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Caractérisations par photoluminescence des structures nitrurées

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Chapitre 3 : Elaboration et caractérisation des structures InN/InP

3.5 Caractérisations par photoluminescence des structures nitrurées

Foucault destaca quatro noções principais que ordenaram estruturalmente o saber desse período. A primeira é a da convenientia que indicava uma relação espacial de proximidade entre todas as coisas. Era por meio dela que se explicava, por exemplo, a comunicação entre a alma e o corpo. Essa relação de conveniência natural permitia também acreditar na influência da vontade de Deus na terra e nos destinos do homem, pois essas cadeias de semelhanças permitiam a comunicação de suas propriedades.67

A segunda noção que estruturava o saber de semelhança era a aemulatio. Era a partir dessa espécie de duplicação do ser que se explicavam as relações entre os astros e os homens, uma vez que a emulação natural do mundo possibilitava a influência à distância do céu nos seres da terra. Já a terceira noção é a da analogia, que permitia descrever inúmeras relações possíveis entre todas as coisas. O homem aparecia, assim, no horizonte do saber como um objeto no qual se poderia encontrar por analogia as propriedades de todas as outras coisas. Crollius, por exemplo, o comparava com a terra

67 Foucault também publicou um esboço deste capítulo, no mesmo ano de publicação de As palavras e

as coisas, na revista Diogène, nº53, sob o título de “A prosa do mundo”. Cf. FOUCAULT, M. Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000, pp.10- 29. (Ditos & Escritos II).

e dizia que: “[...]sua carne é uma gleba, seus ossos, rochedos, suas veias, grandes rios,

sua bexiga é o mar e seus sete membros principais, os sete metais que se escondem no fundo das minas”.68

A quarta noção é a da simpatia que, por sua vez, era equilibrada com a da

antipatia. A primeira era vista como o princípio de mobilidade que levava todas as

coisas no mundo a naturalmente se aproximarem e a se identificarem. Já a segunda explicava a permanência de suas diferenças, pois este princípio contrário permitia que o múltiplo não se reduzisse a um e ao mesmo. Como destaca Philippe Sabot:

Le système du savoir renaissant que Foucault a décrit jusqu’ici permet donc de rendre compte de la manière dont peuvent s’établir les ressemblances (par convenance, par émulation, par analogie). Il reste à comprendre comment s’articulent les différents plans du semblable: la contiguïté spatiale, le reflet entre les lointants, le réseau des identités (mise en rapport, au sein de l’analogie, du contigu et du lointain, avec, au point de croisement des ces deux dimensions, l’homme comme foyer analogique). Cette articulation est assurée par le couple sympathie/antipathie dont Foucault pose le caractere structurant pour les autres formes de ressemblance.69

Foucault percebe que havia ainda uma noção muito importante no saber desse período que é a das assinalações. Será através das assinalações presentes em todas as coisas que o homem poderá encontrar os indícios dessa ordem de um mundo constituído pelas semelhanças. As assinalações se constituem como se fora a linguagem do mundo. Cabe ao homem, assim, aprender a ler e a interpretar essa linguagem natural escrita por Deus. Essas marcas, por sua vez, são visíveis justamente pelas semelhanças que elas trazem com aquilo que indicam como, por exemplo, a de que o fruto da noz serve como remédio para as dores de cabeça. Entre o visível e o dizível, o espaço do saber renascentista se caracteriza por partir de uma semiologia das assinalações em direção a uma hermenêutica que busca revelar o sentido que nelas se ocultam.70

68 Apud. Crollius. Traité des signatures. In: FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia

das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p.30. MC, p.37.

69 SABOT, P. Le Même et L’ordre. Michel Foucault et le savoir à l’âge classique. Lyon: ENS Éditions,

2015, p.27.

