A Análise das Redes Sociais (ARS) é uma abordagem com fundamentação teórica (MATHEUS; SILVA, 2006). Neste sentido, trata-se de:
Uma abordagem oriunda da Sociologia, da Psicologia Social e da Antropologia [...]. Tal abordagem estuda as ligações relacionais (da expressão em inglês relationaltie) entre atores sociais. Os atores na ARS, cujas ligações são analisadas, podem ser tanto pessoas e empresas, analisadas como unidades individuais, quanto unidades sociais coletivas como, por exemplo, departamentos dentro de uma organização, agências de serviço público em uma cidade, estados-nações de um continente ou do mundo [...].
Assim, a ARS interessa a pesquisadores de vários campos do conhecimento que, na tentativa de compreenderem o seu impacto sobre a vida social, deram origem a diversas metodologias de análise que têm como base as relações entre os indivíduos, numa estrutura em forma de redes. No Brasil, é provável que Marteleto (2001) tenha sido a primeira a produzir um artigo nas ciências da informação(CI) sobre análise de redes sociais – ARS -, em que foram trazidos o conceito de rede social e uma metodologia para a análise de informação em canais informais (MATHEUS; SILVA, 2006). Neste mesmo caminho, posteriormente, em 2004, em coautoria com Silva (MARTELETO; SILVA, 2004), esta mesma autora
publicou outro artigo, enfatizando o conceito, a formação e os impactos do capital social, além da relação da informação como objeto de promoção desenvolvimento, deixando evidente o papel das redes sociais para o mundo moderno. Marteleto e Silva (2004), por exemplo, consideram “importante o uso da metodologia de análise de redes sociais para a compreensão do fenômeno do acesso à informação e sua importância para o desenvolvimento econômico e social de comunidades e grupos sociais”.
Além disso, segundo Matheus e Silva (2006), a Análise de Redes Sociais possibilita a materialização do propósito das relações sociais e vem sendo utilizada em várias áreas, tais como na Administração, na Ciência da Informação, na Computação e na Comunicação, graças à flexibilidade que se tem na definição dos atores e dos laços entre eles. Assim, de acordo com a citada fonte, o ator é visto como uma entidade de onde e para onde convergem relações, que ocorrem num determinado contexto. Atores podem ser, portanto, documentos, membros de uma organização ou as próprias organizações; enquanto os laços são vínculos de coautoria entre pesquisadores, de parentesco em uma comunidade, de relações hierárquicas em uma empresa ou as ligações de fornecedores e compradores entre empresas de uma região ou país.
Como se pode perceber, a Análise de Redes Sociais (ARS) é uma tradição de pesquisa recente nas Ciências Sociais, apresentando mais que 30 anos de vida. Entretanto, a ARS desenvolve-se a passos largos, especialmente a partir da consolidação de um conjunto de conceitos operacionais próprios da análise relacional9
Por outro lado, a ARS ainda se ressente de um debate acalorado, porém aparentemente marginal, com respeito às várias
e, nos últimos 10 anos, a partir do impulso dado aos modelos estatísticos de redes ajustadas ao clássico problema da não independência e não linearidade das relações sociais (MATHEUS; SILVA, 2006).
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A análise de redes sociais parte do pressuposto de que as relações sociais constituem a unidade básica da sociedade, ao invés dos atributos dos indivíduos. Nesse sentido, o mundo social seria formado ontologicamente por padrões de relação de vários tipos e intensidades em constante transformação (Emirbayer, 1997).
abordagens teóricas que se utilizam das redes sociais. Por exemplo, a perspectiva estrutural das redes não é exatamente consensual. Mesmo quando se observa a presença mais destacada de certas tradições intelectuais (como a antropologia social britânica ou o estruturalismo americano de Harrison White e Peter Blau), ainda assim a interpretação e utilização de termos chave como “estrutura”, “organização” e “capital social”, variam enormemente (SCOTT, 2000; DEGÉNNE; FORSÉ, 1999). De todo modo, a ARS tem seu lugar nas Ciências Sociais contemporâneas porque, ao mesmo tempo em que enseja uma nova “metodologia” capaz de integrar diversas técnicas (sejam quantitativas ou qualitativas), também contribui para a consolidação da teoria social geral, como os apontamentos sobre a integração analítica macro/micro e disputas adjacentes – por exemplo, a proeminência ou não da estrutura sobre a ação individual (DEGENNE; FORSÉ, 1999, p.9-10).
