995). Esses discursos presentes na cultura como os artefatos culturais – músicas, cinema, revistas, etc. –, produzem conhecimentos. Nesse sentido, o conceito de pedagogias culturais fornece subsídios para compreender que a educação ocorre em diferentes âmbitos culturais.

O termo ‘pedagogia cultural’ refere-se a ideia de que a educação ocorre numa variedade de locais, sociais, incluindo a escola, mas não se limitando a ela. Locais pedagógicos são aqueles onde o poder se organiza e se exercita, tais como bibliotecas, TV, filmes, jornais, revistas, brinquedos, anúncios, videogames, livros, esportes, etc. (STEINBERG, 1997, p. 101-102).

A partir dessa compreensão, como desconsiderar os ensinamentos presentes nos discursos das músicas pop com conteúdos eróticos? Parto do entendimento de que as aprendizagens alteram as nossas identidades e considero as pedagogias culturais como

fundamentais no processo de constituição das identidades dos sujeitos. Compreendo o processo pedagógico como um aspecto que opera em nossos desejos e hábitos, isto é, opera em nossos modos de ser e estar no mundo.

A seguir busco problematizar o consumo cultural das músicas pop com conteúdos eróticos e seus efeitos na construção de uma infância da maioria das crianças. O sucesso extraordinário que algumas músicas pop com conteúdos eróticos atingem fornece uma espécie de refúgio lúdico para as crianças que passam a privilegiar em suas brincadeiras as coreografias sexys expostas na mídia. Dessa forma, os sujeitos infantis acabam se transformando em consumidores da música pop com conteúdos eróticos, ao mesmo tempo em que, recursivamente, também são elas que exaltam e divulgam o sucesso de algumas dessas músicas.

Dito de outro modo, devido à prática de cantar e dançar músicas pop com conteúdos eróticos ser tão forte, algumas crianças possibilitam a propagação dessas músicas. Crianças ainda muito pequenas demonstram cada vez mais um lado “sexy” e “erótico” desenvolvido e muitas dessas práticas acabam se tornando naturalizadas na contemporaneidade.

Não há nada de oculto nas mensagens que são transmitidas às crianças através dessas canções com conteúdo erótico. Logo, as crianças da contemporaneidade não são apenas expectadoras passivas e ingênuas da mídia, são expectadoras ativas e produzem sentidos sobre os produtos midiáticos. Muitas das músicas não são voltadas diretamente para o público infantil, mas este acaba sendo bombardeado pelas produções das grandes corporações midiáticas que tem a intenção de atingir o maior número de consumidores.

Não precisamos ir muito longe para lançar um olhar crítico sobre o fenômeno do consumo de músicas pop com conteúdos eróticos por meninos e meninas cada vez menores. Basta percebermos o entusiasmo de algumas crianças, ao cantarem e dançarem músicas com coreografias sexys. Ao travarem pequenas batalhas com os pais no momento em que escolhem roupas curtas, transparentes, saltos, maquiagem, entre outros artifícios que remetem à erotização, essas são apenas algumas cenas da vida real de muitas crianças na contemporaneidade. Além do mais, em alguns casos os próprios pais reproduzem e incentivam um estilo adultilizado e/ou erotizado.

Uma das armadilhas culturais à infância se refere a questão de suas vestimentas. Na última década, a indústria de roupas infantis sofreu muitas mudanças. É flagrante que as crianças vestem, hoje, roupas praticamente iguais a dos adultos e adolescentes. (FRANCO, 2002, p. 33).

Em meio a essas argumentações, percebemos que há novas infâncias, com características sociais, históricas e culturais específicas que se reinventam na contemporaneidade e que têm as próprias crianças como colaboradoras desses processos. Essas infâncias podem ser percebidas a partir de algumas mudanças na sociedade. Na atualidade, vivemos uma explosão de informações na qual é tudo muito rápido, efêmero e instantâneo. Nesse sentido, as infâncias passam por constantes reformulações considerando que “A infância é um artefato social e histórico e não uma construção biológica” (STEINBERG, 1997, p. 98).

Em cada contexto com características específicas existirá um discurso diferente sobre o conceito de infância. É válido refletir sobre o que é ser criança nos dias de hoje e entender a problematização sobre as descontinuidades e as rupturas relacionadas a esse conceito. Por isso, este estudo lança mão da ideia de infância como fruto do processo da descontinuidade (BUJES, 2001), um acontecimento que é marcado por intervalos, rupturas, reconstruções e construções. Um processo que não pode ser pensado como um ponto de vista fixo, acabado e fechado.

A noção de descontinuidade toma um lugar importante nas disciplinas históricas. Para a história em sua forma clássica o descontínuo era, ao mesmo tempo, o dado e o impensável; o que se apresentava sob a natureza dos acontecimentos dispersos- decisões, acidentes, iniciativas descobertas- e o que deveria ser, pela análise contornado, reduzido e apagado, para que aparecesse a continuidade dos acontecimentos. [...] Ela se tornou, agora, um dos elementos fundamentais da análise histórica, onde aparece com um triplo papel. (FOUCAULT, 2002, p. 9).