70 Para o aprofundamento acerca dessa distinção entre o visível e o enunciável ao longo do trabalho de

Foucault, sugerimos os excelentes trabalhos intitulados: Foucault, de Gilles Deleuze, e Ordre et temps dans la philosophie de Foucault, de Diogo Sardinha. Cf. DELEUZE, G. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 2005; SARDINHA, D. Ordre et temps dans la philosophie de Foucault. Paris: L’Harmattan, 2011.

Para as ciências contemporâneas, a estrutura epistemológica dos conhecimentos elaborados nesse período era ainda extremamente ingênua e inconsistente, pois ela permitia que práticas como a magia natural, a astrologia e a exegese de textos clássicos reivindicassem a possibilidade de acessarem à verdade. Ao procurar se situar num nível mais fundamental que o da história da ciência, Foucault vê que cada um desses saberes estava igualmente justificado, pois conhecer não era outra coisa senão interpretar os signos das semelhanças entre as palavras e as coisas.

Na Renascença, as palavras e as coisas ainda percebiam o mesmo estatuto ontológico. O mundo era visto como um texto a ser lido e as palavras como coisas a interpretar. Dessa forma, o conhecimento empírico, que caracteriza a prática científica contemporânea, se situava lado a lado com os saberes que buscavam a verdade através da leitura de um texto sagrado ou dos sábios antigos; das linhas das mãos de uma pessoa; ou ainda, do movimento dos astros. Isso porque, cada uma dessas práticas constituía uma maneira de conhecer através da interpretação. Uma vez que a natureza e a cultura ainda não estavam definitivamente separadas por uma visão estritamente naturalista do mundo, Foucault dirá que: “[...] a natureza e o verbo podem se

entrecruzar ao infinito, formando, para quem sabe ler, como que um grande texto único. ”71

Neste caso, uma ciência da linguagem deveria se constituir tal como se fora uma ciência da natureza. Ao voltar sua atenção ao trabalho de Pierre Ramus, nosso autor percebe que, em sua gramática, a etimologia visava a identificar as propriedades intrínsecas às próprias letras; já a sintaxe, às propriedades e as relações entre as palavras. Com isso, não há ainda qualquer tentativa de desvelar os conteúdos representativos ou os significados originários, tal como o farão os futuros estudos acerca da linguagem. O mito de Babel ainda explicava o porquê da existência de diferentes línguas. E, os estudos esotéricos não passavam de uma forma plenamente justificada de tentar interpretar a natureza enigmática que constituía esses signos.

Foucault observa que acontecimentos culturais como a reforma protestante, o surgimento da imprensa e a emergência de uma nova linguagem literária denotam exemplarmente essa maneira de lidar com a linguagem. A compreensão do sentido da Palavra de Deus, as informações cotidianas e as narrativas das desventuras dos homens

exigem agora uma linguagem escrita. Num mundo inteiramente constituído pela linguagem, o conhecimento vai se desenvolver através da multiplicação de comentários. Interpretam-se signos e estes, por sua vez, remetem sempre e indefinidamente para outros signos.

Aldrovandi, por exemplo, fazia história natural multiplicando tudo o que se via e, sobretudo, tudo o que se dizia sobre os animais, pois conhecer era justamente encontrar e interpretar a linguagem da natureza e a linguagem dos homens. Entretanto, em lugar de dizer que essa forma de saber testemunharia uma racionalidade ainda adolescente de nossa ciência, a arqueologia foucaultiana dirá que essa hermenêutica das palavras e, sobretudo, das coisas era uma forma de saber inteiramente fundada e justificada justamente por esse espaço do saber, isto é, pela

epistémê das semelhanças que conformou sua condição de possibilidade.72 Foi ela, e

não a genialidade ou a ingenuidade deste ou daquele autor que verdadeiramente determinou a produção científica e filosófica desse período.