No âmbito da ARS, quanto ao refinamento do conceito de redes sociais, Boyd apresenta um avanço ao sugerir o aprofundamento das análises a partir do estudo de Mark Granovetter (1973), sobre a “força dos laços fracos”, mesmo assim, a autora segue utilizando a noção de redes sociais como “redes interpessoais” (BOYD; ELLISON, 2008, p. 639). Granovetter (1973), nesse estudo pioneiro da ARS, mostra que, em diversas situações sociais, os laços fracos, em uma rede de relações pessoais (especialmente amizade), proporcionam maior flexibilidade na circulação de informações com relação à disponibilidade de novos empregos, no mercado de trabalho e, consequentemente, maiores possibilidades de renovação social. Outro aspecto positivo encontrado nas redes sociais, analisado pelo sociólogo Granovetter (1973), refere-se ao fato de os laços fortes (strongties) serem mais importantes do que os laços fracos (weakties), formados pelos indivíduos.
Esta visão estava errada, segundo os sociólogos, pois as pessoas que mantém laços fortes são amigos que compreendem um mesmo círculo social, em contrapartida, os laços fracos são formados por pessoas de vários círculos sociais (RECUERO, 2004). Afinal, laço forte é a denominação que Granovetter (1973) atribuiu à conexão direta dos atores em uma rede. Burt (1992) acrescenta que, quando o contato é feito por pessoas que já se conhecem, como no caso dos laços de cooperação fortes, as
informações a serem compartilhadas tendem a serem as mesmas, com baixa tendência para mudança. Por sua vez, laço fraco é a representação de contatos indiretos formados por meio de pontes, fornecendo diferentes fontes de informação e tornando a rede propensa à inovação (GRANOVETTER, 1973).
Ou seja, laços fracos representam conexões entre pessoas de grupos sociais diversos. Nesse sentido, no caso das redes de cooperação entre autores, os laços fracos representam laços indiretos, operacionalizados por meio da interação entre um autor que publica com outros pesquisadores.
Finalmente, a partir do experimento de Milgram e das teorias de Granovetter, Duncan Wattse seu orientador, Steven Strogatz, descobriram que as redes sociais apresentavam padrões altamente conectados, tendendo a formar pequenas quantidades de conexões entre cada indivíduo (RECUERO, 2004). Partindo de outra perspectiva, (GURAK; CACES, 1992 apud RECUERO, 2004) sugerem que as redes conectam as populações em sociedades expulsoras e receptoras de maneira dinâmica.
Servem como mecanismos interpretativos dos dados, informações e outros recursos de ambos os extremos e direções. São estruturas simples que possuem o potencial de se tornarem mais complexas à medida que o sistema de migração se transforma. Além disso, a análise de redes possibilita meios de avaliação dos sistemas migratórios que vão além do foco sobre as motivações dos atores individuais, embora permaneça bastante próximo ao nível das relações humanas concretas (GURAK; CACES, 1992 apud RECUERO, 2004).
Contudo, mais uma vez, a mensuração e visualização empírica dessas redes permanecem no terreno das conjecturas. Seguindo o caminho já trilhado por Boyd e Ellison (2008), Gurak e Caces (1992 apud RECUERO, 2004) avançam um pouco mais ao salientarem de forma mais sistemática e criteriosa a análise das redes a partir da ARS, propriamente dita. Outro avanço significativo é a compreensão do papel das redes em diferentes dimensões do processo migratório. Desse modo, os autores sugerem que a rede migratória não precisa ser fortemente institucionalizada, mas pode se organizar em torno de um princípio compartilhado: isto é, a rede de migração difere de grupos sociais específicos como a família, mas, podem sobrepor vários grupos em um único processo social.