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Caractéristique dynamique

Na vasta literatura sobre valores, vê-se que o conceito de valor tem longa história nas diversas áreas de estudo, como na Filosofia, Antropologia, na Sociologia, Psicologia. Consoante Gastaldello (1999), foi a Filosofia a saber que primeiro se preocupou em estudar questões como: por que o homem desenvolve valores? - isto é, crenças e princípios que guiam suas ações. A Psicologia contribuiu com seu ponto de vista com arrimo do indivíduo, que, juntamente com as reflexões filosóficas acerca de valores, originaram verdadeiros compêndios axiológicos.

A problemática sobre os valores se faz questão no tempo e encontra-se presente em situações quotidianas sobre a conduta de uma pessoa ante várias situações, o comportamento das empresas, o que é preferido e o que é preterido. Na efervescência

do fenômeno da responsabilidade social, surge mais uma vez a questão dos valores. Que valores são necessários para se mudar uma realidade do descuido com a humanidade, para se sair de um comportamento individualista? Que valores guiam homens para ações de destruição e outros para ações de construção? Compreender a conduta humana é o primeiro processo que buscam os estudiosos do tema. Pensar valores, porém, passa primeiramente pela delimitação ou conceituação do termo, o que não tem sido tarefa simples para os estudiosos.

Jones e Gerard (1967, apud REICH; ADCOCK,1976, p. 23) definiram valores como

Qualquer estado ou objeto singular que o indivíduo se esforça em obter, do qual procura acercar-se, elogia, adota, voluntariamente consome, incorre em despesas para adquirir, constitui um valor positivo... Os valores animam a pessoa, fazem-na movimentar-se em seu meio, porque definem as sua seções atraentes e repelentes.

Para Jones e Gerard (1967 apud REICH; ADCOCK 1976), um valor expressa uma relação entre sentimentos emocionais de uma pessoa e determinadas categorias cognitivas, como, por exemplo, o alimento (categoria cognitiva) é bom (expressão de sentimento emocional) torna-se um valor positivo ou, por exemplo, a guerra é má faz-se um valor negativo. Essa visão de valores é muito ampla, porque inclui tanto objetos quanto estados mentais. Uma vez que qualquer cognição pode estar associada a uma emoção, o número de valores que um homem pode ter só é limitado pelo número de cognições que possa hospedar.

Numa visão diferente de Jones e Gerard (1967), Allport (1970) dá ênfase ao valor como crença na qual o homem se baseia para atuar por preferência. Isto porque existem várias maneiras de ser e de agir e a pessoa atua conforme sua preferência, sua crença de que é a melhor maneira. O autor reconhece a capacidade de escolha do homem e situa o conceito de valores no centro da sua vida e de suas aspirações. Assim, aproxima-se da concepção sustentada em Rokeach (1973, p. 5) que afirma: “um valor é uma crença duradoura em que um modo específico de conduta ou estado definitivo de existência é pessoal ou socialmente preferível a um modo inverso ou oposto de conduta ou estado definitivo de existência”, como por exemplo, o comportar-se eticamente ou socialmente responsável, podem ser preferidos ao comportar oposto, dependendo dos valores da pessoa.

Para Klukhohn (1951, apud ROKEACH, 1973), valor é uma concepção, explícita ou implícita, diferente de um indivíduo a outro ou característica de um grupo sobre o que é desejável e que influencia a seleção dos modos, meios e fins da ação. A visão de Klukhohn, assim como de Willian (1968, apud SCHWARTZ, 2005a, p.21), é que “valores são critérios utilizados para avaliar ações, indivíduos (incluindo a si mesmo) e eventos”. William (1968 apud ROKEACH, 1973) argumenta que valores explícitos e integralmente conceitualizados tornam-se critérios para julgamento, preferência e escolha. Para esse autor, os valores, mesmo implícitos e não transparentes, funcionam “como se” fossem patamares para decisões comportamentais.

Outros autores como Carman, (1977 apud HOMER et al., 1988) apresentaram argumentos teóricos sugerindo que os valores têm uma influência causal nos comportamentos subseqüentes. Carman (1977 apud HOMER et. al., 1988) desenvolveu um modelo propondo uma relação causal entre valores terminais e valores instrumentais e comportamentos de consumo. Para esse autor, os valores influenciam os comportamentos, tais quais modelos de exposição da mídia e de compras, ambos direta e indiretamente por meio de variáveis de atitudes interventoras (medidas como atividades, interesses e opiniões).

Para Kahle (apud HOMER et al., 1988), os valores são um tipo de cognição social que funciona para facilitar a adaptação do indivíduo ao meio. Valores não só explicam, mas também influenciam o comportamento humano. “Valores são semelhantes às atitudes, no sentido que ambos são abstrações de adaptações que surgem continuamente da assimilação, acomodação, organização e integração da informação ambiental com a finalidade de promover intercâmbios com o ambiente favorável à preservação do funcionamento otimizado”. (KAHLE, 1983 apud HOMER et al., 1988). Sendo os valores o que há de mais abstrato nas cognições sociais, eles refletem as características mais básicas da adaptação. Essas abstrações servem como protótipos dos quais as atitudes e os comportamentos são manufaturados. “Cognições e, portanto, valores também guiam os indivíduos acerca de em quais situações entrar e o que fazer nessas situações”. (KAHLE, 1983 apud HOMER et al., 1988, p. 640). Dentro de determinada situação, a influência deve, teoricamente, fluir de valores abstratos para atitudes e para comportamentos específicos. Esta seqüência pode ser chamada hierarquia

valor - atitude - comportamento (HOMER et al., 1988). Corroboram o pensamento de

BILSKY, 1987), ressaltando que os valores são representações cognitivas de três tipos de necessidades humanas universais: biológicas, necessidades de interação interpessoal e demandas institucionais e sociais para o bem-estar e sobrevivência dos grupos.