Complementando as argumentações acima e entendendo o historiador, assim como Foucault (2002), enquanto pesquisador, destaco alguns elementos fundamentais no conceito da descontinuidade: o primeiro é que esse conceito constitui uma operação deliberada do historiador, possibilitando enxergar os níveis de análise, isto é, todo o processo de uma pesquisa histórica. Em segundo lugar, o autor destaca que a descontinuidade também é um resultado das descrições históricas, mostrando a importância de não suprimi-la. E por último, Foucault (2002) argumenta que a descontinuidade é um conceito que o trabalho não pode deixar de especificar, pois ela não busca a substituição de uma técnica por outra, mas procura visibilizar nuances e curvas do processo.

Sugiro pensar a infância a partir do conceito de descontinuidade, que nada tem a ver com a ideia de progresso, com substituição de um determinado conceito, mas entender a

infância como um processo de construção, como uma rede que pode ter continuidades, rupturas, reformulações que compõem uma trama.

Nesse viés, ao pensar sobre o conceito de infância a partir da descontinuidade, é possível perceber como ocorreu a construção do seu processo e seus efeitos nos modos de ser criança ao longo da história social. Sobre a infância “até por volta do século XII, a arte medieval desconhecia ou não tentava representá-la” (ARIÈS, 1981, p. 50). Esse processo de negação da infância pode ser justificado pelo fato de as crianças serem consideradas primeiramente como adultos em miniatura.

De acordo com Cambi (1999), um dos marcos da invenção da infância foi a partir da Modernidade, quando a sociedade passou a interpretar características específicas das crianças, separando o mundo adulto do infantil atrelado a um conjunto de outras mudanças sociais e culturais. A infância passou a ser entendida como uma categoria diferenciada do gênero humano e as suas características particulares de vulnerabilidade passaram a ser consideradas.

A concepção de infância não se manteve da mesma forma ao longo do tempo, passou por constantes reformulações. Por isso, é marcada pelas diferenças, de acordo com Derrida (1968 apud KOHAN, 2010, p. 133) “a diferença da diferença. A diferença que é condição de toda e qualquer diferença. Isso é a infância.”. A partir do conceito da descontinuidade e das cenas da vida cotidiana, lanço como premissa o entendimento de que no mundo contemporâneo há uma hibridização dos modos de ser criança com o de ser adulto. Sobretudo, enfatizo que nesta pesquisa foi possível perceber a incorporação de gestos, de falas e vestuários erotizados por crianças evidenciando o borramento de fronteiras entre mundo adulto e infantil.

Com base nas argumentações de Steinberg (1997) a infância contemporânea é atravessada pela Kindercultura, isto é, tal conceito pode ser entendido a partir do atravessamento das chamadas indústrias culturais que produzem um conjunto de artefatos (cinema, televisão, rádio, internet, música, etc.), que podem ter efeitos nos modos de ser, pensar, consumir, falar das crianças. Em outras palavras, a autora nos impulsiona a refletir sobre as pedagogias culturais, sobre a ideia de que as crianças aprendem nos variados contextos culturais, podendo, assim, delinear suas próprias infâncias.

Considerando que as concepções de infância variam de época para época, e que existem inúmeros modos de pensá-la e defini-la sob vários olhares, é importante deixar claro que isso não quer dizer que os processos de mudanças signifiquem uma melhoria e/ou progresso como estamos acostumados a pensar, mas de problematizar a infância como um acontecimento, como explica Larrosa (2001, p. 284):

A infância como acontecimento é capaz de apagar tanto o caráter de ‘meramente passado’ do passado, quanto o caráter meramente do ‘futuro do futuro’. [...] A criança não é antiga nem moderna, não está antes nem depois, mas agora, atual, presente. Seu tempo não é linear, nem evolutivo, nem genético, nem dialético, nem sequer narrativo. A criança é um presente inatual, intempestivo, uma figura do acontecimento.

O acontecimento da infância na contemporaneidade pode ser caracterizado pelo que há de novo e inédito nos modos de ser criança e de conceber a infância. A noção do termo infâncias, no plural, permite uma visão mais ampla das variações histórico-culturais desse termo. Não no sentido de evolução, mas no sentido de que a infância seja percebida como um processo versátil e complexo.

A ideia do termo “infâncias versáteis”, no curso em que o conceito de infância passou e ainda passa por constantes processos de mudanças/ressignificações, possibilita pensar que existem inúmeras infâncias, cada uma com características específicas, as quais se relacionam e formam uma trama. A infância compreendida como um processo em constante construção, isto é, sendo reinventada a cada novo acontecimento. Como argumenta Larrosa (2010), pensemos a infância como algo que sempre nos escapa, como algo que nunca poderemos “esgotar” inteiramente.

