ETAPE I : IDENTIFICATION DU FAIT DIVERS
ETAPE 3 : LES CARACTERISTIQUES DU FAIT DIVERS
O conceito de transgressão, a partir do viés freudiano, mostra-se como um elemento bastante instigante para o presente trabalho, por considerá-lo como uma possível característica do perfil do empreendedor, conforme se procura contemplar neste estudo. Para tanto, aborda-se algumas considerações sobre este tema através de outros autores.
Assim como Freud, Fachini (2002) discorre e enquadra o tema da perversão como inerente à condição humana. Para Fachini (2002), as transgressões conduzem a uma explosão de vida, e estão revestidas de um valor fundamental para toda a experiência humana. Possivelmente, à primeira vista, este enfoque poderá gerar um certo mal-estar. Entretanto, como ressalta o autor, o ato perverso abriga um sentido de positivo, de transformação e transcendência, de quebra de códigos e procedimentos ultrapassados, de desobediência, mas objetivando reconstrução, "[...] derrubar para reerguer, desordenar para reordenar [...] circulação de sangue em órgão necrosado [...]” (FACHINI, 2001, p. 46).
Conforme defende o autor, o transgressor pode ser considerado como uma espécie de recriador, o que faz pensar na lenda da Fênix que, ao pressentir seu fim, avança para as regiões mais inóspitas do deserto, unta sua plumagem com uma substância oleosa de sua cauda e, assim, sob ação abrasadora do sol, incendeia-se, esperando renascer das cinzas; da morte à vida. Segundo o autor,
transgredir é propor respostas novas para novos problemas. É neste sentido que a transgressão pode ser salutar.
Ao comentar sobre a obra freudiana, a qual considera uma façanha, a própria transgressão, o máximo de ousadia, Fachini (2001) destaca o espírito inovador e audacioso do criador da psicanálise, que lutou em favor de suas convicções, mesmo pressionado, mesmo contrariando a uma maioria dominante, perdendo amigos, desfazendo e recriando teorias. O fruto de seu ato, o transgredir verdades ainda que tidas como científicas, trouxe compreensão a muitas questões humanas, dentre elas, o fim dos mistérios das doenças mentais e o conseqüente afastamento dos bisturis da medicina psiquiátrica tradicional.
A visão de Fachini (2001, p. 36-37) trás contribuições para a compreensão do tema do empreendedorismo: “Hoje, tem-se consciência de que um inventor, um fundador, um conquistador, um pesquisador [...] não nasce, não se faz, mas se cria, na obstinação, com gênio, poder e magia”. Inclui-se, aqui, o empreendedor.
Através desta citação, pode se repensar a questão de o empreendedorismo poder ou não ser ensinado. O ensino do empreendedorismo, há que se relativizar, somente poderá ser assimilado e colocado em prática se houver ressonância, identificação com o sujeito, ou seja, dependerá das características que permeiam as estruturas psíquicas de cada um.
É neste sentido que se questiona o ensino formal do empreendedorismo, uma vez que determinadas características do perfil de um empreendedor, como correr riscos ou quebrar normas e padrões, entre outras, não são compatíveis, admissíveis para um determinado sujeito.
Este não é um trabalho clínico. A pesquisa aqui contemplada não está orientada a identificar a estrutura psíquica do sujeito da pesquisa de campo, uma mulher intraempreendedora. O que está em foco é buscar identificar, através de relatos do informante, traços da estrutura perversa.
Para Fachini (2001), o ato transgressor também é deflagrado não somente para obtenção de benefícios próprios, mas também para beneficiar toda a sociedade. Portanto, o autor relativiza o ato perverso, defendendo que a existência de normas e padrões a serem obedecidos, o status quo normatizante, o domínio e a autoridade, todos eles legitimam a transgressão. A ausência do limite não requer transgressão, mas exceção.
Civilização é repressão, destaca Fachini (2001), possivelmente referindo- se ao texto de Freud (1938), “Mal Estar na Civilização”, a repressão aparece como um mal necessário porque obriga o homem a se socializar. A interdição paterna, através da repressão e da interdição, promove o acesso do homem à cultura, ainda que sob o fardo do conflito.
Retomando a questão da transgressão, o sentido de transgressão deve ser compreendido como: “Subverter”, caracterizando-se por “[..] voltar de baixo para cima; revolver; destruir; aniquilar; arruinar; derrubar; perturbar completamente; transtornar, desordenar” (FACHINI, 2001, p. 46).
Para Holanda (1996), o termo subverter está se referido à insubordinação às leis ou às autoridades constituídas, às revoltas contra elas, à destruição da ordem política, social e econômica.
Fachini (2001) utiliza-se do termo transgressão com o sentido de: ir além, infringir, desobedecer, destruir para reconstruir. Embora o autor não se refira ao conceito de empreendedorismo, é fácil reconhecer as características contempladas no perfil empreendedor.
Esta visão faz lembrar a fala de Sade (apud ROSOLATO, 1990, p. 43) quando afirma que: “As grandes ações só explodem no instante do silêncio das leis”.
Em “O Desejo e a Perversão”, Rosolato (1990) compara o ato transgressivo à recusa. Recusa cujo desvanecimento gera prazer, e é neste espaço que desaparece o peso das leis, ou seja, a ruptura dos limites e das normas a serem seguidos.
Portanto, transgressão pode ter um sentido positivo de uma atitude. Através da história, no bojo de todos os males, surgem as sementes de uma nova cultura e de infinitas possibilidades de realizações humanas. Na história, vê-se a queda de doutrinas, as revoluções que trazem um significado de transformações (FACHINI, 2001),
“Dentro de uma compreensão genérica, a pessoa carismática, messiânica e a profética possui em comum a qualidade intrínseca e inerente ao próprio ser, que é o poder transgressivo.” (FACHINI, 2001, p. 49).
Nesta citação, o autor refere-se aos pioneiros da psicanálise, caracterizados pelo gênio criativo e transgressivo, cuja alternativa era seguir em frente, a despeito de tudo e de todos. E é por isto que estes sujeitos eram vistos como loucos e gênios. “E com eles, todos os heróis, inventores, descobridores,
artistas, aventureiros e revolucionários da história foram possuídos por um gênio que surge do mesmo lugar onde nasce o criador” (FACHINI, 2001, p. 50). Incluí-se, os empreendedores.
Outro aspecto da transgressão é evidenciado na violência com que pode ser exercida e que tem o sentido de renovação de uma situação ultrapassada, que cria abalos e traumas que sugere caos - uma desordem fecunda. Conforme Fachini (2001), a transgressão gera um sentimento de aniquilamento, e o que parecia concreto torna-se ruína, a segurança inabalável torna-se frágil e gera descrédito. Para o autor, a transgressão é vista como força desestabilizadora.
Neste aspecto, pode-se supor que traços da estrutura perversa seriam aqueles que teriam maiores possibilidades de atuação empreendedora. Como já escrito anteriormente, a maneira como o sujeito articula-se na dinâmica do ter ou ser o falo irá determinar as estruturas psíquicas, com suas peculiaridades específicas em relação à castração. Este viés psicanalítico possibilita uma nova possibilidade para reflexão do tema do empreendedorismo.
4 ANÁLISE DE DADOS
“Porque mesmo sabendo do preço que eu pago por ficar aqui, no momento eu prefiro ficar em Belo Horizonte, porque o desafio lá é maior, é mais difícil resolver o quebra-cabeça, e isso me atrai.” Cássia