Para Rokeach (1973, p. 13), “um valor é uma crença única que guia transcedentalmente as ações e julgamentos através de objetos e situações específicas”. Esse autor assinala que, uma vez que um valor é internalizado, torna-se, consciente ou inconscientemente, um padrão ou critério para guiar a ação, para desenvolver e manter atitudes com relação a objetos e situações relevantes, para a justificativa das ações e atitudes próprias de si e dos outros, para o julgamento moral de si e dos outros e para comparar-se com os outros. Portanto, internalizados em cada indivíduo, os valores vibram mediante gestos de cada um. Os valores não são meros rótulos que podem ser aplicados (ao acaso ou caprichosamente às situações), mas antes de tudo são registros das atitudes plenamente consideradas que se sustentam segundo as crenças de cada qual (diante daquelas situações).

Rokeach (1973) identifica duas importantes funções servidas pelos valores: a de padrões, ou seja, que orientam a conduta humana, pois ajudam a avaliar e julgar cada um e aos outros; a motivacional, que diz respeito ao componente que expressa osesforços no sentido de realizar um valor. Rokeach enfatiza mais os valores que as pessoas têm do que aqueles havidos como inerentes aos objetos. Por exemplo, se se acredita que ser honesto é mais importante do que autocontrolado, ou que a salvação é mais importante que o prazer, então a honestidade e a salvação têm maior valor para as pessoas. Em sua definição, o autor atribui uma característica duradoura aos valores e traz um componente emocional.

Bem (1973, p. 33) defende idéias semelhantes às de Rokeach (1968) quando declara que “valor é uma preferência primitiva por, ou uma atitude positiva para com certos estados finais da existência (como igualdade, salvação, autorealização, liberdade) ou determinados modos amplos de conduta (como coragem, honestidade, amizade, castidade)”. Para o autor, os valores são fins, não meios, e o fato de serem desejáveis é uma suposição não consciente (crença de ordem zero) ou uma derivação direta da experiência da pessoa ou de alguma autoridade externa (crença de primeira ordem). O autor argumenta ainda que, para se saber se uma atitude positiva ou uma crença avaliativa de um indivíduo determinado é um valor, é preciso conhecer o papel funcional que desempenha em seu sistema de crenças.

Analisando a literatura dos valores, Schwartz e Bilsky (1987, p. 551) levantaram cinco características comuns à maioria das definições de valores:

Valores são princípios ou crenças sobre o desejável ou estados de existência, que transcendem situações específicas, que guiam a seleção ou avaliação de comportamentos e eventos que são ordenados por sua importância.Assim, Valores são representações cognitivas de três tipos de necessidades universais humanas: necessidades biológicas do organismo, necessidades de interação social para a coordenação interpessoal e demandas socioinstitucionais para a sobrevivência e o bem-estar dos grupos.

Tamayo e Schwartz (1993, p, 330), prosseguindo no estudo dos valores, asseguram que na Psicologia Social, os valores

São definidos como princípios transsituacionais, organizados hierarquicamente, relativos a estados de existência ou modelos de comportamentos desejáveis, que orientam a vida do indivíduo e expressam interesses individuais, coletivos ou mistos, bem como diversos tipos motivacionais.

Nessa definição ressaltam-se as metas que o indivíduo fixa para si mesmo, relativas aos estados de existência – valores terminais – ou aos modelos de comportamentos desejáveis – valores instrumentais.

Os valores apresentam uma hierarquia (prioridades axiológicas), baseada na importância (maior ou menor) que eles têm na vida do indivíduo (TAMAYO, 1994) e uma função que é a de determinar a rotina diária, orientando a vida da pessoa e determinando a forma de pensar, agir e sentir. Dessa forma, para a Psicologia, os valores são um dos motores que iniciam, orientam e controlam o comportamento humano. “Eles constituem um projeto de vida e um esforço para atingir metas de tipo individual ou coletivo”. (TAMAYO; SCHWARTZ, 1993, p. 331).

Sintetizando, então, as definições, pode-se ressaltar que valores são princípios nos quais se baseiam as percepções, o que se quer, as escolhas, metas, ações, opiniões e avaliações das pessoas. Pode-se, pois, dizer que, se as pessoas compartilham de valores semelhantes, as diferenças de ações, opiniões, escolhas derivam do grau de

importância que a elas é atribuído. É nesse aspecto que este trabalho se concentra,

tentando buscar contribuições explicativas para a participação em projetos sociais, com esteio nos estudos de Milton Rokeach, pelo fato de ter dedicado especial atenção à articulação dos valores entre si (sistema de valor) e de Shalom H. Schwartz e Álvaro Tamayo, pelo fato de terem desenvolvido pesquisas incluindo o Brasil.