Chapitre III. Mécanismes physico-chimiques du compostage
III.3. Caractérisation par Résonance Magnétique Nucléaire
III.3.1. Caractérisations des mécanismes du compostage
A 17 de agosto de 1913 realizou-se o primeiro Serão Literário de Alcobaça, que o escritor fez questão de organizar minuciosamente, contando com a preciosa ajuda de Vieira Natividade. O serão inaugural contou com trechos camonianos, o último ato de A Castro, de António Ferreira, e o então inédito soneto sobre "Os Túmulos" (posteriormente incluído na obra Ilhas de Bruma), ditos pelo ator Augusto Rosa, dança, música e poesia pelas irmãs Alice e Maria Rey Colaço, serão durante o qual o escritor
proferiu a conferência Inês de Castro na Poesia e na Lenda, posteriormente integrada no volume de ensaios Em demanda do Graal (1922, pp. 39-74).
A correspondência com Augusto Rosa durante este período é muito grande, evidenciando o controlo total que Lopes Vieira exercia sobre a conceção integral do programa, raramente acedendo às alterações propostas pelo ator, sobretudo quando implicavam a escolha dos textos. Há uma interessante troca de bilhetes e cartas entre Augusto Rosa e o poeta, durante o mês de julho de 1913, que mostram uma discordância quanto à edição de A Castro a utilizar em Alcobaça: o poeta acaba por convencer o ator da prevalência do texto quinhentista de António Ferreira sobre a do romântico de Baptista Gomes. Veja-se a carta seguinte:
Querido Augusto:
Tenho estado a pensar em V., pensando nas leituras q. V. dirá em Alcobaça. E sou chegado a esta conclusão, q. lhe proponho. V. terá 2 n.ºs do programa — lendo no primeiro o q. já lhe digo, e no 2.º o Episódio dos Lusíadas. Ora essa primeira leitura seria a do final do acto V da Castro de Ferreira, começando no verso do Infante — Que novas trazes? e daí até ao fim. Esse final é soberbo de força, de calor e dor, e estou convencido q. V. gostará dele para o dizer lá. Leia-o e diga-me a resposta, p.ª se ir fixando o programa com tempo e descanso. Parecia-me terem assim as suas leituras, ambas Inesianas, mór nobreza e caracter. Espero resposta. — Começo apenas a convalescer…
Nossos melhores cumprimentos p.ª a Sr.ª D. L. Amigo certo e admirador
Até cá! Affonso
[ANTT, 545, p/2, 46, bilhete com carimbo de 5 de julho de 1913]
Embora a festa venha a ter um impacto muito grande junto do público, a verdade é que o evento era de tal modo inovador e diferente do fazer tradicional, que a imprensa da época mostra bem como este 1.º Serão se fez notado. Um jornalista do Semana Alcobacense chega mesmo a registar o que considera ser a pouquíssima preparação do público de então para um tipo de espetáculos culturais tão completos, como o do Serão:
Para falar com autoridade da linda e estranha festa que foi o serão de domingo último no claustro de D. Dinis do nosso Mosteiro, para a poder compreender tal qual ela verdadeiramente foi, é preciso dispor de uma educação artística e de uma educação literária, que nós sentimos bem faltar-nos completamente. Ainda, para isso, não é possível dispensar uma estreita afinidade com o passado, sobretudo com o assunto que motivou e serviu de tema ao serão de há oito dias; e nessa intimidade raros são os que vivem em toda a sociedade portuguesa. […]
[AN, 24 de Agosto de 1913, pp. 1 e 2. [R, I: f. 96v.]]
O escritor sonha-a como uma festa especial para os amigos, a quem gostaria de surpreender com uma encenação estética particular, propícia à leitura do seu soneto. Sempre preocupado com a repercussão pública dos seus atos, pensa imediatamente em deixar esse final de festa na ignorância do grande público, o que mostra, ao mesmo tempo, como sabia controlar a sua imagem pública e não subestimava o poder da imprensa da época, antes procurava controlá-la a seu favor .
Efetivamente, a reação da imprensa é muito favorável, e a cobertura do acontecimento é enorme, com reportagens e artigos inteiros de página principal, com clichés fotográficos e reprodução integral dos discursos produzidos, ajudando a construir uma projeção de mérito extraordinário à volta da realização desta festa única, e contribuindo para criar uma expectativa sobre necessidades artísticas futuras e apetência positiva na receção pelo público. Leiam-se as encomiásticas palavras de Serras Conceição, no Notícias de Alcobaça, de 24 de Agosto de 1913, que servem de espelho às similares notícias produzidas pela imprensa da época:
“[…] Foi essa Inês da lenda, que os poetas cantaram e as águas do Mondego longo tempo chorando memoraram; foi essa linda figura de mulher de colo de garça, desventurada amante dum príncipe cruelmente sacrificada pelos enredos de cortesãos ambiciosos e desapiedados, e que inolvidavelmente revive na tradição poética da fonte dos amores, que Afonso Lopes Vieira e Manuel Vieira Natividade quiseram levantar ante nosso espírito maravilhado na noite de 17, com o concurso brilhante de Augusto Rosa – o mestre incomparável do teatro português – que sobretudo na leitura do acto V da Castro de António
Ferreira teve o auditório verdadeiramente suspenso, tomado de assombro e comoção. / Não podia ser mais completo o êxito. […]” (Conceição, 1913, p. 1)
Só uma materialização posterior do programa, onde se incluíam os recortes dos jornais da época que referissem o evento , consegue aligeirar o período de melancolia e solidão que se segue aos grandes acontecimentos culturais — transformados em primeiro motivo de vida de um esteta claramente assumido. De facto, os poderes locais registem na memória institucional a intervenção de Lopes Vieira a favor da cultura alcobacense. A Câmara Municipal de Alcobaça, na sua sessão de 27 de agosto de 1913, regista a seguinte homenagem a Afonso Lopes Vieira:
“Que não devendo a câmara municipal desinteressar-se de qualquer facto que concorra para o celebrizar esta vila, chamando a atenção dos estranhos para as suas coisas notáveis, e reconhecendo que a festa de Arte, realizada no Claustro do Mosteiro em 17 de Agosto, teve a beleza estranha de um acontecimento surpreendente, impregnado de beleza genial e poesia emotiva, que a toda a assistência maravilhou, resolve consignar na acta a homenagem de respeito e consideração da câmara pelo ilustre poeta sr. ALV; e os seus agradecimentos por ele se ter dignado escolher Alcobaça para a realização do sarau literário e artístico, que para o seu altíssimo valor lhe bastava a preciosa jóia literária que é a conferência apresentada por aquele delicadíssimo poeta”. [R, I: f. 97v.]
Mas o evento só ganhará tradição através dos esforços individuais a que a imprensa dá projeção nacional. Pelos anos fora, Lopes Vieira vai continuar o seu empenho na realização destes Serões de Alcobaça, ligando-os, aos poucos, cada vez mais à área musical, campo no qual tinha vários amigos que se disponibilizavam para fazer parte de um programa musical, no Verão.