Nesse trabalho infinito dos textos, a interpretação almejava um dia talvez encontrar e desvelar o verdadeiro sentido da Linguagem Primeira a partir da qual todas as outras formas de linguagem são derivadas. Já os saberes que visavam a conhecer a linguagem das próprias coisas encontraram nas noções de microcosmos e macrocosmos os horizontes que os delimitaram. Foucault se opõe à história da ciência e à história da filosofia que predominantemente apontam esse período da cultura ocidental como sendo aquele no qual o homem recuperou a centralidade do saber e, portanto, denotaria o renascimento da cultura humanista. Se é verdade que a compreensão do homem enquanto um microcosmo foi operante nos saberes renascentistas, também é verdade que, de um ponto de vista arqueológico, ela não passa de uma necessidade secundária de um saber construído fundamentalmente a partir da multiplicação de relações de semelhanças.

72 Sobre essa questão, Philippe Sabot diz que: “On résume souvent l’analyse de Foucault en indiquant

que, d’après lui, la Renaissance désigne cette époque historique du savoir où les mots et les choses s’entre-appartiennent. C’est trop peu relever selon nous que cette épistémè se déploie surtout sous la contrainte d’un système de ressemblance redoublée: les mots ressemblent aux choses (ce qui fonde la possibilite d’une connaissance de la nature) et les choses ressemblent aux mots (ce qui renvoie la possibilité de connaître ces choses au travail indéfini du commentaire). ” SABOT, P. Le Même et L’ordre. Michel Foucault et le savoir à l’âge classique. Lyon: ENS Éditions, 2015, p.39.

Ao final desse período, nosso autor percebe um acontecimento73 decisivo no modo de ser da linguagem, cuja consequência foi a da reconfiguração geral do saber e a passagem de um saber ordenado desde a epistémê da semelhança para uma nova

epistémê que, na Idade clássica, será a da representação. Isso porque, a linguagem

deixa de ser tomada como alguma coisa desde sempre já inscrita no mundo. As palavras e a coisas encontraram um domínio próprio e absolutamente distinto. Com isso, os signos que até então manifestavam as relações entre significantes, significados e as assinalações que permitiam interpretá-los, perderão esta última característica.

Nos séculos XVII e XVIII um signo passará a ser investigado unicamente no domínio das representações a partir da análise do modo em que se dá a ligação de um significante com um significado. E, uma vez que a semelhança deixará de ser o código fundamental e ordenador do saber, o conhecimento, seja filosófico ou científico, abandonará o domínio da interpretação em direção a um método analítico, pois somente ele será capaz de, sobretudo, estabelecer as identidades e as diferenças entre as coisas. De acordo com Foucault:

A profunda interdependência da linguagem e do mundo se acha desfeita. O primado da escrita está suspenso. Desaparece então essa camada uniforme onde se entrecruzavam indefinidamente o visto e o lido, o visível e o enunciável. As coisas e as palavras vão separar-se. O olho será destinado a ver e somente ver; o ouvido somente a ouvir. O discurso terá realmente por tarefa dizer o que é, mas não será nada mais do que ele diz.74

Finalmente, o que é preciso reter da arqueologia foucaultiana é que, nessa época, o homem ainda não havia constituído para si um domínio epistemológico próprio no espaço do saber. Poderíamos dizer, então, por analogia, que na Renascença era o próprio homem que não passava de uma pequena Aleph de “dos o tres

centímetros” no qual um saber exegético e esotérico almejava reencontrar todas as

semelhanças e todos os mistérios que secretamente ordenavam o mundo. Entretanto, assim como Foucault, Borges já nos alertara que, ao olhar para essa pequena pedra,

73 Sobre o uso do conceito de acontecimento no trabalho de Foucault sugerimos o excelente trabalho

de Gabriela Jaquet, intitulado A condução de si e dos outros através de uma acontecimentalização da história em Michel Foucault. Disponível em:

http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/143133/000996179.pdf?sequence=1

74 FOUCAULT, M. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins

sua personagem não se encontrou, pois nesse exato momento diz ela: “[...] vi todos los

espejos del planeta y ninguno me reflejó”.75

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