Chapitre II. Matériaux et méthodes
II.2 Méthodes expérimentales
II.2.2 Caractérisations microstructurales
Como se pode notar a partir da Figura 10, a seguir, há uma igreja no centro da Praia do Aventureiro, a Igreja de Santa Cruz, que foi primeiramente construída como uma capelinha em estuque, e sua história é a seguinte, segundo Maciel, Souza & Cardoso (2011):
Os antigos contavam que cerca de 150 anos atrás fazia parte da comunidade da Praia do Aventureiro um moço cujo nome era Josué. Este homem vivia gritando, gritava por tudo! Um dia, ele foi pescar de canoa ali perto do Cael de Varejo e a canoa dele virou. Então, ele começou a bater os braços, gritando e pedindo socorro. Só que ninguém deu importância ao seu pedido pois estavam acostumados com suas brincadeiras bobas. [...] Seu corpo afundou, aparecendo alguns dias mais tarde, já bem deteriorado. Encalhou justo ali, onde está hoje a Igreja de Santa Cruz. Então seu pai
pegou seus restos mortais, enterrou-os, pondo um marco – uma cruz de
cedro28 – madeira de lei, bem naquele lugar. A Vila ficou muito triste com o
ocorrido e, de quando em quando, as mulheres se reuniam para rezar ao redor daquela cruz. Mesmo ficando muito tempo ao relento a cruz não se deteriorou e as senhoras continuaram a sentar-se na areia rezando em memória de Josué. Tornou-se um ritual de fé e, achando-se até que poderia tratar-se de um milagre, o fato do marco estar em perfeito estado, a comunidade resolveu construir naquele local uma capelinha de estuque e
sapê29, para preservar a cruz e atrair mais devotos [...]. Com o decorrer dos
anos cresceu a fé em Santa Cruz e com a prosperidade do lugar, os
moradores foram modernizando a capelinha30 [...] trocaram a taquara e o
barro por tijolos e o sapê por telha canal (MACIEL, SOUZA & CARDOSO, 2011, pp. 71-72).
Há três aspectos os quais gostaria de trazer à reflexão, e que grifei na citação acima: (1) A autora menciona que fizeram uma “cruz de cedro” para ser um marco dos restos mortais de Josué. Isso demonstra um conhecimento sobre as espécies que estão à disposição na floresta, como recurso de vida e para a manutenção das crenças. (2) A “capelinha de estuque e sapê” é um tipo de edificação antiga, e foi uma prática existente até quando começaram a levantar as casas em alvenaria. (3) Depois, “foram modernizando a capelinha”, substituindo os métodos e materiais de construção conseguidos ali mesmo na vila pelos comprados na cidade, o que denota que os saberes foram adaptados, e o que deu entrada aos métodos modernos de construção. 28 Grifo nosso. 29 Grifo nosso. 30 Grifo nosso.
Há também, perto da Igreja, a Escola Municipal Osório Manoel Corrêa, que vai até a 4ª série do nível fundamental. É uma escola com apenas uma turma multisseriada, com uma professora para todas as disciplinas, como também ocorre no Saco do Mamanguá, Paraty, RJ (GARROTE, 2004). A escola compreende uma sala de aula, uma pequena horta, um pátio com área de lazer, a sala da diretoria, uma cozinha para preparo da merenda. Nessa escola, estudam as crianças menores. As maiores continuam os estudos na escola de Provetá, inaugurada no ano 2000, que oferece também o ensino médio completo, ou em Angra dos Reis.
Para levar os alunos do Aventureiro até o Provetá, quando o tempo está bom, vem um barco às 7 horas da manhã, quando é possível vê-los surgindo dos caminhos de suas casas até o cais, onde aguardam o barco. Quando alguém se atrasa, corre para não perder o barco, que sai pontualmente ou até um pouco antes da hora marcada. No inverno, por vezes, não há transporte para eles, já que o mar está “grosso” e venta muito, o que torna muito perigosa a travessia. Nesse caso, eles vão de trilha até Provetá ou simplesmente não vão enquanto o tempo não melhorar.
Veremos, a seguir, um croqui das edificações do Aventureiro (Figura 10) de acordo com o que observei em campo, que mostra a encosta, a planície, a praia e o mar; as moradias e edificações públicas, como a igreja, a escola e a sede do INEA; e a infraestrutura turística, como campings, quartos para turistas e bares/restaurantes.