No que se refere à complexidade do termo, podemos evidenciar a dificuldade de limitar a definição do conceito apenas a uma compreensão fechada e acabada. Por isso, utilizo a ideia de enigma da infância como propõe Larrosa (2010), de acordo com as suas argumentações a infância sempre nos revela uma face enigmática, complexa, difícil de ser entendida e que jamais poderemos encontrar uma “verdade” fixa e acabada.

A verdade da infância não está no que dizemos dela, mas no que ela nos diz no próprio acontecimento de sua aparição entre nós, como algo novo. E além disso, tendo-se em conta que, ainda que a infância nos mostre uma face visível, conserva também um tesouro oculto de sentido, o que faz com que jamais possamos esgotá-la. (LARROSA, 2010, p. 195).

Não existe uma infância singular e sim infâncias, devido às variações dos aspectos culturais, sociais e históricos que envolvem essa fase inicial da vida. Passamos a entender como as infâncias se reinventam na contemporaneidade e compreendemos a importância de perceber como as crianças são no presente e como vivem a infância nos tempos contemporâneos.

Na contemporaneidade não podemos olhar para a infância sem considerar suas diferentes dimensões: social, cultural, histórica, pois essas dimensões nos ajudam a pensar as “inúmeras infâncias que estão em constante processo de ressignificação/transformação. Seus significados podem variar de acordo com o tempo, a classe social, o gênero, a cultura em que as crianças estão inseridas” (FELIPE; GUIZZO, 2003, p. 121). Ampliando o olhar sobre a infância a partir das argumentações de Felipe e Guizzo (2003), percebemos que os significados da infância podem variar de acordo com uma série de aspectos, inclusive a cultura. Advindo das relações culturais entre os sujeitos, o consumo dos artefatos culturais midiáticos pode fabricar sujeitos e reinventar infâncias.

Perceber a maneira como os sujeitos infantis se relacionam com a mídia é uma forma de compreender as diferentes infâncias na contemporaneidade. Neste sentido, torna-se interessante problematizar como o sujeito infantil é fabricado, representado, narrado, pelas grandes corporações das indústrias culturais.

Neste estudo, compreendo a criança como um sujeito cultural que produz significados sobre os aparatos culturais da contemporaneidade. Os modos como as crianças se relacionam com os artefatos culturais, entre outros aspectos, caracterizam as infâncias contemporâneas. As músicas pop com conteúdos eróticos são apenas um tipo de artefato cultural que a mídia produz. Imersos nesse mundo tão efêmero e instantâneo, acaba nos restando pouco tempo para pensar em como as crianças e os adultos compartilham e vivenciam as mesmas informações. As músicas pop que apresentam conteúdos eróticos são um artefato cultural que os adultos consomem e as crianças também passaram a consumir, constituindo um determinado tipo de cultura infantil.

Observamos na contemporaneidade que as infâncias estão sendo transformadas e/ou reinventadas através do consumo cultural das músicas pop com conteúdos eróticos. Crianças pequenas consomem esse tipo de música e criam uma cultura infantil que sugere uma infância erotizada, caracterizada por práticas discursivas que estabelecem um jogo de disciplinamento, definindo modos de ser criança, de ser menino e de ser menina.

Walkerdine (1999) problematiza a ideia de que a infância e a “natureza da criança” não são descobertas, mas são produzidas por regimes de verdades presentes nas práticas discursivas. A autora critica “os discursos da infância natural que se baseiam num modelo de racionalidade que ocorreria naturalmente, reforçando a ideia de infância como um estado inocente e imaculado, livre da interferência dos adultos” (WALKERDINE, 1999, p. 78). Dessa forma, os discursos eróticos presentes nas canções pop produzem “verdades” que

introduzem aspectos da sexualidade adulta na vida das crianças, desencadeando um processo complexo que delineia as reinvenções da infância contemporânea.

Nessa esteira de pensamento, é possível dizer que os significados da infância “variam com o tempo, com a autoridade de quem fala, variam também segundo a classe social de quem enuncia e de quem é o objeto da fala. [...] O assim chamado sentimento de infância é um fenômeno cultural próprio do nosso tempo” (BUJES, 2001, p. 26). Vivenciamos hoje uma infância que, de modo geral, vive sob a égide de uma sociedade marcada pelas configurações culturais da mídia e do consumo.

Com base nessas problematizações acerca da infância e sua articulação com a mídia e as pedagogias culturais, e tentando compreender as práticas culturais que sustentam a concepção de infâncias reinventadas, passemos a pensar sobre outro aspecto que se tornou fundamental para este estudo: o consumo cultural das músicas pop com conteúdos eróticos. E é, justamente, sobre este aspecto que trata a seção a seguir.

2.2 Um convite ao espetáculo: a mídia promovendo o consumo cultural das músicas pop

Documents relatifs