O trabalho de um tradutor de histórias em quadrinhos não é muito diferente daquele de um tradutor literário convencional. Carol Pimentel (2018, p. xvii), ao elaborar uma espécie de manual para aquele que se interessa em conhecer ou iniciar os estudos para exercer o ofício de tradutor de quadrinhos, afirma que “[...] trabalhar com quadrinhos é trabalhar com o cotidiano, com a vida real e seus mais variados temas”. Segundo ela, o conteúdo das histórias em quadrinhos e seus personagens apresentam ao tradutor a demanda por uma constante busca de ampliar seu vocabulário, pesquisar sobre diversas áreas do conhecimento.
Trabalhar com quadrinhos é trabalhar com o cotidiano, com a vida real e seus mais variados temas. É entender que o Peter Parker tem um doutorado em Física e que vai constantemente requerer pesquisa e vocabulário dessa área, assim como Bruce Banner, Reed Richards e Tony Stark, apenas para citar alguns. As sagas cósmicas exigem um pouquinho de conhecimento de Astronomia. Todos os personagens falam de formas variadas, então alguns seguem a norma culta, enquanto outros aceitam parte do diálogo ser expressa com o uso de gírias. Todo o texto trabalhado na tradução de histórias em quadrinhos de super-heróis mainstream³ vem em inglês e demanda conhecimento de gírias e expressões nativas para que sejam transpostas de maneira a soar o mais natural possível para o leitor.
Nem todo tradutor precisa ter feito várias faculdades ou ter viajado o mundo ou coisa parecida para fazer um bom trabalho. Não. O que ele precisa é entender material com que vai trabalhar e estar pronto para fazer os mais variados tipos de pesquisa na Internet, em livros, entrevistas e em todas as fontes de conhecimento das quais ele puder dispor. Não tenha medo nem preguiça, abra quantos sites precisar, faça quantas buscas achar necessário, você tem todas as ferramentas ao seu dispor e você tem a sorte de ter nascido em uma era em que os computadores são acessíveis e que há muito material de consulta pronto para ser lido. Você só precisa ter cuidado com as fontes4, aprender onde buscar a melhor informação, qual site é confiável etc. etc. Mas não tenho dúvidas de que você sabe melhor disso do que eu, não é mesmo? Então vamos às dicas e boa leitura! (PIMENTEL, 2018, p. xvii-xviii, grifo do autor).
Além das temáticas diversificadas nas narrativas, há também diversas formas de se expressar dos personagens, do coloquialismo ao uso de linguagem mais rebuscada, o que requer do tradutor um certo conhecimento de normas cultas, gírias, maneirismos, neologismos, expressões nativas dos idiomas de partida e de chegada e etc. Apesar do foco da autora ser o trabalho com quadrinho em inglês, a necessidade de transpor a forma de se comunicar os personagens com a maior naturalidade possível para o leitor é algo que é compatível com qualquer tipo de quadrinhos. O que se aplica, por consequência, aos mangás.
É essencial para qualquer pessoa que se propõe a traduzir seja qual for o texto, não apenas quadrinhos, a disposição para aprender e compreender, agir com proatividade e até ser destemido. Mais do que dominar diversas áreas de conhecimento ou ter vivenciado determinadas experiências, é necessária a determinação do tradutor para entender bem a obra com a qual se dispõe a trabalhar e buscar realizar toda e qualquer pesquisa, não medindo esforços para alcançar os melhores resultados do processo de tradução.
O mercado das histórias em quadrinhos exige muito de seus tradutores, não só por eles terem de dominar uma linguagem própria, que as HQs de super-heróis acabaram desenvolvendo ao longo do tempo, mas por atingir um público extremamente variado. Os tradutores devem fazer ajustes ao texto original, que deixa de ser soberano na maioria dos casos, principalmente no quesito palavrões que são evitados na maioria das traduções.
[...] Ao avaliarmos a opinião dos tradutores sobre as especificidades da profissão, ou o habitus por assim dizer, percebemos que há unanimidade no quesito “conhecer o universo em que se trabalha”. Os profissionais têm de variar, muitas vezes a cada balão, a forma de falar de cada personagem – tema que discutimos anteriormente sobre dar voz aos personagens. Em um único diálogo traduzido, o profissional deve adequar a classe social, o cargo, as gírias, os maneirismos e os termos específicos de cada personagem. (PIMENTEL, 2018, p. 43).