Por entre os tons de verde da mata, podemos ver as edificações, pequenos pontos brancos das casas, misturando-se ao verde à sua volta, e algumas ampliações das casas com uma lona azul destoante, mas que é o material autorizado pelo INEA para essa finalidade. Seu modo de vida pode ser visto nas edificações, nas festas, no trabalho e nas relações familiares. As edificações no Aventureiro eram todas tradicionalmente construídas de estuque, por meio do trabalho em mutirão, que é quando as famílias e compadres se unem em função do trabalho. De acordo com Adams (2000c, p. 109), os mutirões “levavam a uma distribuição mais ou menos equitativa dos produtos obtidos nas culturas”, visto que estão baseados em solidariedade e reciprocidade.
Quando os parentes e compadres se uniam para um mutirão na construção de uma casa de estuque, por exemplo, todos se ajudavam sem a exigência de salário, mas em uma relação de reciprocidade, em que um ajudava ao outro seja na roça, na casa de farinha, ou na construção de outra casa. E é a partir da transmissão de saberes que é possível construir a casa, não somente aos compadres da mesma geração, mas entre gerações diversas, por meio de observação, vivência e imitação. Além do mais, quando construíam uma casa de estuque, utilizavam matéria-prima local, o barro, a madeira, o sapê. E esse é um conhecimento também transmitido por meio das gerações. Atualmente, poucos têm o conhecimento da construção de casas de estuque no Aventureiro, tendo em vista que as novas casas são construídas em alvenaria, com tijolos e cimento comprados em Angra, por um pedreiro pago.
A casa de estuque, ou pau-a-pique31, que é uma modalidade de adobe, era feita com “o barro amassado, o bambu, caibros retirados da mata, sapê, cipó para fazer às vezes de pregos” (MACIEL, SOUZA & CARDOSO, 2011, pp. 83-84). Hoje em dia, as casas sofreram modificações, “quando não foram totalmente reconstruídas em alvenaria, têm partes em alvenaria acopladas ao restante, de estuque” (FERREIRA, 2004, p. 71), ou ainda paredes de estuque acopladas ao restante em alvenaria, e o mutirão cedeu lugar ao trabalho dos
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Técnica de construção através de entrelaçamento de bambu – no caso do Aventureiro –
vertical e horizontalmente, para preenchimento com barro, formando, assim, as paredes da casa.
pedreiros, com materiais de construção comprados em Angra. Ao aguardar o barco no cais da cidade, é possível observar toda a movimentação dos passageiros carregando os barcos com esses materiais para ir para a Ilha Grande, em meio ao descarregamento de peixes de outros vários barcos atracados ao cais.
Voltando ao Aventureiro, suas casas, distribuídas na planície da praia e na subida do morro, como será visto na Figura 11, são pequenas e todas formam uma espécie de rede, porque são ligadas por trilhas, o que também acontece entre casas e roças. O mesmo ocorre na comunidade do Escaléu e de forma diferente na de Ipanema, onde as casas se dispõem na orla da praia (VIANNA, 2008). Ambas as comunidades ficam em Paraty (RJ).
Figura 11: Distribuição das casas na planície e na subida do morro (Fonte: Acervo pessoal)
É recorrente também que, apesar de cada família ter sua propriedade privada (casa/quintal), ela não seja cercada, ou que seja usada cerca viva, e que as casas sejam ligadas por trilhas, ou melhor, “caminhos” por dentro da mata. Na Ilha Grande, isso se repetia em outras comunidades antes do crescimento do Turismo, como já foi o caso do Provetá e do Bananal. Certa
vez, indo para o Aventureiro por trilha junto com o Lourival, ele me avisou que pegaríamos uma trilha secundária, que nos levaria até a casa dele e da Bete e, de lá, eu iria até a praia.
Woortmann (1991, p. 16) menciona a casa como “o centro das atividades familiares” e componente do “campo feminino”, um espaço de encontro, que reúne a família e as visitas, geralmente na cozinha. As casas no Aventureiro têm uma cozinha grande e, como pude notar, na maioria das vezes, dividida em duas partes – uma interna e uma extensão externa. É a parte da casa em que a família mais se encontra e onde recebem as visitas, o que sempre acontece acompanhado de um convite ao café, alguns quitutes e prosa. Por um viés um pouco diverso, na casa da Bete, o espaço da casa de farinha torna-se a cozinha quando não está em atividade, com essa mesma peculiaridade de que parte da cozinha (pia, “bica”, mesa) fica na varanda e no quintal.
Nas casas, nota-se uma sala pequena, quase nunca usada, a não ser quando a família se reúne, principalmente na hora das novelas, que coincide com o período em que o gerador a diesel é ligado, das 18 às 22 horas, salvo nos períodos de alta temporada, quando o gerador fica ligado por mais tempo para satisfazer a necessidade dos turistas.
Os geradores, no Aventureiro, são abastecidos com óleo diesel que, em Angra dos Reis, em agosto de 2012, estava custando R$ 2,13 por litro. Em dias comuns, os geradores ficam ligados quatro horas por dia, o que dá um consumo de quatro litros por hora, ou seja, dezesseis litros de diesel por dia e, em um mês com 30 dias, 480 litros de diesel. Então, no final do mês, são gastos ao menos R$ 1.022,40 por mês, só para o uso do gerador que, segundo Cátia (54 anos, merendeira), “gasta esse dinheirão com diesel [...] porque todo
gerador do Aventureiro, ligado às [...] 6 horas da noite, de 6 às 10, e quando é época de feriado, amanhece o dia rodando”. Além do gasto alto com
combustível para o gerador, há de se pensar que o equipamento traz consigo poluição sonora, atmosférica, do solo, consequentes de seu uso, e que seriam bem menores com o uso da eletricidade trazida por cabos, como acontece no Provetá, ou da energia solar.
Como se não bastasse a poluição no solo, no ar e sonora que o gerador produz, ainda causa um prejuízo enorme às famílias que permanecem na sua
terra e dependem de algumas poucas atividades para obter ganho monetário. Há um morador, Edson, marido da Rosa, em fase de construção de seu barco, e que precisa manusear instrumentos elétricos de carpintaria, usando, para isso, energia elétrica que é gerada pelo motor a diesel. Com isso, os gastos com o combustível sobem muito, visto que é bem maior que o período de 4 horas diárias em que geralmente os geradores são usados.
Há aqui, também uma prática dos saberes tradicionais adaptada com saberes modernos, tendo em vista que o barco demanda o uso de equipamentos elétricos, modernos, ligados com a eletricidade gerada a diesel.
O quintal das casas tem características definidas por seus moradores. Apesar das semelhanças postas, haverá distinção entre os quintais de comunidades diferentes e, mesmo no contexto da comunidade em questão, distinção entre os quintais conforme localização geográfica (encosta-planície), época do ano (verão-inverno, alta temporada-baixa temporada) e trabalho familiar (roça-pesca-turismo). Nos quintais do Aventureiro, tem-se grande variedade de árvores frutíferas, e notamos alguns coqueiros, bananeiras, mangueiras, dentre outras.
Lotados de barracas na alta temporada turística, os quintais foram aproveitados para área de camping. Essas são as casas das famílias “mais prósperas”, segundo Costa (2008, p. 14), porque o maior, mas não o único, ganho monetário está nos serviços prestados para os turistas. As casas mais próximas à praia são as que mais recebem turistas em seus campings, e também conseguem obter maior ganho monetário com isso. Algumas casas, ou partes delas, foram transformadas em quartos para os turistas, com acesso a banheiro e cozinha.
Outra dimensão interessante é que os quintais são um espaço de trabalho alternado, feminino e masculino, diferente da contraposição entre roça (feminino) e pesca (masculino) (WOORTMANN, 1991), como será visto no capítulo 2. Os turistas montam suas “moradias temporárias”, as barracas, nos quintais e tornam-se “membros temporários” da família, como veremos no capítulo 4.
Além dos quintais, “a casa de farinha era um importante local de encontros” (ADAMS, 2000c, p. 110), e, embora em menor escala devido à diminuição da quantidade de casas de farinha no Aventureiro, continua sendo
um local de encontros, onde a família e compadres se reúnem mantendo um laço de parentesco e compadrio importante para a solidariedade na comunidade, e, com o encontro entre gerações, possibilitando também a transmissão dos saberes da produção de farinha e de cultivo da roça.