Os tradutores que trabalham com histórias em quadrinho japonesas partilham dos mesmos objetivos e dificuldades daqueles que trabalham com outros tipos de histórias em quadrinhos. No entanto, o mangá apresenta alguns obstáculos particulares advindos da natureza linguística e imagética. Nesse sentido, Arnaldo Massato Oka32 , o tradutor-chefe da terceira
edição de Saint Seiya, também enumera as principais dificuldades no processo tradutório de mangás: a diferença gramatical na ordem em que se posicionam o sujeito, o verbo e o complemento, sendo invertido em relação ao português, e por isso requer atenção quanto à disposição entre os balões de fala; a transliteração33 – ou romanização – das palavras adotando
um dos sistemas, como o Hepburn, de converter nomes e termos japoneses utilizando o alfabeto latino; as onomatopeias que são amplamente utilizados nos mangás e por vezes não possuem um correspondente exato em português; e as adaptações de ditados e trocadilhos, onde pode haver o caso extraordinário de ter de explicá-los em uma nota de tradução (LUYTEN, 2005, p. 89-90). Ainda discorrendo a respeito do trabalho do tradutor, Oka tem entendimentos particulares quanto ao trabalho tradutório fazendo uma distinção entre tradução e adaptação a
32 Formado em Arquitetura (1997) pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), é apaixonado
por mangás e animês desde a infância. Traduziu a série de TV Cybercops (1990) e, em seguida, o longa- metragem Akira (1991) pela Sato Company. Depois de uma pausa, em 2001 voltou a fazer traduções a partir do mangá Guerreiras Mágicas de Rayearth para a editora JBC, onde continua até hoje. Suas principais traduções são Akira, the movie (1991), Love Hina (2002) e Chobits (2005). (2005, p. 89-90, grifo do autor).
33 Transliterar vem do verbo transliterar, definido no dicionário Dicionário Michaelis Online (2020) como
partir de um exemplo prático do uso de um provérbio que ele pôde observar na sua juventude:
Como tradutor, tenho a preocupação e a responsabilidade de recontar a história de forma atraente para os leitores brasileiros, o que não é uma tarefa fácil. Apesar da dificuldade, o trabalho de tradução é um pouco ingrato: é um trabalho que só é valorizado pelo anonimato. Em outras palavras, quanto menos os leitores repararem no trabalho do tradutor, melhor.
Tradução e adaptação são dois termos que se confundem porque é impossível existir tradução sem um mínimo de adaptação. No entanto, ainda assim prefiro separar os termos e me justifico citando como exemplo uma tradução mal-adaptada (sic) que vi na TV quando adolescente. Foi o caso de um animê chamado Zillion e que passou na TV na década de 1980. Na história, o protagonista, JJ, conversa com seu parceiro de equipe, Champ, para decidir o próximo passo de sua missão de derrotar os inimigos. Champ, um rapaz sabichão, cita um provérbio chinês para expor sua opinião. Em japonês ele fala:
“– Koketsu ni hairaneba koji wo ezu.” Na TV foi traduzida como:
“– Se você não entrar na caverna do tigre, não conseguirá o filhote do tigre.” A tradução está correta. Não houve erro, mas o espectador brasileiro que desconhece o significado do provérbio terá dificuldade em entender o que ele quis dizer. Uma adaptação possível e de compreensão muito mais imediata para o brasileiro seria: “– Quem não arrisca não petisca.”. (OKA, 2005, p. 89-90, grifo do autor).
Ao relatar sua vivência, Oka afirma que o melhor trabalho de tradução é aquele que passa despercebido pelo leitor, uma postura que pode ser interpretada como similar ao discurso da invisibilidade do tradutor. Segundo Venuti (1995, p. 1-2), a transparência seria um efeito ilusório que decorre da fluência, que dá a presunção de que a ocultação do tradutor torna mais visível o autor e o conteúdo do texto estrangeiro. Seria um artifício para atestar a qualidade do trabalho, embora ocasione a ocultação dos meandros do processo tradutório.